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26 de fevereiro de 2011

Reencontrando A Felicidade (2010)

Um filme de John Cameron Mitchell com Nicole Kidman e Aaron Eckhart.

Com a filmografia de John Cameron Mitchell, é de se esperar algo mais sexy e polêmico do que Reencontrando a Felicidade. Sua primeira obra, o musical adaptado da Broadway, Hedwig: Rock, Amor e Traição, lida com a história de um transsexual numa banda de rock. Depois disso, quem achou que ele não poderia mais quebrar tabus se enganou, já que ele veio com o sexual Shortbus, um filme que explora as diversas maneiras de se livrar da monotonia diária através de uma surpreendente diversidade sexual. Em seu novo trabalho, ele consegue levar um drama baseado completamente numa trama emocional por si só e pelo sofrimento diário de dois atores bastante competentes. Se em seus outros filmes ele trabalhava de maneira alegre, aqui é exatamente o que não se esperava: melancolia, desespero e uma tristeza e inconformação que não se revertem e nem acham um motivo para serem revertidas. O ponto comum aqui de Mitchell é mostrar a outra face de pessoas que não conseguem esquecer a tristeza e a maquiam no cotidiano.
Becca e Howie Corbett (Nicole Kidman e Aaron Eckhart, respectivamente) tinham tudo para serem um casal feliz. Um bom-humor, conseguem viver juntos, uma bela casa, ambos com um bom emprego, vizinhos e amigos agradáveis, uma vida social ativa. Tudo, mas há uma lacuna na vida do casal que nunca será preenchida. Numa fatídica tarde, o filho deles, Danny, ao correr atrás do cachorro da família, é atropelado por um adolescente e morre na hora. Por mais que o tempo passe, a dor do casal não muda. O filme retrata os acontecimentos de 8 meses após a morte da criança e de como o casal lida com o assunto que ainda permanece vivo dentro deles.
Quando uma criança perde os pais, há um nome para definí-la. Chamam-na de órfã. Quando alguém perde um companheiro querido, há um nome para definí-lo. Chamam-no viúvo. Quando alguém perde um filho, não há nome algum para se definir essa pessoa. Talvez, triste. Melancólica. Desesperada. Cada dor é especial e forte à sua maneira, e quem não perdeu um filho não sabe o que é esse drama vivenciado com tanta intensidade na tela por uma Nicole Kidman frágil e exposta, que consegue mascarar a sua dor, intensificando-a cada vez que ela surge. Ela não consegue esquecer o filho, e não há culpa aí, não é para se esquecer. Pais que perdem os filhos vivem uma vida normal ou até fingindo que o são, mas nunca esquecem o que tinham. Isso fica evidente nas lembranças de duas mães que perderam os filhos, representadas por Kidman e uma Dianne Wiest de tirar o fôlego. "Como você aguenta?", pergunta Kidman para a mãe. "A dor ainda está lá. Ao passar dos anos, ela vai diminuindo, mas continua lá. É como se você carregasse um tijolo no seu bolso a todo lugar que fosse", responde uma Wiest exprimindo sua dor. "Você o carrega para todo lugar e até o esquece, mas ele ainda pesa".
E para acabar com o peso de seu tijolo, o que faz Becca? Finge esquecer sua dor, tentando fingir que o filho não existiu num estado subconsciente de negação, jogando roupas, brinquedos, desenhos fora. Mas o esquecimento não é a resposta. Ao ter de aturar sua família, composta pela mãe que também sofreu a perda de um filho, e da irmã que se encontra grávida, ela vê tudo voltando à tona. A fragilidade dela fica no interior da figura de uma mulher forte, mas perturbada por dentro. Ela só precisa fingir para todos que tudo está bem, mas no fundo ainda está estilhaçada. E o único confidente que acha para compartilhar sua dor infinita é o assassino do filho, Jason, interpretado por Miles Teller. No garoto, ela vê a esperança de alguém que entenda sua dor, exatamente quem a causou. E ao mesmo tempo que ela vive remoendo uma morte, o menino também tem de conviver com uma culpa diária. Mas, ao contrário de Becca e Howie, ele ainda acha motivos para viver. Ele ainda tem um futuro para construir, coisas para aprender. E Becca não consegue mais enxergar uma motivação que a faça esboçar um sorriso, imagine ter de conviver diariamente com seu sentimento de perda, e ainda ver sua irmã imatura tendo uma graça que lhe foi privada.
Ao passo que Becca vai acrescentando fingimentos em sua vida, Howie não faz esforços para mostrar o quanto ainda sofre com a perda do filho. Aqui Aaron Eckhart, numa atuação bastante intimista e competente, cria um pai que tem de ver o problema maior: por mais que o sofrimento da família seja visível, eles não podem escapar de pagar contas e viver baseados num sistema movido por capital. Ele ainda tem que trabalhar e esquecer de sua vida para sustentar a família. Ao mesmo tempo que isso é bom, o que o deixa com algo para se distrair ao invés de pensar na criança o dia inteiro, é péssimo, já que ele se torna cada vez mais dependente de memórias da rápida infância que ele viu em sua casa. E, por isso, guarda os momentos felizes com o filho em seu interior, resguardando tanto a bondade quanto as mazelas que o tempo trouxe. Essa sua mágoa o faz compartilhar com qualquer um a sua dor, exceto com a esposa que parece querer aumentá-la.
Imagine um forte apego, que insiste em sumir de uma hora pra outra. Imagine um cômodo de sua casa que você não consegue entrar sem cair aos prantos. Imagine não sair com medo de ouvir resquícios de uma infância escondidos em uma risada, com medo de falar sobre o que te atormenta. O filme é um retrato da dor, mostrado em uma fotografia azulada e triste, em cenário e roteiro extremamente simplistas e em situações e interpretações poderosas do casal Kidman e Eckhart. O longa metragem não tem pressa em mostrar todos os lados das personagens, afetiva e psicologicamente. Dizem que quando uma criança perde o pai, esta perde um passado, mas quando pais perdem o filho, estes perdem um futuro. O casal daqui não só perdeu o futuro como o completou com um estado depressivo que está impregnado na atmosfera de Reencontrando a Felicidade.
NOTA: 8

