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19 de julho de 2011

O Milagre de Anne Sullivan (1962)

Um filme de Arthur Penn com Anne Bancroft e Patty Duke.

A benevolência excessiva e a liberdade que é dada para pessoas limitadas não cumpre seu dever de uma ajuda. Cumpre seu dever de dependência. Muitas vezes o zelo é confundido com um simples mimo porque o mundo externo acredita que uma pessoa cega sempre vai precisar de alguém, que um cadeirante nunca vai poder andar sozinho, que um mudo não pode se comunicar sem outra pessoa. Após as esperanças de uma cura impossível para as menores deficiências morrerem, o que sobra é um cuidado que impossibilita um deficiente a viver como uma pessoa normal. E é essa situação, que é um ensaio sobre as diversas formas de se amar alguém, que é tratada no filme O Milagre de Anne Sullivan, um relato tocante e bastante atual.
Helen Keller (Patty Duke) nasceu com um problema em sua vida: depois de uma doença, ela acabou se tornando não apenas cega, mas também surda e muda. Seus pais, Kate e Arthur Keller (Inga Swenson e Victor Jory) procuram algum meio de curá-la dessa sua deficiência, mas a mimam excessivamente, deixando Helen diferenciada de outras crianças. Como uma última esperança de ajudar a menina, os pais chamam uma tutora, Anne Sullivan (Anne Bancroft). A professora, porém, que também era cega e foi acostumada a cuidar de outras pessoas, encontra uma dificuldade em ensinar seu método tanto pela falta de experiência da menina graças ao ambiente cercado em que foi criada quanto pelo confronto com o método de educação paterna.
As atuações estão excelentes. O elenco está soberbo. Victor Jory compõe seu personagem com alguns detalhes que o ligam à sua profissão, ao mesmo tempo que ainda se cobre com uma capa da rigorosidade familiar, mas da exceção para a filha deficiente. Inga Swenson é a típica mãe preocupada, que transborda amor e compaixão em suas cenas equilibradas. Andrew Prine, que fez o irmão James Keller, dá sua graça a partir de diálogos cheios de ironia e de uma razão inconveniente, encoberta pela pena da incapacidade da irmã gerida pelos pais. Por mais que os três estejam em sincronia, quem dá um show são as duas ganhadoras do Oscar, Anne Bancroft e Patty Duke. Anne surge como a ponte não-ortodoxa da menina com o mundo normal, algo diferente e tratado com preconceito. Afinal de contas, Anne é uma cega que está disposta a ajudar outra cega. Mas quem melhor do que um semelhante para entender as necessidades de seus iguais? A firmeza na fala e nos trejeitos da personagem Anne Sullivan são ótimos, e aqui, a brecha necessária para o amor e a afeição entrarem promove uma explosão de sentimentos no espectador. E Patty Duke merece grande mérito do filme. Sua personagem faz crer que a atriz interpretando é mesmo uma deficiente. Seu olhar vazio, seus movimentos desleixados, os detalhes que ela conferiu à personagem; tudo está perfeito e a menina rouba a cena.
Como criar uma relação com alguém que não quer se relacionar, mas precisa ser ajudado? Helen estava tão acostumada com a concha de paixão em que foi criada que não conseguia se adaptar mais ao mundo. Sua família a estragou tanto quanto sua deficiência. Anne Sullivan cria seu método fazendo uma ligação contrária, comovendo o público com a importância que ela dá a uma verdadeira melhora da menina. Mas como se cria amor partindo do ódio? Para Anne, essa tarefa é tão difícil quanto mostrar coisas novas para alguém que apenas sente. Como falar para uma pessoa o que é uma boneca ou um pássaro se essa pessoa nunca viu uma boneca ou ouviu um pássaro? Helen desenvolve seus estudos por meio da rigorosa professora e de seu alfabeto adaptado, pelo toque do alfabeto de libras. E ao mesmo tempo, desenvolve sua verdadeira noção de carinho, um carinho escondido pelas ações extremas dos pais, um carinho explícito na forma de educar que Anne achou para sua pupila. O problema de Helen deixa o filme extremamente atemporal, já que a sociedade ainda não sabe como agir defronte a uma situação parecida com a do filme.
Ao mesmo tempo que a aluna vai compreendendo que vive num mundo onde ela não é o centro, a professora começa a enfrentar seus demônios do passado. Visões provenientes de memórias viram o primeiro plano nas telas em imagens desfocadas, que mostra a infância da própria Anne Sullivan e como ela adquiriu toda a firmeza de seu caráter. O aprendizado é recíproco, e não só entre as duas. Anne acaba mudando a postura inconveniente de toda a casa, mostrando que o tratamento 'certo' com Helen era algo errado. Uma criança é erroneamente educada pela pena, que acaba virando um mimo a mais e uma chance a menos na luta por uma vida normal. Helen não poderia depender da família para sempre, e Anne mostra isso de um modo duro, mas sincero. A crueldade e a beleza entram em constraste junto à trilha sonora, que chega a seu ápice emocional em poucos minutos. E o fato mais belo do filme talvez seja o processo de aprendizado que, no fim, mostra que não há milagre algum. A verdadeira evolução de Helen foi conhecer seus limites. A cura não existe, e um filme que critica as falsas esperanças de uma vida normal não poderia ser diferente. É uma lição necessária e incrivelmente humana.
O amor que qualquer um precisa é movido pelo cuidado, e não pela pena é o que cada bela cena da obra de Arthur Penn. Ter pena é simplesmente se entristecer defronte a algo e deixá-lo permanecer do jeito que se encontra, esteja ele certo ou errado. O cuidado é ajudar ao máximo, não importando as deficiências. A deficiência da família encobre a deficiência da menina, e para acabar com ambas é preciso de muito cuidado, zelo e afeições movidas pela verdade, e não pela piedade. O Milagre de Anne Sullivan é um relato tocante e emocional sobre as dificuldades de uma pessoa limitada viver normalmente quando ela foi criada sem limites.
NOTA: 9

30 de março de 2011

Não Estou Lá (2007)

Um filme de Todd Haynes com Cate Blanchett, Heath Ledger e Marcus Carl Franklin.

