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30 de março de 2011

Não Estou Lá (2007)

Um filme de Todd Haynes com Cate Blanchett, Heath Ledger e Marcus Carl Franklin.

Quem nós somos? Há muito tempo diversas áreas das ciências humanas vêm tentando descobrir o que é o complexo ser humano. Há quem o defina como pecado, há quem o defina como miséria, há quem o defina como razão, há quem o defina como libido. Mas é impossível definir esse ser numa só palavra, já que estamos em constante mudança. Como dizia Heráclito, o "devir" controla nós e tudo a nossa volta para sofrermos uma transformação a cada momento. O eu de hoje não é o mesmo eu de ontem e nem será o mesmo eu de amanhã, algo há de mudar. Sendo assim, uma definição se torna difícil para essa criatura movida por um ciclo de mutações. Não Estou Lá é a prova disso: como se faz para definir algo tão efêmero?
O filme é uma biografia das diversas fases do cantor e compositor Bob Dylan, e consegue se segurar sem sequer citar o nome do homenageado. Temos Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), um garoto negro de 11 anos que anda pelo mundo com sua "máquina de matar fascistas"; Arthur Rimbaud (Ben Whishaw), um homem com respostas subjetivas que está sendo interrogado; Jack Rollins (Christian Bale), um cantor de folk no fim de sua carreira após aparecer, bêbado, para receber um prêmio; Robbie Clark (Heath Ledger), um ator que encena Jack Rollins em seus anos áureos, mas enfrenta no seu dia a dia uma relação conturbada com sua esposa Claire (Charlotte Gainsbourg); Jude Quinn (Cate Blanchett) é um cantor de folk atual cuja banda se rende ao rock, não agradando boa parte dos fãs ao verem que a sonoridade não é a mesma; e temos Billy the Kid (Richard Gere), um homem solitário que vai contra os caminhos da sociedade.
As atuações completam o filme em sua duração. Todas as 6 distintas personalidades de Bob Dylan entram em harmonia ao decorrer das histórias. Richard Gere faz a parte de Bob Dylan escondida do mundo, soterrada atrás de uma máscara para não chamar a atenção das luzes que antes o perseguiam. E ele, com toda a sua calma atribuída ao personagem, tira de letra. Ben Whishaw é a personalidade poética do ídolo folk. O vemos parafraseando, com o visual e a fala expressando rebeldia jovem, falas de Bob Dylan mescladas com o lirismo do verdadeiro poeta Arthur Rimbaud em seus diálogos. Marcus Carl Franklin, o pequeno garoto de 11 anos, tem uma das melhores atuações do longa. Ele, com um típico sotaque sulista, faz um menino encantado e nômade, que vaga pelo mundo apenas levando sua música consigo e sua atitude mais verdadeira do que muitos adultos. É impossível não se encantar com o caráter do menino e a atmosfera que ele traz ao entrar em cena é única.
Heath Ledger faz a vida pessoal de Dylan ao criar um conflito dentro de casa com a mulher e, após isso, voltar para assinar os papéis de divórcio. Além do mais, o Dylan/Ledger faz uma antítese ao Dylan/Gere: enquanto o último foge da atenção do mundo, se escondendo numa casa pequena, o outro aparece e tem uma vida pública, tanto que o assédio de fotógrafos é representado com força aqui. Christian Bale representa a reviravolta religiosa na vida de Bob Dylan, quando ele próprio virou um pastor após ter noção de sua vida conturbada. Através de um estilo documentário, narrado em grande parte por Julianne Moore, a vida de Dylan se transforma na pregação do arrependimento de atitudes ofensivas e da propagação de tamanha rebeldia influenciada pelo caos trazido do ramo musical. E por falar em caos, temos a melhor atuação do filme. Cate Blanchett é a única mulher representando Dylan e talvez esse seja o fator para ser o personagem mais agradável. A ironia presente nessa fase de Dylan é deliciosa e suas críticas e alfinetadas são feitas para um público satisfeito se encher com sorrisinhos na cara. A fase crítica de Dylan, representada no caos envolvendo as drogas, o rock n' roll e o sexo, é forte e é a ideia mais estereotipada que o povo tem de um astro do rock.
Com a mudança dos personagens, a estética das cenas também muda. Enquanto as cenas de Heath Ledger apresentam fotografia escura e ritmo mais lento, caracterizando a melancolia do término de um romance, as cenas de Cate Blanchett acontecem, embora com a tela em preto e branco, com maior rapidez e numa narrativa composta por várias metáforas retratando o espírito rebelde e contestador de suas letras e de sua atitude nos anos que foram se seguindo. As metáforas estão presentes em toda a obra, algumas através da linguagem de Ben Whishaw na composição do seu personagem, outras na transição de um Dylan para o outro, outras ainda feitas num contraste entre a trilha sonora, composta por hits como Like a Rolling Stone e Knocking on Heaven's Door, e as cenas. As cenas, fortes cada uma a sua maneira, compõem o clímax do filme que não parece ter fim, ainda mais quando começamos com um acidente de moto e terminamos com um elo entre passado e futuro.
Por mais que o filme tenha atuações mais do que excelentes, um caráter moral e crítico presente na biografia do ídolo folk que é apresentado ao longo de suas diversas personalidades, um visual belíssimo, que varia de um bar sujo até o enclausuramento do mundo, Não Estou Lá não cumpre o que promete. Faz muito mais do que isso. Ao invés de mostrar um filme de Bob Dylan, ele mostra a essência de um humano em suas diversas fases, de um humano camaleão que serve de exemplo para a sociedade se embasar em suas teorias sociais, em suas frases desbocadas e em seu estilo de vida que é propício a qualquer novo caminho. A mudança constante é que nomeia a película, não estou lá porque aquele não sou eu, aquele era eu. É um filme metafórico que entrega um espírito em sua duração. Ser o espírito de Bob Dylan é uma consequência e um atrativo a mais para tornar Não Estou Lá em um filme imperdível.
NOTA: 9

4 comentários:

diego disse...

O roteiro é genial, me lembro que quando assisti a primeira vez, fiquei um pouco confuso, mas depois que pesquisei sobreo filme e vi que se tratava de Bob Dylan, ná época não o conhecia muito bem, tudo se encaixou. A melhor atuação sem sombra de dúvidas é da Blanchett.

Rodrigo disse...

Vi sem saber que se tratava de uma biografia do Bob Dylan e desconhecendo todo o seu repertório, ou seja, apesar de uma incrível parte técnica, achei simplesmente confuso. Mas pretendo rever, para quem sabe dessa vez pegar o fio da meada. Abraços.

Cristiano Contreiras disse...

Muito bom seu texto, me deixou MUITO curioso a conferir AGORA este filme. Como te disse, eu deixei ele passar e não conferi, imaginava-o bem diferente...

Só pelo elenco é um achado, né? Vou ver!

Parabéns pelo texto mesmo, você analisa muito bem a essência dos filmes. Abs

Close up! disse...

Belíssima crítica!