7 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Belo texto que descreve como densa e triste é essa trama do filme. Eu me senti mal ao ver a personagem de Kidman despedaçada, na maneira como o roteiro evidencia ela e Eckhart sem chão, inconsoláveis com a perda de um filho. Não existe coisa pior que isso. E o filme é simples mesmo, mas íntegro e autêntico. O roteiro é delicado, mas intimista e mostra com veracidade a dor humana...a perda...esse aprendizado tão sufocante do casal...e é impossível não nos emocionarmos, né mesmo? Gostei muito do filme, da atuação de Kidman e é uma pena que Aaron Eckhart também não tenha sido reconhecido no Oscar. É um ator perfeito!

Abraço!

Rodrigo disse...

Cara, como você escreve bem, conseguindo pegar as emoções de um certo filme e colocar no texto. Sobre o longa, ele é sóbrio, realista e emocionante. Ou seja, muito bom. Abraços.

Bi Neves disse...

Me mata de orgulho esse Gabriel. Adoro a forma como escreve, como se posiciona,como nos instiga a assistir aos filmes que comenta... Continue sempre nos brindando e deliciando com suas críticas. Sou super fã!!!

Karla disse...

tudo herdado da tia kkkkk est´~a sublime a crítica. Depois de ler só me resta assistir e apreciar o filme!!!!!!!!!!!!!!!!bjssssss

Alene disse...

Mt legal teu blog..mas vc poderia evitar falar muito do filme. pra quem n viu fica meio complicado...seus textos podem ser mais objetivos...

adorei kidman no filme e gostei dela lindissima no oscar...

beijao

renatocinema disse...

A trama do filme me atraiu muito.......Além disso, sou fã de Nicole Kidman, desde De Olhos Bem Fechados.

Vou assistir. urgente.

Dulce María disse...

Disse tudo ,Nicole é soberba,uma atriz magnifica , lindaaa no oscar!