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4 de março de 2011

Don Juan DeMarco (1994)

Um filme de Jeremy Leven com Johnny Depp, Marlon Brandon e Faye Dunaway.

Não há jeito. As pessoas mudam de forma tão inconstante que não se pode mais prever sentimentos. Um romance não necessariamente surge de uma relação de longa data, mas talvez de apenas poucas conversas nos últimos 4 meses. O mundo anda tão bipolar que ele chega a ser inesperado atualmente. Se isso é ruim? Nem um pouco. O ruim é ver pessoas completamente destituídas de emoção ao longo de situações vividas pelos antepassados, ou até pela própria pessoa, que a condenam a uma máscara, não a permitindo revelar seus sentimentos. O romance se tornou segundo plano num mundo de realizações médicas, globalização e capitalismo. Pra quê sentimentos se se possui dinheiro? Não se dá para viver num mundo apenas de amor. E Don Juan DeMarco, filme de 16 anos atrás, permanece bem atual para mostrar que ainda há fagulhas de amor no mundo, e mostrar que quando essas fagulhas atingem certas pessoas, elas causam um belo incêndio.
Don Juan DeMarco (Johnny Depp) é o maior amante do mundo. Ele se encontra em Nova York, vivendo sua vida baseada num romantismo já esquecido em dias atuais. Porém, ele não se contenta em sua vida boêmia, já que, em seu mundo de mulheres, só há uma que lhe interessa, mas que ele não consegue alcançar. Com isso, Don Juan opta pelo suicídio. Mas, o psiquiatra Jack Mickler (Marlon Brando) o convence a mudar de ideia. Com a descoberta desse Don Juan do século XXI, o personagem é internado por 10 dias num hospício para os doutores descobrirem quem está escondido por trás da máscara. Entretanto, com o paciente convicto que é Don Juan DeMarco, ele começa a contagiar Jack e outras pessoas com sua vida e seu sex appeal.
O filme ganha pontos por mostrar aquilo que já cansou nas produções atuais: o amor. Mas não é uma história de amor baseada em fatos rápidos e inacreditáveis, é uma história de amor sobre o verdadeiro rei do amor. Desde criança, Don Juan DeMarco apresentava uma sensualidade e um carisma que lhe conferiram, posteriormente, o título de maior amante do mundo. Mas o amor aí é apenas um dos lados de um dos maiores conflitos da humanidade: seguir uma vida de razão ou de emoções? Enquanto a psicologia em geral classifica o protagonista como um homem esquizofrênico e bastante perturbado, ele próprio se considera a idealização de uma paixão ardente. As armas que cada um possuem? A ciência possui fatos baseados no empirismo, que já se torna mecânico. Don Juan é cativante e apaixonante, possui uma criatividade sem igual e uma vida bastante intensa, o que consegue amansar, aos poucos, os corações mais frios. Aos poucos a relação que já estava esfriada entre o dr. Mickler e sua mulher, interpretada por uma Faye Dunaway que consegue animar as poucas cenas em que participa, se torna cada vez mais viva, graças a uma pitada de romantismo colocada pelo estranho paciente. Don Juan começa a afetar cada vez mais as vidas das pessoas, fazendo-as pregarem mais pelos sentimentos e esquecerem por um momento a razão. Daí que se goza a vida. Os românticos não vivem pensando num ato, mas vivendo-o.
Não há idade para a paixão, então não há porque existir um nojo de um relacionamento entre os mais velhos, ou então uma data de validade para um casamento se tornar frio e forçado. O amor dura enquanto tiver que durar e, se as duas pessoas envolvidas num relacionamento aproveitarem o máximo de uma relação e se entregarem completamente, o amor pode durar para sempre. O mundo atual estraga os sentimentos, fazendo-os parecerem uma ideia primitiva. Um exemplo, explorado pelo filme, é a ideia da estética. As mulheres, cada vez mais preocupadas em parecerem bonitas de um modo artificial, se maqueiam, se vestem, se estragam. Don Juan, romântico incorrigível, não vê defeitos na naturalidade, ele ama uma mulher pelo que ela é e não pelo que ela aparente ser. E é esse o segredo do filme e do maior amante do mundo. Tratando a amada como ela merece ser tratada e vendo dentro da alma dela, atinge-se um prazer maior do que uma enxurrada de palavras bonitas, porém falsas, ou até uma relação sexual cujo objetivo é o prazer, mas que só foi obtida através de uma beleza artificial e não de uma beleza platônica.
A aura sedutora que envolve o belo Don Juan DeMarco, numa atuação deliciosa de Johnny Depp, é como um desejo realizado. Ele é como se a personificação do auge do romantismo estivesse presente no século atual. Imagine, atualmente, o jovem Werther se suicidando por uma bela Charlotte. É um Don Juan nos dias de hoje, sendo incompreendido por intelectuais por não se interessar em conhecimento, e sim em amar. A vontade da ciência de saber quem é o psicótico Don Juan é mais alta do que dar-lhe o verdadeiro diagnóstico: amor. O dr. Jack Mickler, interpretado pelo excelente Marlon Brando numa atuação que cria a comédia e um romance renascido da obra, é o único a saber disso e um dos primeiros a sentir na pele a força atrativa de Don Juan DeMarco. Ele aprende a tirar sua própria máscara de seriedade para revelar o caráter emocional escondido em sua figura. O resto da comédia do filme fica no fato de misturar um personagem de dois séculos atrás num contexto atual e ver como ele se sobressai com os ideais diferentes. O mistério de Don Juan não é desvendado até o fim do filme, mas o público é que decide quem Johnny Depp estava interpretando. Ou Don Juan, para os mais românticos, ou um jovem doente, para os mais realistas. Os cenários paradisíacos, recheados de uma fotografia clara e vermelha, caracterizando a paixão e a luxúria, e de uma trilha sonora tão sedutora quanto o personagem principal, maximizam o tom amoroso da trama.
Freud acertou ao definir o homem como libido. A vontade de ser dominado, o sexual e o sedutor do ser humano é forte. Porém, mais forte do que esse apelo sexual é a vontade de ser amado. O homem contemporâneo sente e ama. Por mais que preguem mais por fatos e por um racionalismo indubitável, ainda sobram sentimentais no mundo, e é graças a eles que há a vivacidade presente em todas as cenas com Johnny Depp no filme Don Juan DeMarco. Bom ver que num mundo onde as pessoas têm vergonha de declarar um amor, outros ainda tem um orgulho digno das emoções. Impossível não se apaixonar.
NOTA: 8

