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9 de agosto de 2011

A Última Noite (2010)

Um filme de Massy Tadjedin com Sam Worthington, Keira Knightley, Eva Mendes e Guillaume Canet.

A construção de uma vida íntima compartilhada deve ser dada por pessoas que partilham a reciprocidade sentimental, ou é inevitável discussões e uma quebra de relações. Nesse jogo de sentimentos, deve-se saber bem o que se passa pois apenas um sentimento a menos já compromete anos de relacionamento. Com a igualdade, até o ciúme sobrevive e se torna saudável em meio a um ninho de amor provindo de ambos os lados. Mas e quando os dois não sentem a mesma coisa? E quando a partilha vem mais de uma parte do que de outra? O comum nesse caso é o adultério, assunto já banalizado há tempos. Quando a sociedade se esquece que a traição é um corrompimento do amor e não causa mais espanto algum atualmente, onde iremos parar?

Conhecemos Joanna (Keira Knightley) e Michael Reed (Sam Worthington) são casados há 4 anos. Os dois se conheceram na faculdade e estão juntos desde então. Numa noite, Joanna começa a sentir ciúmes de Michael  pela relação do marido com Laura (Eva Mendes), uma colega de trabalho, e isso leva a uma discussão. No dia seguinte, Michael viaja com Laura e outro colega para Filadélfia, deixando Joanna desolada em Manhattan. Porém, quando ela sai, ela encontra Alex Mann (Guillaume Canet), um amigo antigo dela que, aos poucos, reacende uma paixão escondida de Joanna.

O principal trabalho do filme se dá na forma da traição. Afinal, ambos os tipos são péssimos para um casal ou um pesa mais do que o outro? Michael não resiste a beleza de Laura, no fim das contas. Realmente, há uma atração pela personagem de Eva Mendes, mas nada mais que isso. Não há emoção, não há amor, não há sentimento, há o prazer carnal. Há a forma que ele encontrou para utilizar o excesso de sua libido, que foi reprimida após as discussões de interesses com sua mulher. Mas o fato é que ele ama Joanna. Michael ama Joanna, mas apenas um pulo da cerca vai fazer um mal? O problema é sua consciência gritando pelo ato errôneo que consumou. O desejo de apenas uma noite começa a lutar com a paixão de toda a sua vida, eclipsada por um instante de loucura e distância. Compreensível? Sam Worthington possui a atuação mais fraca do filme e isso fica claro em sua inexpressão, que deixa difícil decidir o que ele vai fazer na próxima cena. Por um lado é bom, já que o filme fica imprevisível em suas cenas de dúvida. Por outro lado é péssimo, já que ele alonga o distanciamento entre o público e o seu personagem num filme feito para as pessoas sentirem. Eva Mendes rouba as cenas dele com mais expressão e consegue convencer com sua sensualidade ao lado de Worthington, mas qualquer química entre os dois ainda parece forçada, por mais que o relacionamento evolua nos 90 minutos de sessão.

A traição do sexo é o banal de hoje em dia, algo que é considerado normal para quem vê e pecaminoso para quem sofre. Apenas a simples imagem de um marido dividindo a intimidade do leito com uma intrusa é assustadora o suficiente para um divórcio racional. Mas será que o pior é amar alguém e viver uma noite de aventura? Ou será amar o intruso do matrimônio, e viver uma vida de infelicidade? Aí está o papel de Keira Knightley. Joanna ama Michael, e isso ela deixa claro em sua noite. Mas, comparado com o amor que ela nutre por Alex, sua paixão de Michael é pequena. Por mais que um ato sexual não seja mostrado entre os dois por respeito ao casamento de Joanna, o quão melhor é trair emocionalmente? Aqui há uma química latente, porque não há a necessidade da paixão vulgar, de viver uma noite apenas com uma transa. O viver aqui é amar, com ou sem roupas, apenas pela proximidade. A presença é o suficiente para o amor de Alex e Joanna viver e sair das telas. Aqui, diferentemente de Michael e Laura, o silêncio diz mais para o público do que os diálogos. Keira Knightley mostra como é uma grande atriz e cria sua personagem com delicadeza e suavidade, sem se apressar em mostrar toda a sua mente ao público. Ao mesmo tempo, Guillaume Canet cria o cavalheiro da noite, que não precisa da sexualidade para consumar seu amor de longos anos.

A beleza das cenas ajuda na construção do filme, assim como o histórico das personagens. Em A Última Noite, diferentemente de outros filmes que utilizam flashbacks ou memórias para explicar o que ocorre na tela, os personagens nos são dados em apenas uma noite e tudo depende do ator para mostrar o caminho que eles vão seguir, para que o público possa decifrar o psicológico e os desejos de cada um. O que dá certo com a personagem principal de Knightley e com o coadjuvante de Canet, assume um tom de insegurança para Worthington, o que acabou ajudando-o a compor a característica principal de seu personagem. Apenas em Eva Mendes o trabalho misto entre emocional e físico não dá certo, já que a atriz tem de revelar suas mazelas para que o espectador possa entender sua motivação. Enquanto os personagens entram em seus altos e baixos a cada corte e acabam chegando ao clímax em um mesmo ponto, os aspectos técnicos permanecem belos e intocáveis. A simples fotografia azulada e clara de Peter Deming e a trilha sonora indefectível de Clint Mansell aumentam o tom romântico do filme, e até os elementos de cena estão perfeitamente enquadrados aqui para deixá-lo visualmente belo. Mas também deve-se falar do roteiro e da direção da estreiante Massy Tadjedin, que estão primorosos e certeiros.

Simples, bonito e cheio de subjetividade é A Última Noite, um filme que fala do amor na traição, do amor a duas pessoas e do cultivo dele de diferentes formas. A vida de Joanna e Michael é ilustrada em apenas um noite e mostra, de forma clara e rápida, como os dois usam seus sentimentos para com o outro. Por mais que tenha uma certa diferença na profundidade das cenas com os diferentes casais, o final consegue unir todas as pontas. A indecisão é o grande tema aqui, a indecisão amorosa que leva a atos impulsivos e consequências pesadas. E quando observamos Keira Knightley ali, parada, sem saber se corresponde a um sentimento que ela não possui, é que nos damos conta que esse filme não é apenas um filme. Ele não veio para contar uma história grandiosa que ocorreu na vida de alguém. Ele veio mostrar um momento de indecisão, terminou num momento de indecisão e continuará, infinitamente, num momento de indecisão. Afinal, essa é a vida.

NOTA: 7

5 comentários:

Victor disse...

Ainda não achei esse filme por aqui, mas tenho desanimado um pouco com as críticas.

E parabéns pelos ótimos textos!

Luiz Santiago disse...

Parece interessante, mas como você colocou em alguns pontos, me parece que há uns tropeços complicados durante a obra, hein...

Nelson L. Rodrigues disse...

Parabéns blogueiro cinéfilo. Seu site foi premiado com o selo Ingmar Bergman.

Para efeito de conhecimento, a regra básica do Selo é que haja uma publicação falando do recebimento, e a exibição do Selo na página em um gadget de imagem permanentemente.

Carol disse...

gostei da sua analise concordo com vc, e esse ator que fez avatar é péssimo a sorte dele é que em avatar ele mal aparece de "cara limpa".

Pedro disse...

ansioso por ver o filme!!
ótimo texto. obrigado pelo comentário la no Cinelupinha
abraços.