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11 de julho de 2011

Desejo e Reparação (2007)

Um filme de Joe Wright com James McAvoy, Keira Knightley e Saoirse Ronan.

Verdade é um conceito tão relativo que é impossível levá-lo a sério de um modo único. Há verdades universais, há verdades pessoais, há verdades que variam de acordo com o olhar. E quem diria que num único caso possam se esconder tantas interpretações de uma mesma verdade? A verdade dentro de nós mesmos pode servir tanto como um refúgio consolador que, em uma visão egocêntrica, melhorará o mundo ao redor. Ou pode simplesmente ser uma verdade encoberta, feita apenas para o ser humano não reconhecer como ele é dissimulado por trás de suas mentiras. Desejo e Reparação, do mesmo diretor de Orgulho e Preconceito, traz isso bem: uma situação, vários olhares e, consequentemente, várias conclusões de estórias diferentes.
Cecilia Tallis (Keira Knightley) é uma jovem inglesa, que vive numa mansão com sua família burguesa. Ela é a confidente de sua irmã mais nova, Briony Tallis (Saoirse Ronan), uma menina que passa o dia a escrever peças fictícias. Além de tudo, Cecilia ainda nutre uma ardente paixão por Robbie Turner (James McAvoy), o filho do caseiro, mas não sabe se seu sentimento é correspondido. Num dia, Cecilia acaba descobrindo o verdadeiro sentimento de Robbie por ela de uma forma não casual, mas que faz acender a chama do amor entre o casal. Porém, antes que o amor dos dois possa se consolidar, as cenas românticas vividas por Cecilia são entendidas de outro jeito pela imaginação de Briony, o que traz consequências terríveis para a vida dos namorados.
Saiorse Ronan aparece em apenas uma das três divisões do filme, mas rouba a cena. Sua inocência e delicadeza são características sobressalentes e essenciais da sua personagem. Seu choque com algumas situações demonstra sua ingenuidade, por mais que ela transpareça seu lado mais maduro no passatempo de escrever romances. Além de tudo, ainda há seus sentimentos entre a irmã, pela qual nutre uma admiração imensa; e Robbie, a quem deve uma vida. A confusão ao ver os dois juntos se deve propriamente a quê? Inveja? Desejo? Ou puramente uma visão diferente do que está acontecendo, influenciada pela sua mente fértil de criar estórias? O roteiro não dá nenhuma dessas respostas ao espectador, e não deveria. Num filme que fala sobre a verdade pessoal, o melhor trunfo é deixar alguns detalhes a entendimento do espectador. As verdades não se diferenciam apenas na tela. A narrativa do filme ocorre de uma forma bela e de fácil compreendimento. E além disso, com uma visão subjetiva que altera de personagem para personagem, o assunto principal é abordado de uma forma que não cansa. Com algumas passagens no tempo, Joe Wright mostra o que Briony vê, o que ela entende e como ela reage a uma situação. Após isso, ele volta no tempo para mostrar como a situação ocorreu para Cecilia. Num primeiro momento, é uma cena de abuso sexual. No segundo momento, vira um ato de carinho e felicidade. E quando os dois momentos se chocam, basta apenas decidir em quem se vai acreditar.
Keira Knightley é outra beleza do filme. Ela, que já tinha trabalhado com o diretor desempenhando o papel principal de Orgulho e Preconceito, revela que a parceria de ambos não foi apenas um acaso ou uma sorte. Ela desempenha um bom papel, falando francamente com a irmã, mostrando o quanto estava apaixonada e como não iria desistir após a brusca e injusta separação. Sua personagem é uma brava romântica, e ela atribui características a isso com força, mas em pequenos detalhes do resultado principal que é Cecilia. Sua fala é cativante, seu olhar é obstinado, sua boca se fecha numa única linha séria quando preciso, ela não tem medo de enfrentar o que for pelo amor. E por mais que tantas características assim ainda sejam atribuídas, ela continua sendo uma personagem delicada, asssim como todo o visual do filme. Seamus McGarvey, diretor de fotografia, ajuda bastante. A fotografia clara e amarela do campo faz um contraste com a fotografia cinzenta da guerra, por mais que algo entre os dois cenários os una. O caos de um contrasta com a ordem do outro. E a única coisa que separa estes dois ambientes é o erro de Briony. O próprio pôster comprova isso, com James McAvoy e Keira Knightley separados por uma linha tão tênue como a verdade mentirosa.
A filmagem do longa é excepcional. A diferenciação de um personagem para o outro não dá um sinal próprio para a adaptação da mudança. Tudo fica por conta da percepção do espectador, uma tarefa não muito árdua para quem capta o filme desde o seu começo. O cenário muda tudo de uma hora para a outra, um choque entre duas situações, um choque entre duas verdades, um choque entre duas consequências. De primeiro, o ambiente se coloca em perfeita harmonia. Os personagens não se diferem de onde estão e há beleza em cada movimento. Na entrega de uma carta, na corrida em uma floresta, na pressa de uma menina. Até quando a palavra 'boceta' é escrita num papel, há toda a delicadeza do ambiente, da tinta da máquina de escrever preenchendo um espaço em branco, não a grosseria de uma palavra inapropiada. O que separou as duas realidade e as colocou em campos distintos foi a mentira. A vontade de algo ser verdade, a vontade de ter algo que os outros não poderiam. Uma vingança da irmã? Um instinto de proteção? A verdade é perigosa, no fim das contas. A beleza toda é acompanhada da trilha sonora excepcional composta por Dario Marinelli. A adaptação de teclas de máquina de escrever formando sons que acompanham movimentos e ações não podia ser melhor. Uma história está sendo escrita enquanto cada um faz seu movimento no jogo da vida.
Por fim, há o mais difícil. Encarar, sem titubear, um erro que perdurou durante anos a fio. Ver como vidas foram arruinadas, histórias foram reescritas e destinos foram mudados apenas para se adaptar a uma incerteza cruel, feita com a pior das intenções. James McAvoy aparece em cena sofrendo por amar, ao mesmo tempo que uma Romula Garai, a Briony cinco anos mais velha, percebe suas injúrias. O remorso se camufla perto do ódio dos injuriados. A vontade de fazer diferente não passa de vergonha. McAvoy entra com força num terrível cenário, com apenas uma obstinação na vida: reescrever uma história já reescrita. Ele não pôde para um amor reciproco separado injustamente. E realmente injusta é a sua situação. Enfrentar uma guerra face a face é uma cena difícil. O ritmo do filme diminui para se adaptar ao sofrimento. O espectador começa a sofrer para Robbie sair da guerra e voltar para casa, por pior que seja a sua situação. Bombas explodindo ao fundo, o que antes era cinza se tornou vermelho pela destruição. Um plano sequência numa praia mostra, dolorosamente, um risco que uma paixão encontra para poder sobreviver.
Uma história pode se criar facilmente a partir de um único caso. Só bastam várias pessoas em ângulos diferentes para conferirem sua visão. Desejo e Reparação não é apenas uma história. São várias, mas juntas para formar a obra resultante. E a junção dessas histórias, de um caso tão banal, é um exercício interessante de narrativas diferenciadas e visões, ângulos e enquadramentos diferentes. Mas essa é a parte mais fácil. O difícil do filme de Joe Wright é fazer o que Vanessa Redgrave faz em seus poucos, mas emocionantes, minutos: reparar a culpa proveniente do desejo, e, dessa vez, fazer isso com verdade.
NOTA: 10

