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10 de novembro de 2010

Violência Gratuita (1997)

Um filme de Michael Haneke com Frank Giering e Arno Frisch.

Terror interativo é o que Haneke promove em sua obra. Mas não pense que é um terror interativo onde o espectador se sente no filme (vi uma reportagem estes dias de um filme que liga para alguém do cinema e essa pessoa conduz o personagem o filme inteiro, mas deixemos isso para outra hora). O espectador, nesse caso, é um cúmplice de toda a violência gratuita apresentada em Violência Gratuita. As intensas quebras feitas pelos personagens psicopatas tiram o envolvimento com o filme criando certo distanciamento, permitindo que o público possa perceber que Violência Gratuita não é um filme de terror e sim de uma ironia interativa ao terror. Todos que veem a película esperam mortes, sangue e um soco intenso na mente, mas o filme traz uma discussão ainda maior: até que ponto você se diverte com a violência apresentada? Afinal, tudo no filme é de uma naturalidade incrível o que o torna mais real e menos divertido do que o esperado.
Uma família feliz vai passar um final de semana na casa de lago, perto de seus amigos. Georg (Ulrich Mühe) mal espera para poder velejar com seu filho, enquanto sua mulher, Anna (Susanne Lothar) descongela alguns bifes e aguarda o outro dia para poderem jogar golfe com os vizinhos. Mas quando dois amigos do vizinho, Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering), chegam pedindo ovos e para testar tacos de golfe, Anna fica descontrolada com a situação e os manda sair da casa. Quando a família percebe que os dois não saem já é tarde demais, já que os garotos misteriosos se revelam psicopatas que querem fazer um jogo de tortura intensa com a família.
O filme necessita de uma atuação boa, completamente essencial. Claro, todos os filmes necessitam para o entendimento, mas esse precisa em especial que os atores sejam competentes. E foram. Espero que tanto nesse quanto no remake americano de 2007, com Naomi Watts. Susanne Lothar me trouxe numa das cenas mais desconfortáveis da minha vida, o que a deixou ainda mais convincente. Ulrich Mühe é outro que conseguiu trazer toda a passividade de um pai que não conseguia ajudar a família. Agora eu bato palmas para os psicopatas. Arno Frisch está brilhante e consegue carregar o filme inteiro em suas costas. Frank Giering, embora em segundo plano se comparado com o primeiro, está ótimo em sua interpretação. Acho necessário falar da direção. A cena desconfortável que citei foi onde Susanne Lothar passa 3 minutos na mesma posição para rastejar por 2 minutos e ver o marido chorar por mais 3. Esses 8 minutos são uma eternidade, angustiantes ao extremo, o que criou toda a tensão e expectativa no filme. Isso é só uma das diversas táticas usadas por Haneke na obra.
O roteiro é uma crítica ao terror diário. Observamos no filme que os psicopatas mandam na situação o tempo inteiro, verificamos que até quando eles perdem o controle da situação eles o retomam na inesquecível cena do controle remoto. E que matam por diversão. Não há razão aparente para pedirem ovos e matar famílias, o que trás ainda um aspecto mais real. Psicopatas matam por diversão, não precisam de razão, tanto nos filmes quanto na vida real. E a tortura cinematográfica psicológica só agrava essa lição. O filme tem uma relação intensa com o espectador. Podemos ver na obra que não aparece nenhuma cena explícita de violência, que são tapadas através de zooms, apenas uma morte que é logo apagada pelo botão de "retroceder" e esquecida em meio a loucura criada por Michael Haneke. Continuamos vendo que no começo do jogo entre os psicopatas e a família, os vilões insistem em perguntar à câmera: "mas não podemos terminar o filme aqui, não acham? Isso não merece um final mais digno?". O espectador se torna um voyeur sádico e se identifica com essa imagem crua fornecida pela película.
Você entra no filme com uma sede implacável por mortes, mas sai com um remorso imenso, cheio de dúvidas sobre a sociedade. Violência Gratuita não é feito para você se divertir em meio a banhos de sangue e sim para você perceber sobre a violência gratuita, não só a fornecida pelo diretor austríaco, mas também a que presenciamos no nosso dia a dia, uma violência tão gratuita quanto a dos psicopatas da ficção. Afinal, se formos comparar, não há tanta diferença entre uma obra tão densa e a realidade.
NOTA: 9

2 comentários:

alan raspante. disse...

Não vi ainda este, apenas o remake com Naomi Watts. Como eu vi o remake já tem um tempo, não posso propriamente dizer dele, mas na época não gostei muito, achei superficial e sei lá...não fui com a cara, é, tem um bom tempo isso, hehehe

Espero conseguir ver este 97!

Anônimo disse...

Espetacular este filme ´muito bom mesmo ANGUSTIANTE DE DAR DOR NO ESTOMAGO DE TANTA RAIVA. DA VONTADE DE ENTRAR NO FILME E ESPANCAR OS PSCOPATAS. JURO QUE NO FINAL PENSEI QUE A MOÇA ...AHH DEIXA PRA LÁ. NTA 10