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16 de abril de 2011

O Iluminado (1980)

Um filme de Stanley Kubrick com Jack Nicholson e Shelley Duvall.

Here's Johnny! Quando Jack Nicholson, numa atuação impecável, fala essa frase icônica no clímax de O Iluminado, já estamos com tanta pressão em nossa cabeça para acompanhar as cenas anteriores e as que ainda virão que sabemos que o filme ficará marcado. E ficou. Gostaria de ver um adulto, que assistiu o clássico do terror Psicose nos anos 60, e um adolescente, que assistiu o mesmo filme nos dias de hoje. Não se pode negar os efeitos do cinema de Alfred Hitchcock, mas não será a mesma coisa. Pânicos e Massacres da Serra Elétrica escracharam o terror num show sangrento. Agora acho que a reação entre duas pessoas de épocas distintas diante de tamanha obra como O Iluminado seria a mesma. O filme se utiliza de um terror psicológico sem igual, gerado por distúrbios do isolamento e da solidão, do convívio diário e cansativo, da sensação de prisão. E tudo permanece atual.
Jack Torrance (Jack Nicholson) acaba se interessando em ser o vigia de um hotel no Colorado durante a temporada de inverno, já que com a solidão dessa época poderá, finalmente, ter tempo para escrever seu livro. Ele, para não ficar inteiramente sozinho, vai com sua mulher Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd). Porém, enquanto os dias passam, o isolamento começa a corroer Jack, que fica cada vez mais solitário para conseguir escrever algumas palavras de seu livro. Ao mesmo tempo, Danny começa a ter visões do passado do hotel, onde um terrível assassinato ocorreu.
As atuações tem seus altos e baixos, para um perfeito contraponto. Jack Nicholson esteve possuído para fazer esse personagem, não há outra explicação. Suas manias, suas ações, todos os seus movimentos captados por uma câmera bastante intimista, a defesa dele na pele do próprio personagem, a loucura proveniente do isolamento, tudo é perfeitamente interpretado por Nicholson, ele é com certeza um grande fator para O Iluminado ser o clássico que é atualmente. Sua atuação visceral transmite tanto medo quanto o filme em si. Agora se tamanho talento de Nicholson é desculpa para a falta dele em Shelley Duvall, isso eu já não sei. Não que ela seja ruim, mas não dá para suportar suas facetas exprimindo felicidade e medo na mesma cena que o marido, tudo que ela faz parecia tão forçado que poderia até comprometer o filme. Ainda bem que o filho puxou os genes do pai, Danny tem uma interpretação ótima para uma criança, e suas cenas demonstrando a perturbação entre flashbacks de uma chacina são fascinantes.
A direção de Kubrick é um diferencial importantíssimo para o filme, já que suas diversas tomadas são necessárias para que o medo idealizado por King se transmita nas telas de cinema. A câmera, irriquieta, consegue aos poucos mostrar todos os ângulos possíveis do terrível hotel onde a família está confinada. A movimentação dela consegue criar uma atmosfera tão interessante nas cenas que nos sentimos bem perto, explorando o ambiente e nos envolvendo com os personagens. Por mais que seja um clássico do terror e do suspense, a fotografia é mais clara do que escura, não há blackouts para encobrir mistérios e segredos. Afinal, se alguém for ver O Iluminado esperando um banho de sangue e de coisas sobrenaturais, pode até sair desapontado. Elas estão presentes, mas o roteiro adaptado não permite tamanho aprofundamento em certos aspectos, como as visões do garotinho ou o fato de Jack ser um alcoólatra, o que foi bastante criticado por fãs de Stephen King.
Tudo no filme leva ao desfecho, o que não tira os méritos de perturbação das outras cenas. Além do mais, essas cenas são exatamente a base para o que está por vir. Podemos falar o que quisermos de uma vida solitária, mas não dá para aguentá-la completamente sem sofrer algum distúrbio. A sociopatia, algum modo de introspecção, alguma maneira de evitar a sociedade. E o mais suscetível a esse isolamento doentio é Jack. Ele começa a desenvolver uma agorafobia no auge de sua insanidade, já que não permite a aproximação de ninguém no ambiente sacro representado pelo hotel amaldiçoado, assim como sua saída desse lugar pode ser a morte. E, paradoxalmente, ele desenvolve uma claustrofobia do ambiente de vida, precisando de uma mudança constante para continuar se mantendo são psicologicamente. Ele não consegue lidar com o fato de ter um bloqueio em sua veia criativa, e coloca a culpa na fragilidade da mulher e nas doenças do filho, que lidam com a situação com medo. E, quanto mais perturbado ele fica, mais o hotel adentra em sua mente fazendo-o crer em alucinações e lidar diferentemente com a situação. O trabalho fala mais alto que suas relações pessoais. Mas muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobão.
Há sempre aquela frase preferida no fim de uma sessão proveniente de uma adaptação, "o livro é bem melhor". Quando o filme é adaptado de uma obra de Stephen King, tudo piora. Não conheço outro escritor que consegue transmitir tamanho medo através de páginas como esse mestre. E é bem difícil colocar essa mesma sensação dos livros para as telas. À Espera de um Milagre, Carrie, A Estranha, O Apanhador de Sonhos, It, Christine - O Carro Assassino, por melhores que sejam, nenhum trouxe o mesmo horror da versão original. Mas sempre existe uma exceção, e claro que para conseguir superar o livro, tinha de ser de um gênio do cinema. A versão original do cinema de O Iluminado, dirigida pelo mestre Stanley Kubrick, não conseguiu críticas positivas na época em que foi lançada, porém hoje já é considerado o épico do cinema de horror. Com razão certa, ao contrário de filmes que envelhecem com o tempo, O Iluminado permanece igual aos livros de King: um clássico atemporal.
NOTA: 10

