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3 de agosto de 2011

A Dama na Água (2006)

Um filme de M. Night Shyamalan com Paul Giamatti e Bryce Dallas Howard.

Até que ponto a justiça é realmente justa? Até onde um conto pode ser crível? Como se devem lidar com as críticas negativas? Há algo mais importante do que a fé, e, do mesmo modo, mais alienante? Todos esses pontos são trazidos à tona em A Dama na Água, o difícil do filme foi aprofundar as ideias de uma forma madura o bastante, definindo o público-alvo, determinando o tom da narrativa e criando personagens que possuam veracidade por trás de atos. O filme do criativo Shyamalan é a prova viva de que nem só um diretor é suficiente para um filme ser bom.

Cleveland Heep (Paul Giamatti) é um homem solitário que vive e trabalha como zelador num prédio cheio de moradores estranhos, cada um com sua particularidade. Numa noite, ele encontra uma pessoa que acaba mudando sua vida: uma menina seminua, que mora na piscina do apartamento, chamada Story (Bryce Dallas Howard). Enviada numa missão para que um determinado humano possa começar a ter esperança e tenha a chance de mudar o futuro, Story se encontra num grande perigo, já que sua espécie - as narfs - são perseguidas por um tipo de lobo, cujo objetivo é eliminar as narfs. Cleveland, conhecendo aos poucos a história da jovem, embarca com ela em sua busca do humano e tenta fazer com que ela volte para o seu mundo segura, e ambos acabam tendo uma fantasiosa jornada de surpresas.

Talvez o que tenha tornado A Dama na Água algo tão abaixo do esperado tenha sido a prática separada da teoria. Não há muito do que se reclamar do roteiro, Shyamalan é considerado por muitos uma das mentes mais criativas em atividade atualmente, e todos os assuntos que ele direciona em seu longa-metragem poderiam ser bem explorados em seu conto de fadas. A hierarquia no mundo imaginário que ele cria para dar vida à sua dama na água é um exemplo excelente para figurar o mundo humano. As narfs são o povo que sofre com a decisão dos extremos; os lobos são a violência, usada para um objetivo perseguido com afinco e que acaba quebrando as regras; e os juízes, representados por macacos cruéis. A justiça, até fora dos padrões de normalidade, é justa? A injustiça é apenas um problema vivido pela raça humana? Mas, existe alguma outra raça consciente da justiça? A coisa que a ficção explorada no filme mais exige é a fé. A crença no absurdo, a fé no irreal, a inocência e a ingenuidade de se acreditar. Talvez, por essa subestimação do público reduzida em um ambiente onde o surreal poderia ser visto como algo maior do que uma atitude escapista, o filme não tenha atingido o seu objetivo. Aqui, para tudo funcionar como se deve, tem de haver uma recepção imediata para todas as informações jogadas na tela durante os 110 minutos da sessão. Não é a toa que a protagonista se chama Story - história em inglês. Tem de se crer nas palavras e nos diálogos para uma adesão positiva ao proposto.

Além da fé e da justiça, Shyamalan acaba trazendo a comicidade para o filme ao mesmo tempo que faz uma crítica aos críticos: dois coelhos com uma cajadada mal-dada. Enquanto ele traz um personagem incrivelmente entediante para fazer o papel do crítico de cinema, o lado cômico desse personagem em prever tudo o que acontece no filme é desnecessário. Talvez não para o realizador, mas para muitas cenas. Afinal, o trabalho dos personagens é algo bastante instável no longa. Cleveland é um zelador traumatizado com seu próprio passado, que cria um drama para ele próprio ter sua parcela de sofrimento no longa. O esteriótipo é tão aparente nos personagens que eles quebram qualquer crença que a história possa ter promovido. Não culpo aqui a Paul Giamatti e Bryce Dallas Howard - que, afinal, fazem um trabalho competente, com um destaque para a facilidade dramática de Giamatti e pelas caras de desespero e inexpressão de Dallas Howard - mas às suas motivações em cena. É bastante difícil crer numa história surreal quando os personagens envolvidos não chegam perto da normalidade. Fica bem mais fácil acreditar em mulheres que vivem nas piscinas tentando fazer um humano despertar para o sentido da vida do que em um menino que vê mensagens subliminares em caixas de cereal, e que possui um pai semelhante, tendo presságios em palavras-cruzadas. Até o próprio Shyamalan, que aparece como um coadjuvante-principal na história, tem sua fatia de superficialidade na interpretação.