Quem nós somos? Há muito tempo diversas áreas das ciências humanas vêm tentando descobrir o que é o complexo ser humano. Há quem o defina como pecado, há quem o defina como miséria, há quem o defina como razão, há quem o defina como libido. Mas é impossível definir esse ser numa só palavra, já que estamos em constante mudança. Como dizia Heráclito, o "devir" controla nós e tudo a nossa volta para sofrermos uma transformação a cada momento. O eu de hoje não é o mesmo eu de ontem e nem será o mesmo eu de amanhã, algo há de mudar. Sendo assim, uma definição se torna difícil para essa criatura movida por um ciclo de mutações. Não Estou Lá é a prova disso: como se faz para definir algo tão efêmero?
O filme é uma biografia das diversas fases do cantor e compositor Bob Dylan, e consegue se segurar sem sequer citar o nome do homenageado. Temos Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), um garoto negro de 11 anos que anda pelo mundo com sua "máquina de matar fascistas"; Arthur Rimbaud (Ben Whishaw), um homem com respostas subjetivas que está sendo interrogado; Jack Rollins (Christian Bale), um cantor de folk no fim de sua carreira após aparecer, bêbado, para receber um prêmio; Robbie Clark (Heath Ledger), um ator que encena Jack Rollins em seus anos áureos, mas enfrenta no seu dia a dia uma relação conturbada com sua esposa Claire (Charlotte Gainsbourg); Jude Quinn (Cate Blanchett) é um cantor de folk atual cuja banda se rende ao rock, não agradando boa parte dos fãs ao verem que a sonoridade não é a mesma; e temos Billy the Kid (Richard Gere), um homem solitário que vai contra os caminhos da sociedade.
As atuações completam o filme em sua duração. Todas as 6 distintas personalidades de Bob Dylan entram em harmonia ao decorrer das histórias. Richard Gere faz a parte de Bob Dylan escondida do mundo, soterrada atrás de uma máscara para não chamar a atenção das luzes que antes o perseguiam. E ele, com toda a sua calma atribuída ao personagem, tira de letra. Ben Whishaw é a personalidade poética do ídolo folk. O vemos parafraseando, com o visual e a fala expressando rebeldia jovem, falas de Bob Dylan mescladas com o lirismo do verdadeiro poeta Arthur Rimbaud em seus diálogos. Marcus Carl Franklin, o pequeno garoto de 11 anos, tem uma das melhores atuações do longa. Ele, com um típico sotaque sulista, faz um menino encantado e nômade, que vaga pelo mundo apenas levando sua música consigo e sua atitude mais verdadeira do que muitos adultos. É impossível não se encantar com o caráter do menino e a atmosfera que ele traz ao entrar em cena é única.
Heath Ledger faz a vida pessoal de Dylan ao criar um conflito dentro de casa com a mulher e, após isso, voltar para assinar os papéis de divórcio. Além do mais, o Dylan/Ledger faz uma antítese ao Dylan/Gere: enquanto o último foge da atenção do mundo, se escondendo numa casa pequena, o outro aparece e tem uma vida pública, tanto que o assédio de fotógrafos é representado com força aqui. Christian Bale representa a reviravolta religiosa na vida de Bob Dylan, quando ele próprio virou um pastor após ter noção de sua vida conturbada. Através de um estilo documentário, narrado em grande parte por Julianne Moore, a vida de Dylan se transforma na pregação do arrependimento de atitudes ofensivas e da propagação de tamanha rebeldia influenciada pelo caos trazido do ramo musical. E por falar em caos, temos a melhor atuação do filme. Cate Blanchett é a única mulher representando Dylan e talvez esse seja o fator para ser o personagem mais agradável. A ironia presente nessa fase de Dylan é deliciosa e suas críticas e alfinetadas são feitas para um público satisfeito se encher com sorrisinhos na cara. A fase crítica de Dylan, representada no caos envolvendo as drogas, o rock n' roll e o sexo, é forte e é a ideia mais estereotipada que o povo tem de um astro do rock.
Com a mudança dos personagens, a estética das cenas também muda. Enquanto as cenas de Heath Ledger apresentam fotografia escura e ritmo mais lento, caracterizando a melancolia do término de um romance, as cenas de Cate Blanchett acontecem, embora com a tela em preto e branco, com maior rapidez e numa narrativa composta por várias metáforas retratando o espírito rebelde e contestador de suas letras e de sua atitude nos anos que foram se seguindo. As metáforas estão presentes em toda a obra, algumas através da linguagem de Ben Whishaw na composição do seu personagem, outras na transição de um Dylan para o outro, outras ainda feitas num contraste entre a trilha sonora, composta por hits como Like a Rolling Stone e Knocking on Heaven's Door, e as cenas. As cenas, fortes cada uma a sua maneira, compõem o clímax do filme que não parece ter fim, ainda mais quando começamos com um acidente de moto e terminamos com um elo entre passado e futuro.
Por mais que o filme tenha atuações mais do que excelentes, um caráter moral e crítico presente na biografia do ídolo folk que é apresentado ao longo de suas diversas personalidades, um visual belíssimo, que varia de um bar sujo até o enclausuramento do mundo, Não Estou Lá não cumpre o que promete. Faz muito mais do que isso. Ao invés de mostrar um filme de Bob Dylan, ele mostra a essência de um humano em suas diversas fases, de um humano camaleão que serve de exemplo para a sociedade se embasar em suas teorias sociais, em suas frases desbocadas e em seu estilo de vida que é propício a qualquer novo caminho. A mudança constante é que nomeia a película, não estou lá porque aquele não sou eu, aquele era eu. É um filme metafórico que entrega um espírito em sua duração. Ser o espírito de Bob Dylan é uma consequência e um atrativo a mais para tornar Não Estou Lá em um filme imperdível.
NOTA: 9

13 de março de 2011

Bruna Surfistinha (2011)

Um filme de Marcus Baldini com Deborah Secco e Cássio Gabus Mendes.

