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25 de julho de 2011

De Repente, Califórnia (2007)

Um filme de Jonah Markowitz com Trevor Wright e Brad Rowe.

São muitos os filmes que ressaltam e trazem para reflexão uma mensagem de autoaceitação, do mesmo modo que o tema não se esgota com o tempo já que as situações são diversas. Para isso, cria-se um filme sobre patologias, mutantes ou de aparência. Paralela a essas situações, há outra diversidade que é jogada em tela: a sexual. O cinema acaba atingindo o público LGBT com mais facilidade com uma abordagem mais ampla e voltada não só a romances entre homens e mulheres. Os indicados ao Oscar, Meninos Não Choram e O Segredo de Brokeback Mountain são exemplos de uma história de amor bem-contada que cativa todos os públicos. Mas juntando as duas mensagens, autoaceitação e amor homossexual, temos De Repente, Califórnia, um filme que não se esforça em fugir dos clichês amorosos, mas se difere por contornar um tabu com naturalidade.
Zach (Trevor Wright) é um jovem que trabalha como cozinheiro em uma lanchonete. Seu maior sonho é cursar uma escola de artes, a qual foi obrigado a desistir para tomar conta do sobrinho Cody (Jackson Wurth) enquanto sua irmã Jeanne (Tina Holmes) sai com as amigas e com o namorado. Em seu tempo livro, Zach anda de skate e surfa com seu melhor amigo Gabe (Ross Thomas) e mantém um relacionamento instável com Tori (Katie Walder). Toda a vida do menino muda quando o irmão mais velho de Gabe, Shaun (Brad Rowe), volta para casa. A partir daí, nasce um sentimento maior que amizade entre os dois.
Há dois trunfos totais no filme. O primeiro deles é um relato intenso, resultado de vários fatores que auxiliaram em todo o ambiente para florescer a veracidade da paixão. O cenário, que alterna entre cenas praianas e o subúrbio, mantém uma diferença que é bem acentuada em cada tomada. A fotografia de Joseph White é composta por tons bastante claros, o que interfere em algumas cenas filmadas à noite, principalmente, mas ainda assim consegue trazer às situações do longa-metragem uma suavidade emocional, que combina com o ritmo detalhista das experiências do protagonista. As atuações beiram o bom e nenhuma se destaca das demais, o importante aqui é o caráter dos personagens. Cada personalidade complementa o que falta à outra nas cenas, e é trabalhando com essas pessoas incompletas que o filme mostra sua história de união. É uma graça ver o sobrecarregado e extremamente preocupado Trevor Wright se unir ao descontraído e divertido Brad Rowe. Ambos se completam, e aí o filme ganha. A química entre esse casal é inegável, e a forma com que ambos exploram os lados da paixão - cada um em sua cena mostrando um sorrisinho, um gesto que diferencie um estado passional e um estado normal - é ótima. Todas as nuances foram bem acrescentadas à trama, que as acolheu de uma boa forma.
O personagem principal fica claro nos primeiros minutos: é uma história sobre Zach. Aos poucos o espectador se encontra a par de todos os seus obstáculos na vida. Primeiramente, ele serve de apoio para a irmã ultrarrealista, que praticamente acaba com a vida do irmão para poder embarcar em seus próprios sonhos. É a destruição da vida dele para ela poder ter uma chance. Além de servir como suporte para Jeanne, ele ainda é uma figura paterna para Cody, que nunca conseguiu criar laços familiares mais fortes com o pai ausente. O tio acaba sendo um substituto, pela maneira amorosa que acolhe o sobrinho como se ele realmente fosse seu filho. Por mais que esse relacionamento seja subentendido pelo roteiro, que caiu no pecado do lugar-comum, outras interações entre os personagens acabam parecendo superficiais demais no meio de uma história cheia de detalhes sobre surf. Um exemplo disso é a relação entre Zach e Tori. O olhar de um não passa amor para o outro, e nada confirma uma relação entre ambos se não fosse a frieza dos cumprimentos.
A maior relação dos personagens é a muitíssimo bem explorada de Zach e Shaun, que traz outra barreira para a confirmação da paixão recíproca. Por mais que Shaun seja convicto de sua opção sexual, Zach até então se acreditava hétero. Ele até tinha um relacionamento com Tori, o que deveria confirmar sua sexualidade. A dúvida é o outro triunfo de De Repente, Califórnia, e Trevor Wright envolve isso em cada passo diário de seu personagem. Estar com Shaun é o que lhe faz sorrir em seu defeituoso ambiente familiar e  em seu trabalho medíocre, mas ainda assim ele não está certo de que é isso que quer para a vida. Ainda mais com Jeanne, que além de não deixá-lo viver sem estar ligado com os problemas pessoais dela, ainda explicita sua homofobia. Mas como Zach pode buscar aceitação se nem ele se aceita? Quando ele vê sua relação com Shaun do lado de fora, ele se renega. Para o Zach que a família quer que ele seja, ele deve continuar num relacionamento conturbado, longe de seus sonhos e completamente infeliz. Para o verdadeiro Zach, ele apenas que cursar a escola de artes e achar sua felicidade pessoal. E como se desiste tão fácil de uma felicidade que ele possui ao lado de Shaun apenas para ser a idealização alheia? Aos poucos, o homossexualismo floresce na mente de Zach, e o diretor estreiante acerta em mostrar, calmamente, a longa caminhada de compreensão e aceitação.
Um filme belo, feito para o público sentir a chama da paixão. Para Shaun, Zach é a inspiração de seus livros inacabados, o amor que ele finalmente encontrou depois de anos à procura. Para Zach, Shaun é a autoestima e o equilíbrio que lhe faltavam para ele iniciar uma vida sem ser dependente de ninguém. De alguma forma, essa história se tornou latente em meio ao cenário clichê de romances. De Repente, Califórnia não foi feito para ser um marco, mas um pequeno relato do amor verdadeiro que se passa em cada local, adaptando a isso numa realidade que, ainda hoje, sofre com o preconceito diariamente.
NOTA: 7

