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19 de julho de 2011

O Milagre de Anne Sullivan (1962)

Um filme de Arthur Penn com Anne Bancroft e Patty Duke.

A benevolência excessiva e a liberdade que é dada para pessoas limitadas não cumpre seu dever de uma ajuda. Cumpre seu dever de dependência. Muitas vezes o zelo é confundido com um simples mimo porque o mundo externo acredita que uma pessoa cega sempre vai precisar de alguém, que um cadeirante nunca vai poder andar sozinho, que um mudo não pode se comunicar sem outra pessoa. Após as esperanças de uma cura impossível para as menores deficiências morrerem, o que sobra é um cuidado que impossibilita um deficiente a viver como uma pessoa normal. E é essa situação, que é um ensaio sobre as diversas formas de se amar alguém, que é tratada no filme O Milagre de Anne Sullivan, um relato tocante e bastante atual.
Helen Keller (Patty Duke) nasceu com um problema em sua vida: depois de uma doença, ela acabou se tornando não apenas cega, mas também surda e muda. Seus pais, Kate e Arthur Keller (Inga Swenson e Victor Jory) procuram algum meio de curá-la dessa sua deficiência, mas a mimam excessivamente, deixando Helen diferenciada de outras crianças. Como uma última esperança de ajudar a menina, os pais chamam uma tutora, Anne Sullivan (Anne Bancroft). A professora, porém, que também era cega e foi acostumada a cuidar de outras pessoas, encontra uma dificuldade em ensinar seu método tanto pela falta de experiência da menina graças ao ambiente cercado em que foi criada quanto pelo confronto com o método de educação paterna.
As atuações estão excelentes. O elenco está soberbo. Victor Jory compõe seu personagem com alguns detalhes que o ligam à sua profissão, ao mesmo tempo que ainda se cobre com uma capa da rigorosidade familiar, mas da exceção para a filha deficiente. Inga Swenson é a típica mãe preocupada, que transborda amor e compaixão em suas cenas equilibradas. Andrew Prine, que fez o irmão James Keller, dá sua graça a partir de diálogos cheios de ironia e de uma razão inconveniente, encoberta pela pena da incapacidade da irmã gerida pelos pais. Por mais que os três estejam em sincronia, quem dá um show são as duas ganhadoras do Oscar, Anne Bancroft e Patty Duke. Anne surge como a ponte não-ortodoxa da menina com o mundo normal, algo diferente e tratado com preconceito. Afinal de contas, Anne é uma cega que está disposta a ajudar outra cega. Mas quem melhor do que um semelhante para entender as necessidades de seus iguais? A firmeza na fala e nos trejeitos da personagem Anne Sullivan são ótimos, e aqui, a brecha necessária para o amor e a afeição entrarem promove uma explosão de sentimentos no espectador. E Patty Duke merece grande mérito do filme. Sua personagem faz crer que a atriz interpretando é mesmo uma deficiente. Seu olhar vazio, seus movimentos desleixados, os detalhes que ela conferiu à personagem; tudo está perfeito e a menina rouba a cena.
Como criar uma relação com alguém que não quer se relacionar, mas precisa ser ajudado? Helen estava tão acostumada com a concha de paixão em que foi criada que não conseguia se adaptar mais ao mundo. Sua família a estragou tanto quanto sua deficiência. Anne Sullivan cria seu método fazendo uma ligação contrária, comovendo o público com a importância que ela dá a uma verdadeira melhora da menina. Mas como se cria amor partindo do ódio? Para Anne, essa tarefa é tão difícil quanto mostrar coisas novas para alguém que apenas sente. Como falar para uma pessoa o que é uma boneca ou um pássaro se essa pessoa nunca viu uma boneca ou ouviu um pássaro? Helen desenvolve seus estudos por meio da rigorosa professora e de seu alfabeto adaptado, pelo toque do alfabeto de libras. E ao mesmo tempo, desenvolve sua verdadeira noção de carinho, um carinho escondido pelas ações extremas dos pais, um carinho explícito na forma de educar que Anne achou para sua pupila. O problema de Helen deixa o filme extremamente atemporal, já que a sociedade ainda não sabe como agir defronte a uma situação parecida com a do filme.
Ao mesmo tempo que a aluna vai compreendendo que vive num mundo onde ela não é o centro, a professora começa a enfrentar seus demônios do passado. Visões provenientes de memórias viram o primeiro plano nas telas em imagens desfocadas, que mostra a infância da própria Anne Sullivan e como ela adquiriu toda a firmeza de seu caráter. O aprendizado é recíproco, e não só entre as duas. Anne acaba mudando a postura inconveniente de toda a casa, mostrando que o tratamento 'certo' com Helen era algo errado. Uma criança é erroneamente educada pela pena, que acaba virando um mimo a mais e uma chance a menos na luta por uma vida normal. Helen não poderia depender da família para sempre, e Anne mostra isso de um modo duro, mas sincero. A crueldade e a beleza entram em constraste junto à trilha sonora, que chega a seu ápice emocional em poucos minutos. E o fato mais belo do filme talvez seja o processo de aprendizado que, no fim, mostra que não há milagre algum. A verdadeira evolução de Helen foi conhecer seus limites. A cura não existe, e um filme que critica as falsas esperanças de uma vida normal não poderia ser diferente. É uma lição necessária e incrivelmente humana.
O amor que qualquer um precisa é movido pelo cuidado, e não pela pena é o que cada bela cena da obra de Arthur Penn. Ter pena é simplesmente se entristecer defronte a algo e deixá-lo permanecer do jeito que se encontra, esteja ele certo ou errado. O cuidado é ajudar ao máximo, não importando as deficiências. A deficiência da família encobre a deficiência da menina, e para acabar com ambas é preciso de muito cuidado, zelo e afeições movidas pela verdade, e não pela piedade. O Milagre de Anne Sullivan é um relato tocante e emocional sobre as dificuldades de uma pessoa limitada viver normalmente quando ela foi criada sem limites.
NOTA: 9