Qual o motivo de tanto estardalhaço ao redor do filme Bruna Surfistinha, feito a partir do diário de uma prostituta? Uma combinação inteligente para atrair público num filme bem feito, mas que não chega a ser uma pérola do cinema nacional. Ao criar no filme uma atmosfera altamente sexual num mundo precário e desordenado já explorado muitíssimas vezes pela cruel indústria cinematográfica, que o mostra com mais crueza ainda; e colocar uma atriz global no papel principal, dona de um dos mais belos corpos da televisão brasileira, o longa metragem vira mais do que uma biografia nas telonas: vira, também, um objeto de consumo para a obtenção de um tesão impregnado no filme, por mais que nenhum aspecto sexual seja exibido de forma explícita no relato da garota de programa.
Pouco antes de seus 18 anos, Raquel Pacheco (Deborah Secco) fugiu de casa para adquirir uma independência que não tinha no ambiente familiar e, sem rumo na vida, vira uma garota de programa de pseudônimo Bruna Surfistinha. Ao dividir suas experiências sexuais num diário mantido num blog, Bruna adquire uma fama instantânea e se torna uma prostituta notória.
A prostituição é trabalhada de uma forma bastante convencional esteticamente no longa, por mais que a abordagem, em geral, chegue a ser diferente. O mundo da prostituição é retratado na mais pura decadência, repleto de uma malícia verdadeira, e criando um paralelo ao mundo das drogas. Mas, diferentemente de outros filmes que usam do tema para fazer uma crítica e mostrar a todos que a venda do corpo é um caminho perdido e pecaminoso, Bruna Surfistinha mostra que prostituição é um caminho como qualquer outro. Nas quase 2 horas de duração, Bruna luta, com uma vontade ferrenha, para adquirir tanto um respeito em meio a sua decadência, seguindo seus próprios instintos, e sua independência financeira. Porém, é sempre bom se lembrar que a cada caminho que se toma, ninguém está livre das consequências provindas daí. As motivações da protagonista se perdem em meio à narrativa. Suas explicações para as ações subsequentes são insuficientes e não conseguem convencer um público faminto, ansiando por expectativas.
Deborah Secco mostra aqui que consegue segurar sua atuação em um trabalho duplo, primeiro mostrando insegurança, depois exalando sexualidade. Nos primeiros minutos do filme, Raquel era uma menina fechada e introspectiva, usando roupas longas que escondiam seu corpo e uma franja que escondia seu belo rosto marcado por seu passado injusto - em sua própria visão de mundo e razão em relação a sua família adotiva e ao bullying que sofria na escola. Depois, perto do fim, não há mais características daquela menina que aparece no início do filme, há apenas uma mulher que aparenta ser segura, mas está fragilizada internamente devido ao caminho escolhido. Sua personagem tem uma força de vontade imensa dentro de si, isso é inegável. A história de Bruna não é a melhor para se ilustrar e se ter como exemplo, ainda mais porque suas razões são pequenas e sua vida é caótica, por mais que ela apresente um orgulho de seus atos, atos esses que podem taxá-la de ninfomaníaca. Afinal, a busca maior de Bruna é conseguir um dinheiro e se afastar da dependência. Mas quando se pode unir o bom do dinheiro próprio ao agradável do sexo incansável, porque não fazê-lo? Há ainda Cássio Gabus Mendes, que faz o primeiro cliente de Bruna Surfistinha e que tenta tirá-la de sua vida caótica e desordenada, e faz um dos vários contrastes racionais da personagem principal numa atuação segura e firme, por mais que pouco apareça na sessão.
Nesse filme nacional, temos um diretor estreiante que surpreende ao misturar closes e planos para mostrar a sexualidade de forma completamente despojada e banal, temos uma atriz principal que surpreende por sua caracterização na forma de Bruna, temos uma trilha sonora agradável e que coloca ainda mais tons depressivos no filme, ao misturar a tensão das drogas e o ambiente débil da prostituição com a melodia calma e melancólica do Radiohead. Porém, o que o filme mostra não é uma reflexão para as pessoas aprenderem o quanto a vida se prostituindo é árdua, isso fica em segundo plano. O filme é um entretenimento para pessoas que anseiam por sexo e querem ver o mais próximo de Deborah Secco de um nu frontal, já que foge de explicações e conclusões, e mostra, num roteiro que poderia ter sido melhor explorado, uma pessoa instintiva que, por mais que caia, ainda insiste em levar tombos.
NOTA: 5

17 de fevereiro de 2011

127 Horas (2010)

Um filme de Danny Boyle com James Franco.