9 comentários:

Rodrigo Mendes disse...

Interessante!
Não conhecia a fita, a trama não parece fugir muito do gênero. Verei!
Gostando do seu blog. Textos ótimos!!!

Abs.
Rodrigo

renatocinema disse...

Adoro produções e roteiros que abordam esse tema como os filmes que você citou, que acho muito bons.

Preciso ver esse filme urgente.

Li outros elogios dele e o seu me instigou ainda mais.

Cristiano Contreiras disse...

Um filme íntegro e autêntico que mostra bem os caminhos perigosos, e reais, do universo homoafetivo. Sem medo, sem afetação e estereótipos banais. Gosto muito e, para mim, o filme vale uma nota 8,5 pelo argumento e sensibilidade. O elenco é também bem dirigido, a fita não tem grandes dimensões, mas cativa.

Adorei seu texto!

Drisph disse...

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abraços

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Ainda não vi, Gabriel... Estou com post novo sobre o tema "Amor Entre Homens no Cine Britânico".
Abraços,

O Falcão Maltês

Matheus Fragata disse...

Ainda não assisti, cara. Ainda estou com dúvidas a respeito deste filme, mas sua analise da relação dos personagens ficou ótima - desperta o interesse do leitor!
Abraços, amigo!

Luiz Santiago disse...

É um filme que trabalha em cima do clichê chic, e o faz tão bem, que, concordo com você, merece 7... Ou 6,5, pra ser mais justo. Hahaha

Conversava com um amigo recentemente sobre o filme e ele me disse uma coisa sobre o filme que eu não havia pensado ainda: muitos problemas pelos quais o nosso mártir protagonista passa é ele mesmo quem procura...

alan raspante disse...

É um bom filme, mas fica aquela sensação de estar faltando algo. Tem uma trama bacana e tudo mais... Mas, falta "liga", sei lá. Mas é bom, tem uma boa discussão em foco, mesmo que mal desenvolvida em diversos aspectos.

Abs.

sofia martínez disse...

É muito bom! Eu realmente gostei do filme, é uma história que consegue contar uma bela história com realismo mágico corantes sociais pacíficas e pretensões ideológicas. Também me lembra lserie looking sobre o tema da homossexualidade, mas numa perspectiva mais atual.