9 comentários:

renatocinema disse...

É muito raro um 10. E esse filme realmente merece. Uma combinação perfeita de roteiro, fotografia, sensibilidade e atuações perfeitas.

A verdade, sempre ou quase sempre, machuca. Porém, ela é necessária. SEMPRE.

Adorei seu texto.

alan raspante disse...

Hehehe, acabei de postar o filme também lá no meu blogue...

Eu simplesmente amo esse filme. Foi uma das "críticas" mais difíceis que eu escrevi. Transpor no papel tudo o que eu sinto quando vejo é uma tarefa difícil.

O final? Que final... lindo!

Cristiano Contreiras disse...

Esse filme mexe muito comigo. Muito mesmo.

E é difícil revê-lo.

A maneira como o roteiro, muito bem adaptado por sinal, lida com as camadas de percepções e situações dos personagens torna ele puramente incrível. É doloroso também sabermos e termos plena consciência de como uma mera, ainda que não intencional, manipulação na "verdade" pode alterar tudo. Tudo. Ou melhor, arruinar vidas, mexer com os destinos. E Briony é uma coitada, meu Deus. Ela passa o tempo todo com suas dores por ter provocado tudo isso. E não é fácil. Um ser humano assim só pode nos deixar com pena, com dó e até com raiva. Ela errou feio e a reparação pode até ter ocorrido, de alguma forma, mas nunca há de trazer de volta tudo como era antes. O passado fica enterrado e pronto. O futuro que podemos reescrever, de acordo com nosso presente.

Belo filme, ao meu ver, obra-prima!

Abraço! Belo texto!

Rodrigo disse...

Filme maravilhoso. A cena da praia e a final sao absurdas de boas. Atuaçoes densas, roteiro bem amarrado e uma direçao excelente. Abraços.

Luiz Santiago disse...

Não assisti a esse filme, embora tenha visto Orgulho e Preconceito e gostado bastante. Seu texto disseca bem o filme, e mais do que imediatamente preciso baixar isso e ver rapidinho!

augusto disse...

pq vc nao ouve ninguem que faz comentarios aqui heim? poxa...nao custa vc dizer menos dos filmes e fazer um texto mais objetivo????

bastidoores disse...

Ótimo texto para um filme excelente.
Cara, é ótimo ver que não sou o único que escreve textos grandes e de qualidade. A ousadia é quem nos define. Parabéns, Gabriel. Sua crítica é uma síntese de "Desejo e Reparação".
Ah, esse Augusto ai também veio cornetar lá no Bastidores. Se quisermos escreve um livro sobre o filme, o problema é nosso! Nunca escute essas pessoas que falam mal do seu trabalho. Se um de cem leitores ler o texto, ficarei feliz porque ao menos um ganhou um pouco mais de cultura e opinião do que o resto.
É como diz o ditado... Não adianta jogar pérolas aos porcos.
Abraços,
Matheus Fragata

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu não tinha reparado nesse detalhe do pôster... Interessante.

Bem, eu AMO esse filme. Um dos finais mais bonitos do ano em que lançaram. Que final!

Emmanuela disse...

Eu sou apaixonada por esse filme, infinitamente mais maduro que o adocicado "Orgulho e Preconceito".

Percebi sua inspiração ao ler o texto, um abraço!