Para mim, Danny Boyle é um dos melhores diretores da atualidade. Vi poucos filmes dele até agora, mas que fizeram valer a pena o tempo de duração e que sempre surpreendem por uma direção diferente feita em cima de um roteiro que poderia se tornar um fiasco se não colocado em mãos certas. Foi exatamente isso que ocorreu com seu sucesso de 1996, Trainspotting, pois duvido que algum outro diretor pudesse ironizar com tanto bom-humor uma história de jovens viciados em heroína. 127 Horas é o nome da vez. Indicado a 6 Oscar, incluindo o tão cobiçado melhor filme, é o típico filme que poderia não ser esse sucesso todo. Não é todo mundo que consegue criar uma história onde o cenário e a situação são constantes, e mesmo assim se caracterizar como um filme tenso. Isso já foi visto em 2010 em outro filme, Enterrado Vivo, com Ryan Reynolds. Mas o que não tinha nele, 127 Horas tem de sobra: humor, que é conferido por Boyle e por um grandioso James Franco.
Baseado em fatos reais, o filme segue contando a história de Aron Ralston (James Franco), um alpinista que, em maio de 2003, teve o braço preso numa fenda na região montanhosa de Utah, Estados Unidos. O drama que ele passou nas suas 127 horas preso na pedra são indescritíveis nesse relato incansável por uma esperança de sobrevivência, que mistura passado, presente, memórias, possibilidades e redenções.
A direção de Boyle é um grande diferencial. Visões inusitadas entre cenários belíssimos de uma região pouco explorada dos Estados Unidos são o mínimo que ele pode oferecer para um público sedento de uma história tensa. E ele consegue criar tensão e mais um pouco na história real de Aron Ralston. Todo o drama criado para a situação de um membro preso numa pedra se junta, amigavelmente, com emoções conferidas pelo personagem principal através de lembranças, memórias, revelações e planos futuros. Arrependimentos rodeiam o espectador no relato de 5 dias cheios de emoções fortes, e quando se menos espera vem a cena mais aguardada do filme, que está fazendo pessoas vomitarem e desmaiarem ao redor do mundo. E acho desnecessário ressaltar que boa parte da densidade dessa tal cena é culpa de uma câmera envolvente que não perde nenhum momento. Cenas vistas através de garrafas d'água quase vazias, pela visão de uma terceira pessoa inexistente e, principalmente, de uma filmadora que capta momentos de puro êxtase até uma tristeza profunda são instigantes e completamente necessárias no filme, que também tem uma ótima edição.
Por mais que os enquadramentos e planos do filme sejam ótimos para manter o público entretido num roteiro que poderia se tornar cansativo facilmente, nada seria a mesma coisa sem o segundo diferencial do filme, que é um excelente James Franco na melhor atuação de sua carreira. Ele consegue manter um ritmo invejável ao longo dos 90 minutos de duração sem perder uma graça irônica e uma esperança quase cega que o mantém vivo em sua luta por sobrevivência, e isso tudo sem sair do personagem. A batalha entre vida e morte do protagonista nos leva para dentro das telas para ter de sofrer tudo o que ele sofre. E o terceiro diferencial do filme é uma carga forte do próprio Aron Ralston, encarnado na figura de James Franco, passando uma mensagem clichê de uma forma bem mais marcante: nunca desista. A esperança e a vontade do personagem de conseguir reviver os melhores momentos e consertar os erros da vida são enérgicas, agora que ele já consegue visualizar um possível fim nessa situação inusitada que se encontra. E tudo é acompanhado e regido por músicas rápidas de um A.R. Rahman - que também já compôs para Boyle a trilha sonora de Quem Quer Ser Um Milionário? - e ainda seguidas pela deliciosa voz da cantora Dido, acentuando toda a tensão vista durante a obra com a música If I Rise.
E aqui temos mais uma obra forte. A força de vontade do personagem é intensa como a excelente atuação de James Franco, que, se não fosse por Colin Firth, seria meu favorito para um Oscar merecidíssimo de melhor ator. Por mais que não haja uma mudança no cenário, o diretor tenta fazer, com sucesso, o longa ficar o menos maçante possível, explorando diversos meios para inovar seu filme. Danny Boyle não decepciona como diretor ao retratar uma história cujo peso só aumenta ao se revelar baseada em fatos reais. E o peso dessa história é maior que uma pedra de uma tonelada. Porém, ambos cumprem o dever: retratar uma vida cheia de erros, que nunca é tarde demais para ser revertida.
NOTA: 9

14 de fevereiro de 2011

O Discurso Do Rei (2010)

Um filme de Tom Hooper com Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter.