Como o roteiro é cheio de passagens desnecessárias na narrativa de um conto de fadas e as atuações beiram o clichê do gênero do suspense, o que resta é apenas a estética - trabalhada com um primor único. A narrativa do filme não é uma das melhores. Na primeira cena do filme, uma narradora acaba ilustrando o que virá a acontecer a seguir por meio de uma animação folclórica. Aos poucos, o que foi omitido da história principal, vai sendo contado os detalhes do resto, tudo dependendo das reações de uma chinesa mal-humorada. Mas o resto é colorido com as cores do diretor. A fotografia azulada de Christopher Doyle ajuda a manter a atmosfera de canção de ninar dark que o filme assume. A trilha sonora do parceiro de Shyamalan, James Newton Howard, acompanha o drama de cada personagem e a jornada de Story para um mundo melhor. Não se pode dizer que Shyamalan é desleixado em seus filmes. Observe a apresentação dos personagens, feito de forma sutil, como se eles fossem aparecer apenas por uma vez e sumissem ao longo da trama; veja a mudança de foco para filmagens dentro d'água, mudanças de planos para ilustrar a luta entre Cleveland e os vilões que buscam a morte de Story: tudo está perfeito. A Dama na Água acabou sendo mais uma experiência bastante pessoal, um filme voltado mais para o diretor do que para o público em si.

O filme acabou sendo um conto de fadas infantil demais para os adultos e sombrio demais para o público infantil. A fantasia acaba se tornando um atrativo em algumas histórias, enquanto em outras é um empecilho que apenas atrapalha a evolução de personagens e de ações. Infelizmente, e para combinar com a qualidade dos filmes recentes de M. Night Shyamalan, A Dama na Água sofreu da segunda situação. Numa história de suspense num apartamento que poderia render um filme tão incrível quanto O Sexto Sentido, e num oceano de fantasias e lendas que viraria algo infinitamente melhor que a adaptação do desenho Avatar: O Último Mestre do Ar para os cinemas, a junção de ambos os estilos não funciona aqui do melhor modo possível. O que funcionou no thriller de fantasias de Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno, aqui virou um filme do diretor indiano feito para ele mesmo e para quem acredita em seu discurso.

NOTA: 3

7 comentários:

renatocinema disse...

Fui no cinema na estréia do filme......que decepção.

Seu texto conclui perfeitamente: "um conto de fadas infantil demais para os adultos e sombrio demais para o público infantil."

Depois de "O Sexto Sentido" a vida desse cineasta jamais será a mesma. Afinal, a cobrança é absurda em cima dele.

Cristiano Contreiras disse...

Um filme amplamente fraco, não gostei mesmo e é lamentável o tom do roteiro que não convence, nunca. Engraçado, pra um filme tão insuficiente assim, seu texto até foi detalhado e bom, rs! Concordo com tua nota! abraço!

Anônimo disse...

Hi Very funny post...

alan raspante disse...

Não assisti e nem vou fazer isso, hehehe

Hey, ficou bacana o texto todo separadinho. Estou lendo com mais facilidade! Rs!

Até mais =)

Luiz Santiago disse...

Rapaz, que injustiça essa nota! Concordo com você quando se refere ao roteiro, ao excesso de draminhas e o mal tratamentos delas ao longo do filme, mas 3? Caramba! Não concordo. Eu daria um pouquinho mais, vai, uns 5... ou 6. Não sei também, faz um tempinho que vi o filme, e mesmo lembrando dos pontos fracos, não o vi TÃO FRACO ASSIM a ponto de uma nota 3! Hahahahha

Mas é isso, parceiro. Primeira divergência de opinião, hein! Já tava ficando preocupado: será que eu nunca vou discordar do Gabriel? Hahahahahha

Abração

Raquel Souza disse...

Só 3?! é um ótimo filme!

Sarah disse...

Continuo a achar M. Night Shyamalan um excelente visionário; Pena que nem todos os seus filmes se concretizem da maneira que ele visiona, mas é indiscutivelmente um excelente realizador.

Sarah
http://depoisdocinema.blogspot.com