Pages

25 de janeiro de 2011

Biutiful (2010)

Um filme de Alejandro González Iñárritu com Javier Bardem e Maricel Álvarez.

Muitas pessoas vão ao cinema ou assistem filmes e os utilizam como uma válvula de escape do mundo real, umas duas horas fora de sua vida. Alguns assistem filmes para não encararem a realidade dolorosa e acabam vivendo num mundo apenas cinematográfico, onde o romance e a ação acontecem a qualquer momento. Pra essas pessoas, ver um filme de Iñárritu deve ser uma tarefa dolorosa. Não se deixe enganar pelo título, de bonito Biutiful só tem o nome. Ainda por cima escrito errado. E não espere uma visão romântica de Barcelona como Woody Allen mostrou em Vicky Cristina Barcelona. Aqui o diretor faz um jogo de imagens para criar um retrato contrastante da magnífica cidade-turística. Isso tudo sem escapar da realidade em seu relato cru de um lugar com duas caras. O problema é que apenas uma cara desse lugar é promovido.
Uxbal (Javier Bardem) é um médium que nunca conheceu o pai e perdeu a mãe ainda muito cedo. Na sua vida, ele é casado com Maramba (Maricel Álvarez), uma mulher que tem transtorno bipolar e frequentes recaídas. Além disso, ele tem dois filhos, Ana e Mateo (Hanaa Bouchaib e Guillermo Estrela, respectivamente) que sustenta arduamente. Ele ganha dinheiro usando o seu dom para falar com os mortos e descobrir o que lhes afligia na vida real, além de explorar imigrantes ilegalmente africanos e chineses. E, na sua vida, ainda tem que resolver problemas sobre o túmulo do pai junto com seu irmão Tito (Eduard Fernández). Para piorar, Uxbal descobre que tem câncer de próstata e que lhe restam apenas poucos meses de vida.
O filme é de uma densidade incrível. E como disse, não foge da realidade. Na verdade, a confronta. Tudo em Biutiful parece um jogo imenso de figuras armado por Iñárritu. Vemos cenários de uma cidade que vai além do que pacotes de viagem podem mostrar. Temos um contraste claro ao ver a Sagrada Família em segundo plano, transformada numa sombra pela presença de uma enorme favela em seu entorno. Há uma cena na obra em que os imigrantes africanos, ao estarem vendendo drogas na cidade alta, são perseguidos por uma polícia cheia de ódio e raiva, e uma vontade enorme de lucrar. A falta de pudor nas cenas seguintes, cheias de uma violência gratuita, são dignas desse longa. Enquanto os imigrantes correm pelas ruas de Barcelona, os cidadãos tranquilos, tomando seu café da manhã, finalmente tomam conhecimento dos africanos que andam pelas ruas da sua 'pacata' cidade, ao vê-los esbarrarem em mesas e pessoas numa desesperada fuga por liberdade. O jogo imenso de Iñárritu consiste nisso, fazer um balanço entre o 'beautiful' e o 'biutiful' numa cidade julgada por um preconceito mundial.
Outra curiosidade é a veracidade no personagem tenso de Bardem, já que ele move o filme. Com uma atuação perfeita, ele entra na pele do médium sofrendo os sintomas de um câncer avançado. E isso com maestria, as cenas finais, tratadas com uma frieza no auge do sentimentalismo previsto no início do longa, são dignas de sua indicação para o Oscar de melhor ator. O que o filme faz é simplesmente não esconder as facetas dos seres humanos. Uxbal sempre guardava o dinheiro de seus bicos para uma situação imprevista com os filhos, e utilizava seu dom de maneira incorreta, visando o lucro em seu difícil mundo. Não é para julgá-lo, mas a vida dele é realmente deplorável. Ele, que no começo do filme era o sustento da mulher bipolar, de seus filhos completamente dependentes e dos imigrantes que ele agenciava ou protegia por seus contatos na polícia, se torna um inútil após o câncer. Ao ver que a mulher começa a tomar as rédeas da situação familiar, ele se torna revoltoso, porém passivo. A doença o consome de forma a torná-lo impotente em relação a tudo. Um ótimo exemplo é o filho dele, uma criança insegura que ainda faz xixi na cama. À medida que o filme avança, Uxbal é quem começa a mijar nas calças, graças à incontinência urinária adquirida.
A peça que causava o equilíbrio familiar se torna mais dependente do que nunca. E não fala isso para ninguém. O filme ainda é bom para essa questão do machismo. Por conta da falta de cuidados, os homens morrem mais que as mulheres por tentarem parecer mais fortes do que realmente são. Se os sintomas de um possível câncer chegam, a ida ao médico só acontece dois meses depois, quando a dor se torna insuportável. O homem se torna tão dependente em seu silêncio que não são precisas palavras para se ver o quanto a morte se aproxima. Ige, uma imigrante senegalesa interpretada muitíssimo bem por Diaryatou Daff, vivia com o sustento de Uxbal. Quase no desfecho, ela que rege a casa dele, fazendo as tarefas diárias, levando as crianças para a escola, cuidando do médium enfermo e ainda tomando conta de um bebê. Todo esse cenário doentio é mostrado com o auxílio de uma fotografia escura, uma trilha sonora marcante e certeira e sua atmosfera pesada, cheia de sinais refletindo o quão perto está a morte de Uxbal.
Seja um relato intimista de uma vida miserável, seja uma denúncia às condições precárias vividas diariamente por milhares de seres humanos que se rebaixam em sua classe, seja uma crítica forte ao capitalismo, que vem antes de uma vida atualmente, - retratado muito bem na cena dos aquecedores ou a cena final de Ige - Iñárritu mostra que também consegue fazer filmes excelentes sem Guillermo Arriaga. São confissões bastante densas e hostis combinadas com a Barcelona existente e não vista hoje em dia, junto com belíssimas atuações como a de Javier Bardem e da inesperada Maricel Álvarez. Biutiful é um filme belo com um roteiro cruel e triste.
NOTA: 9

6 comentários:

Amanda Aouad disse...

É, a escrita errada é mesmo para dar o indício de que não tem nada bonito. É bom ver, Javier Bardem novamente em boa forma.

Gostei de seu blog também, Gabriel, voltarei outras vezes.

abraços

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Tô louco pra ver esse filme, Gabriel!
Abraços,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Cristiano Contreiras disse...

Estou bem ansioso pra conferir, ainda mais pela indicação pra Bardem e pela premissa do filme, muito me interessa.

Belo texto!

abs

Alan Raspante disse...

Preciso dizer que estou louco pra conferir? hihihi

ps.: Ficou ótimo o novo layout. Arrebentou!

[]s

! Marcelo Cândido ! disse...

Deve ser marcante!

renatocinema disse...

Alejandro González Iñárritu é muit bom.

Gosto de todos os seus trabalhos. Esse filme ja esta na minha lista, urgente.

Sobre True Blood é verdade. Muito bom, com ótimo roteiro. Série instigante e liquidificador puro.kk

Abraços