6 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Teu ótimo texto mostra bem o que esse filme exprime: o poder do amor. Exatamente. Interessante que, dentro da forte sexualidade e sensualismo, o roteiro evidencia esse caráter, o tempo todo, né?

Temos aqui uma interpretação PERFEITA de Depp, como te disse, acho ele aqui inspirado...sedutor...apaixonante mesmo. Depois deste filme, eu gosto de outro dele, 'Gilbert Grape'.

Interessante que ao ver ele no Don Juan, questionamos nossa vida - será que amamos de fato? como amar mais, como ser amado, como querer viver a vida no mais puro romantismo? O filme é muito bom mesmo. Brando, sumido há anos, foi convidado e foi o contraponto perfeito pra este filme.

Que bom que gostou, ainda postamos no mesmo dia e hora, hahaha!

Abraço

Alan Raspante disse...

Nossa, história muito interessante. Para mim, "Don Juan" era um filme bobo e romântico, só. Não esperava grande coisa e nem sabia que Marlon Brando estava no filme, hehehehe

Ok. Tenho que ver!
abs :)

Rodrigo disse...

Dois textos maravilhosos sobre o filme em um dia. Preciso ver, entao. Abraços.

cleber eldridge disse...

Sem muito interesse por esse filme, não sou dos maiores fãs da história e nem do Depp, mas verei quando tiver tempo.

Anônimo disse...

O que é o amor se não esquizofrenia, loucura? A psicologia às vezes se perde quando não atenta para a paixão que a razão traz em si. Parabéns, o texto está ótimo e muito convincente. Valeu pela visita ao cinemafiablog!

bastidoores disse...

Acho que realmente preciso escrever sobre filmes antigos hahaha.
Abç