Todo povo precisa de uma voz para representá-los de um modo que melhor lhes favoreça. Que a voz tenha ideias concisas e coesas, que a voz consiga ver os dois lados de uma situação desesperadora, que a voz transmita segurança para o povo que conduz. Mas se essa voz não consegue nem ao menos se segurar e mostrar força, imagine quando ela governa uma das maiores potências, ainda mais num estado caótico pré-Guerra Mundial. O Discurso do Rei, um dos favoritos ao Oscar de melhor filme e o indicado a mais categorias na premiação - 12, no total - tem um charme próprio conferido pelo ar vitoriano trazido à narrativa, isso junto da ótima direção de Tom Hooper, que mescla efeitos envolventes com a trama e com uma trilha sonora característica e aguçada de Alexandre Desplat. Porém, ainda falta algo na história de O Discurso do Rei para torná-lo uma obra prima. É um filme divertido, muitíssimo bem feito e bem humorado, mas para por aí.
O filme conta uma história de superação por trás da figura do Rei George VI (Colin Firth), o pai da rainha Elizabeth II, a atual monarca do Reino Unido. George, marido da rainha Elizabeth (Helena Bonham Carter), tem um sério problema para representar seu próprio povo. Ele não é capaz de fazer discursos ou pronunciamentos graças a uma terrível gagueira que o atormenta por sua insegurança em seu papel na sociedade britânica. Como o futuro iminente sugere que ele comece a se pronunciar mais em relação ao povo inglês, sua mulher procura um terapeuta da fala para auxiliar o marido em seu problema. A partir daí, a família real se junta ao pouco convencional Lionel Logue (Geoffrey Rush), que ajuda o rei a estabelecer uma segurança e criar uma voz para representar a seu povo e a si mesmo.
Sobre técnica, o filme está impecável. Alexandre Desplat é competente e cria uma atmosfera para reavivar a visão inglesa que temos nas quase duas horas de sessão. A direção está excelente ao criar planos diferenciados, uma visão turbulenta para reproduzir o olhar dos personagens, ângulos nada convencionais ao mostrar uma terapia para curar a gagueira e os enquadramentos ora distanciados, ora colados nas figuras históricas que aparecem em características cômicas na tela. A fotografia de época que traduz uma Inglaterra fria combinada com um figurino de cores mortas traz um ritmo ainda mais essencial para o funcionamento do longa. O que há de errado n'O Discurso do Rei é um roteiro altamente emocional, feito para agradar a todas as idades. Em certas cenas, que mostram até um descaso com a figura real por seus súditos, o que prevalece não é o tom biográfico traduzido numa história de superação, é um humor de situações não convencionais para uma lição vir como se estivesse sendo mostrada num filme de comédia. E aí mora o pecado da obra: ao converter seu drama em cenas divertidas, ele acaba perdendo um tom que tenta recuperar no desfecho da sessão.
Os personagens seguem à risca um roteiro sentimental e tentam mostrar, diferentemente da história, a relação entre a monarquia e os súditos, e como ela consegue ser bem vista. Aí mora boa parte do humor, imagine só, um rei saindo de seu castelo para visitar diariamente um subúrbio inglês? A sorte é que aí não se veem tantos erros, pelo simples fato de que os atores e atrizes são altamente competentes nas transfigurações para os personagens. Helena Bonham Carter está sublime, a doçura e razão exaladas por sua personagem quando em cena são contagiantes, e é quase impossível conter alguns risos de frente a sua personalidade extrovertida. É uma pena que ela apareça tão pouco no filme, se sua personagem fosse mais aproveitada ela ganharia facilmente o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Geoffrey Rush é outro que aposta num bom humor típico ao interpretar, brilhantemente, um terapeuta que, ao longo do tempo, se torna um psicólogo e um amigo para o rei. A fuga do ortodoxo revela a verdadeira faceta do médico, que se torna necessário para um fim digno de rei.
Mas a parte dramática inteira fica na ótima atuação de Colin Firth. A tarefa de um rei, antes de tudo, é auxiliar seu povo em momentos difíceis, é ter a própria voz como um referencial a ser seguido nesses tempos. Mas o rei não acredita em si próprio, e a sua voz está danificada por isso. Como ele auxilia um povo se não consegue auxiliar a si mesmo? A cada minuto que passa, o personagem de Colin Firth se torna cada vez mais inseguro, e mostra isso em suas explosões para com a família, esta sendo representada por um Guy Pearce que não aparece e provoca o irmão mais novo através de uma gagueira incontrolável. Depois de ver um irmão companheiro morrer, um irmão mais velho zombeteiro e pais rígidos que acompanham um método tradicional para a formação do futuro do Reino Unido, ele fica gago resultante de todos os problemas emocionais que lhe afetaram direta ou indiretamente. Um homem impotente não deveria ter um cargo tão importante nas decisões de uma nação inteira. E, ao se ver repentinamente a dois passos do trono e ainda mais perto de uma Guerra de consequências devastadoras para seu reino, ele tem de esquecer esse seu problema, que só foi ganhando campo ao longo dos anos. Por mais que boa parte das emoções no filme soem artificiais, é uma bela história de superação, no fim das contas.
Tudo no filme parece perfeito se olhado apenas de um modo estético. Tudo está em seu devido lugar, minuciosamente detalhado, trabalhado competentemente para uma soma entre atuações de um elenco espetacular e um visual bem-feito. Mereceria seus 12 prêmios se o teor do filme fosse tão frio quanto o cenário em que a história é retratada. O humor é bem vindo para O Discurso do Rei não se tornar enfadonho em sua duração, mas esse mesmo humor acaba estragando a essência do filme. No fim das contas, não é um filme sobre a vida do Rei George, mas que poderia ser retratado em situações semelhantes numa periferia atual. O aspecto antigo é que traz a glória a um filme que dá vida ao drama de uma gagueira em busca de superação, não na história marcante de um rei com dificuldades em guiar um povo, tão perdido quanto ele mesmo.
NOTA: 8

28 de dezembro de 2010

A Rede Social (2010)

Um filme de David Fincher com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield e Justin Timberlake.