8 comentários:

Adecio Moreira Jr. disse...

O menino com conversando com o dedo no espelho, as gêmeas do corredor, a velha na banheira, a cena do machado...

Enfim, só um clássico do terror poderia produzir tantas cenas assustadoras.

^^

Rodrigo disse...

Adoro o filme, mas não considero tudo isso que certas pessoas dizem. E sinceramente, Stephen King escreve livros. O cara não entende de cinema. O longa é bem melhor que ele e certos fãs dizem. Abraços.

Andinhu S. de Souza disse...

Duvall deixou o filme ainda mais assustador com aquelas caras e boas que ela fazia. heheh

enfim, obra-prima do tio Kubrick, porém não é meu preferido dele, ainda fico com Laranja, 2001 e Nascido para Matar.

Abraços cara!

Rafael W. disse...

Obra-prima do terror! Apesar de ter ficado MUITO diferente do livro, Kubrick soube criar um clima absurdamente magnético, e cenas assustadoras e clássicas. Nicholson está estupendo, mas Duvall irrita pacas!

http://cinelupinha.blogspot.com/

diego disse...

De todos que já assisti do Kubrick, esses é o mais fraco, e ainda sim consegue impor um suspense inigualável, só mesmo um genio pra fazer um obra assim...!!! Nicholson está perfeito mesmo..!!

Cristiano Contreiras disse...

Acho esse filme espetacular, obra prima e um clássico do terror psicológico. Mas, bem verdade, é BEM diferente do livro proposto por Stephen King. Sinceramente, o livro é infinitamente melhor, mas eu procurei não comparar - afinal, a adaptação e visão de Kubrick deu todo um "ar" novo e teve estilo, impacto.

Muitos falam mal, mas deveriam ter vivenciado este filme sem comparar com o livro, talvez reconhecessem o quão foi forte.

Mas, nem o King gostou do resultado, tanto que ele próprio adaptou o seu livro pra uma versão minissérie feita pra tv, em 1997. Recomendo, procure, é bem assustadora e EXATAMENTE igual ao livro original.

abs

alexandre disse...

Ola
Parabens pelo blog!
Abcs

Alexandre Taleb
Consultor de Imagem/Personal Stylist
AICI - USA member - association of image consultants international
Blog: http://ataleb.wordpress.com
Site: www.alexandretaleb.com.br

Natalia Xavier disse...

Clássico de Kubrick, sem duvida. Eu fico impressionada com a atuação de Nicholson em quase todos seus filmes, e nesse parece que ele se supera, os olhares, jeito, tudo.

Abs!