10 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Lembro que quando vi esse filme pela primeira vez - nunca esqueci a tal cena do "café" onde há um duelo emocional e físico entre Anne e Helen, essa sequência tem mais de 8 minutos e é um primor de direção, sem falar nas atuações de Bancroft e Patty Duke que, definitivamente, mereceram os Oscars. O filme é isso mesmo que você diz no texto, fala sobre as dificuldades, da sensibilidade e, claro, da maneira como uma surda-muda não só conheceu seus próprios limites, mas aprendeu a "conhecer" o mundo, ainda que sem a visão...seus "sentidos" foram despertados por outra forma...e ela despertou pra um mundo, até então, desconhecido.

O filme nos toca mesmo, acho que é um dos clássicos mais contundentes já realizados, até hoje. Imbatível! Eu não me canso de recomendar. E acho que professores de educação devem usá-lo, sempre. É material didático, acima de tudo.

Abração!

Fico feliz que gostou do filme, rs!

renatocinema disse...

Rapaz........preciso ver esse filme URGENTE. Adoro filmes com essa temática.

Sempre me envolvo.

Obrigado pela ótima dica.

Adoro me sentir tocado pelo cinema.

alan raspante disse...

Ai, nem li o texto inteiro... Quero ver esse filme, pra ontem!!

Maciel Amaro disse...

Oii estou te seguindo!
Ficarei muito feliz se vc visitar o meu blog e me seguir tb :)
Bjs

http://conversadeblogueiro.blogspot.com

Adecio Moreira Jr. disse...

O Cristiano me indicou fortemente esse filme e ainda não tive tempo de ver. Mas não tenho dúvidas de que os destaques (como vc bem disse) são mesmo das ganhadoras do Oscar Anne Bancroft e Patty Duke são certeiros.

Difícil estar errado quanto a isso.

- cleber eldridge disse...

Passei por esse filme inumeras vezes, mas, nunca assisti.

Rodrigo Mendes disse...

O Milagre de Anne Sullivan é um filme inesquecível. Se pararmos para ver, provavelmente o melhor desempenho de Anne Bancroft. Claro que ela em 'The Graduate' esta esplêndida!

Texto inspirador Gabriel, faz tempo que não assisto a essa fita.
Abs.
Rodrigo

Luiz Santiago disse...

O Cristiano já me falou desse filme e eu PRECISO Vê-lo MESMO. Não sabia que a trama era tão profunda quanto você expôs no texto, e esse tipo de filme me interessa demais. Vou procurá-lo, com certeza.

Andinhu S. de Souza disse...

Que legal ver um texto do filme aqui. Tambem ja tenho ate preparado um texto pra postar. Esse filme me pegou de jeito. Recomendadíssimo e é tudo o que vc disse sobre a pena que nunca ajuda em nada.

As duas atrizes é, sem exagero um dos papéis e atuações mais desafiadores que ja vi. Estavam perfeitas.

maria eva disse...

eu assisti esse filme na faculdade e passei a olhar os deficientes com outros olhos, adorei o filme. É muito bom.