Facebook. Atualmente mais de 500 milhões de pessoas tem. Fácil você identificar isso, hoje em dia na maioria dos sites que você entra há uma propaganda do facebook, ou então quadradinhos com um "F" num fundo azul, te levando à página do facebook do dono. Eu ainda não sou uma dos seguidores do facebook, mas estou inclinado após o estrondoso A Rede Social, o novo longa de David Fincher, diretor também do Clube da Luta e d'O Curioso Caso de Benjamin Button. Fincher foi meu primeiro motivo de ver o filme. Depois foi a avaliação. O filme, que já tinha estreiado nos Estados Unidos, teve um sucesso de crítica imensa por lá, chegando a pontuação de 93 em sites populares, mesmo com 1 mês após a estreia.
Numa noite de 2003, na faculdade de Harvard, Mark Zuckenberg (Jesse Eisenberg) leva um fora de sua namorada, Erica Albright (Rooney Mara). Alguns minutos depois ele fala mal dela no seu blog e decide criar um site comparando as meninas das universidades locais, se tornando um sucesso estrondoso em poucas horas. Esse sucesso traz certo interesse em Zuckenberg, dando a ele a oportunidade de criar um site de relacionamento apenas das universidades. Junto com seu amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield), eles criam o TheFacebook, site que também vira sucesso. Atualmente, Zuckenberg é o mais jovem bilionário do mundo e seu Facebook se tornou o tabajara dos sites de relacionamento. A Rede Social é a visão de todos os ângulos da história entre a criação e o sucesso do website.
É incrível a capacidade de David Fincher para criar obras desse peso, até mesmo quando o assunto chega a ser maçante. Por mais que seja a rede social mais utilizada no mundo, a estória do facebook poderia não ter o mesmo sucesso em outras mãos, do mesmo modo que a película de Fincher não seria um estouro se o filme falasse do myspace. Em certo momento do filme, o protagonista diz que está checando o número de usuários do facebook na Bósnia Herzegovina. A resposta da interlocutora diz muito, "Uau, não há ruas asfaltadas por lá, mas as pessoas têm facebook". É um filme atual, com as marcas características da globalização e com personagens que carregam carapaças já conhecidas nas costas. O ritmo incontrolável, intensamente levado por Jesse Eisenberg até o desfecho, e a transição entre histórias pós e pró criação do website deu muito certo, trazendo uma carga emocional altíssima para o que poderia ter sido um documentário frio sobre o mundo empresarial e as batalhas sofridas por um jovem estudante de Harvard para criar um dos maiores sites de relacionamento existentes.
Outro fator para o sucesso do longa foi Jesse Eisenberg. Desde o início já conhecemos o lado nerd e desbocadamente sincero de seu personagem, o que o traz a característica de babaca logo cedo. Essa palavra pode resumir o jovem bilionário dono do facebook que nos é mostrado nas telas. Mas é um babaca tão caricato, cheio de manias, que é impossível não adquirir certa simpatia pelo evidentemente simples e inofensivo Mark Zuckenberg e suas frases frenéticas e longas que parecem estranhas no mundo dos negócios. E ao mesmo tempo que há essa simpatia no fim, o resto da duração ele se torna um dos babacas mais odiosos da tela, tornando-se, paralelamente, o vilão e o mestre das relações sociais. Zuckenberg é apenas um estudante, babaca, claro, que tem problemas de relacionamento e por isso cria um site de relacionamento que se torna estrondoso. Do mesmo lado, temos Andrew Garfield, que faz um personagem cheio de extremos e sensibilidade e deveria ser mostrado como vilão na visão do "protagonista", mas se mostra às vezes o verdadeiro protagonista.
O novo drama de Fincher tem seus pontos baixos, claro. Com uma história de linearidade alterada, personagens com estereotipos bem executados e fatos cabeludos de uma empresa super bem sucedida, a obra corria o risco de virar um clichê, e dos grandes. Ainda bem que o filme chega um pouco além disso. O ponto culminante do filme são os ótimos personagens que seguimos, mostrando seus lados humanos à flor da pele. Mark Zuckenberg é quase um Cidadão Kane do século 21. Divertido e cativante, tudo de A Rede Social deveria ser visto por todos os 500 milhões de amigos existentes no facebook e adorado. Ou então, muitíssimo odiado.
NOTA: 8

2 de novembro de 2010

Monster - Desejo Assassino (2003)

Um filme de Patty Jenkins com Charlize Theron e Christina Ricci.

O incrível desse filme é o assombro que é Charlize Theron. Pode-se vê-la em trabalhos mais populares, como Aeon Flux, onde ela está linda, morena e extremamente falsa. Não que a atuação dela não seja boa, mas há muito mais verdade em Monster - Desejo Assassino do que em seu outro trabalho, tanto que lhe rendeu um Oscar merecidíssimo. Irreconhecível, se comparada a outros trabalhos. E bem mais verdadeira. Concordo que a interpretação de Charlize é o pique do filme inteiro, o que o faz não perder ritmo algum, e sua descaracterização é incrível. Além disso, a história sobre a primeira serial killer dos Estados Unidos é perigosa se não fosse interpretada de uma maneira correta, mas ficou agradável na forma de Charlize.
Aileen Wuornos (Charlize Theron) é uma adulta transtornada. Após criar um mundo em sua infância cheio de aspectos de contos de fadas e de mensagens positivas, ela recebe um choque quando se depara com a vida real através da prostituição logo cedo. No dia em que ela decide se matar, ela conhece Selby Wall (Christina Ricci), uma lésbica que vive num mundo homofóbico de sua família altamente religiosa e que só quer fugir dele por algum tempo. Porém, quando Aileen é torturada por um cliente, ela o mata e decide fugir com Selby, já que o homicídio lhe rendeu uma boa grana. Vendo que a polícia não tinha nem pista do assassino, ela inicia uma onda de assassinatos para conseguir sustentar as duas, se tornando a primeira serial killer da história norte-americana.
As possibilidades ficam bem presentes na história, ao ser comparada com aquilo que a mídia promove. Se olharmos através de jornais e reportagens que existem da época, Aileen Wuornos é um monstro que mata qualquer pessoa durante o ato sexual. O filme a torna algo bem mais simpática, alguém normal que tem de se virar devido as circunstâncias, alguém que ama, alguém que se decepciona, alguém que se fere, alguém que mata por amor e sobrevivência. A película esforça para tornar a assassina em uma humana. Nada que justifique a morte, mas ela se torna algo bem mais agradável e emocionante assim. O sarcasmo da protagonista também é algo que merece aclamações. A última frase é um soco na cara do público. "'A fé move montanhas'. 'O amor sempre vence no final'. É, eles têm que te falar alguma coisa".
A atuação é assustadora de tão boa. Charlize Theron é um show a parte, como já dito anteriormente. Ela incorporou de corpo e alma a serial killer com uma seriedade assombrosa. Deu para se esquecer completamente quem era Charlize Theron vendo o filme, eu tentei achar a mesma moça com traços perfeitos que fez Aeon Flux, mas só achei uma prostituta desengonçada, grande, com os cabelos desgrenhados e traços masculinos. E muita verdade. Christina Ricci é outra espetáculo fornecido na sessão, a moça interpreta com maestria sua Selby me causando os mais extremos sentimentos durante o filme.
Filmes com finais felizes são bons na mesma quantidade dos de finais infelizes. Desde que consigam me justificar o porquê acabaram assim, tudo está ótimo. E a infelicidade que aparece no filme se justifica o tempo inteiro, seja com o preconceito alheio onde o homossexualismo era um desvio completo da alma do caminho de deus ou com a dificuldade de se conseguir uma vida normal num mundo capitalista, as entrevistas de emprego que Charlize faz para conseguir se sustentar fora da prostituição são ótimas. E o desfecho dessa estória da procura de um sustento, com um estupro por um policial, é o fim que precisava. A prostituição é um caminho cruel cheio de preconceito, sem volta alguma se você não conseguir se sustentar fora dela. E nem a fé nem o amor podem ajudar nisso, não importa o quanto falem.
NOTA: 9

2 de outubro de 2010

Piaf - Um Hino Ao Amor (2007)

Um filme de Oliver Dahan com Marion Cotillard e Gérard Depardieu.

Em alguns filmes, eu me esqueço do roteiro e só vejo a atuação, tendo que ver o filme novamente para poder verificar o que eu perdi na estória. Björk me fez chorar em sua obra prima Dançando No Escuro. Eu senti toda a fúria de Nicole Kidman em Dogville e em sua excelente Virginia Woolf de As Horas. Ri demais com Cecilia Roth em Tudo Sobre Minha Mãe. Não imagino uma melhor Clementine de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças do que foi Kate Winslet. A estreia de Mo'nique no ano passado em Preciosa deu o que falar. Adoro conferir, sempre que posso, a brilhante Hilary Swank em Menina de Ouro ou no também premiado Meninos Não Choram. E Julianne Moore, posso dizer que sua atuação em Ensaio Sobre A Cegueira foi acima de qualquer expectativa. Piaf é a obra prima de Marion Cotillard, e é realmente uma obra prima que não ocorre duas vezes no mundo.
Desde pequena, Edith Piaf (Marion Cotillard) sofre. O filme narra sua história desde quando era criança, quando tinha que viver nas ruas francesas com sua mãe cantora. Após isso, o pai foi buscá-la e a deixou na casa da avó, que é um cabaret, onde ela teve convivências diárias com a vida de um bordel. Edith ficou cega mas se curou milagrosamente por uma oração à Santa Teresa, a tornando uma mulher religiosa desde então. Quando o pai vai buscá-la, ela começa a cantar para poder ganhar sua vida no mundo, se tornando a francesa com o vozeirão que ela foi. Além disso, toda a vida pública de Edith foi explorada para mostrar os caprichos e a polêmica que ela sofria.
Como falei, a atuação é impecável. Única. Conheci o trabalho de Marion Cotillard com sua pequena participação em A Origem, deste ano. A partir daí, vi Nine, um musical do ano passado em que ela cantou lindamente. E sua atuação só ia crescendo. Agora, com Piaf - Um Hino Ao Amor, ela chegou ao auge. Toda a modificação que a atriz sofreu foi incrível, desde Piaf em sua época de cantora de cabarés até a Piaf de 47, na véspera de sua morte. Parece que Edith Piaf desceu em Marion Cotillard nesse filme, todos os trejeitos que ela usava durante sua cantoria lembram a francesa. A fotografia e o figurino estão incríveis. Acima deles eu coloco a maquiagem e a trilha sonora, que ficaram fantásticas.
Além de ter uma atuação indescritível, o roteiro ainda é simpaticíssimo e emocionante. Cada história é uma história, e mesmo Edith Piaf sendo orgulhosa e cheia de caprichos, sua estória é linda, até chegar ao ponto de  lotar um show em sua primeira apresentação após um desmaio. O fim, com Edith cantando sua bela Non, Je Ne Regrette Rien, foi perfeito, a música combinando com toda a sua vida. As duas e longas horas do filme se passam num minuto em meio a sua beleza e todo o sofrimento de Edith Piaf.
Piaf - Um Hino Ao Amor é uma beleza com suas músicas cativantes, seu cenário encantador e seu roteiro delicioso. Mas a fama do filme é gerada por aquela que conseguiu transmitir o sofrimento da polêmica cantora francesa, aquele que utilizava das doenças, do movimento dos ombros, do cabelo, das roupas, das mãos, do quadril, de tudo, para ser Edith Piaf. Ovaciono as duas mulheres no filme, tanto Edith Piaf quanto Marion Cotillard.
NOTA: 9

15 de setembro de 2010

Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostítuida (1981)

Um filme de Uli Edel com Nadja Brunckhorst e Thomas Haustein.

Por amor, algumas pessoas tem um final feliz para sempre. Outras acabam com amizades para ter o que acreditam ser o sonho da vida. Outras morrem juntas e abraçadas. Ainda há quem consista em se tornar vampiro por uma paixão. Christiane F. se droga e se prostituí por amor. Não foram as drogas que acabaram com a vida dela, foi uma paixão. As drogas foram apenas consequências disso. Christiane F. - 13 Anos tem um aspecto muito interessante: é a forma de todo aquele sentimento adolescente que ela tem com todo aquele preconceito por parte dos seus amigos drogados. Adicione ainda mais o sentimento de "Eu sou imortal". Isso é o que observamos em Christiane F., isso é o que observamos nos jovens de hoje que acabam com suas vidas entrando num mundo de pó branco.
Christiane (Nadja Brunckhorst) é uma menina de 13 anos que vive apenas com sua mãe. Como toda jovem, ela quer sair, ver o mundo e curtir com suas amigas, longe dos olhos de sua família. Nisso, ela mente para sua  mãe para ir à Sound, uma das boates mais modernas de toda Europa. Nada que ninguém não tenha feito. Porém, na boate, ela conhece Detlef (Thomas Haustein), um jovem que, para Christiane, é o menino mais legal do mundo. Quando ela descobre que ele se droga, ela começa com o LSD e outras drogas, até chegar no ponto de injetar heroína. E, como todo viciado, uma vez que o dinheiro acaba, ela acaba arranjando outros meios para conseguir suas drogas, entrando, além do mundo das drogas, no mundo da prostituição.
Pra quem não sabe, Christiane F. é baseado numa história real, da verdadeira Christiane F. A verdadeira conseguiu sair da prostituição, mas ainda se droga até hoje. É realmente um caminho sem volta. Não falo isso porque eu aprendi num folheto educacional ou porque eu quero que quem leia isto não se drogue. É porque é a verdade. Bem, gosto bastante da história de Christiane F. Não chega a ser cruel se comparado a outros filmes atualmente. Não chega a ser bonito, pessoas que dormem no seu próprio vômito não é algo bonito. Chega a ser verdadeiro e só, e com toda certeza dá para se aprender muito com sua história caótica. Vamos melhorar a frase: toda a parte das drogas é verdadeira, tem partes que não me convencem mesmo, nem que estejam iguais a história da verdadeira Christiane.
A atuação só gira em torno de Nadja e Thomas, e como a atuação de Thomas foi um pouco falha, Nadja teve que carregar consigo as emoções inteiras do filme. Ela consegue agir com boa naturalidade no início e no meio, até entrar num ápice dramático no fim. É uma boa atuação, pena que seja só 50% do filme inteiro. A parte técnica ocorre completamente num cenário escuro com roupas pesadas (quando há roupas) e uma fotografia não muito boa. Eu achei necessário, senão o ambiente do consumo de drogas não seria efetivamente real, em um lugar com cores vivas e quentes. Mas chega uma hora que, mesmo com o DVD original em mãos e sem qualquer falha na qualidade de algo baixado, o escuro fica maçante de se ver, e esse escuro é retratado o filme inteiro.
Christiane F. - 13 Anos é um filme necessário. Existem outros filmes que mostram as drogas: uns mostram um lado totalmente exagerado delas. Outros mostram o quanto fumar, cheirar e picar é legal e te deixa doidão. Esta pérola do cinema alemão não é nem um nem outro. É a verdade. Qualquer um que se pica pela primeira vez vomita. Qualquer um que injeta demais tem uma overdose. Qualquer um que se injeta muito não consegue distinguir veias. E esse era - e ainda é - o mundo de Christiane F. e de todos que entraram no mundo das drogas e nunca mais conseguem sair. Pena que um roteiro tão bom não tenha se saído bem na transição entre as páginas e as telas.
NOTA: 7

11 de julho de 2010

O Pianista (2002)

Um filme de Roman Polanski com Adrien Brody e Thomas Kretschmann.

Um imenso, cruel, frio e verídico relato sobre a Alemanha nazista. E um clássico que merece estar nas listas de recomendações de qualquer locadora, aula de história ou filmes da década. Comparações não são muito boas, mas se necessário, preciso dizer que O Pianista é uma versão igual à Lista de Schindler, se formos comparar o retrato nazista que eles passam na época do auge da Segunda Guerra Mundial.
O Pianista conta a história verídica de Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody), um judeu que mantém sua família tocando piano. Porém, no dia em que a rádio polonesa foi destruída, ele começa a viver as dificuldade de ser um judeu no meio da Alemanha, de sofrer todo o preconceito e de não poder ter muito dinheiro graças à várias restrições. Ele acompanha e nos mostra com a sua visão o início da Segunda Guerra Mundial, a matança que ocorria nas mãos da Gestapo, a separação dos cristãos dos judeus em guetos, a ridicularização, até tudo seguir para o seu tão esperado fim.
A história não é linda. Muitos podem ter se emocionado com ela e com as lutas que Wladyslaw batalhou pela sua sobrevivência, e isso é realmente bonito, mas a história não é só isso. É uma atitude histórica que afetou e matou milhões, e embora nenhum dos meus antepassados tenha participado dessa chacina eu me envergonhei profundamente de ver a raça humana fazendo toda essa merda com eles mesmos. A filosofia ariana me enoja. E O Pianista cospe isso na cara, para que me enoje mais ainda. Ótimo.
A atuação de Adrien Brody está boa, ele sempre representa a felicidade em pessoa, apesar de estar em situações desumanas e morrendo de fome, ele continua com o aspecto otimista. Só vi ele mudando daquilo depois de tentar socorrer o garoto morto entre o muro do gueto. A fotografia é belíssima, o modo como ela mostrou o caos da guerra foi ótimo. E péssimo, ao mesmo tempo. O figurino e a trilha sonora, assim como a fotografia, fundamentais para o desenvolvimento do filme, e muito bem trabalhados.
Embora a maior nota que eu dê aqui seja aquelas esperadas 5 estrelas, esse filme merecia um 10. 5 estrelas por retratar o pior dos homens de um modo tão real que me emocionou e mais 5 por ter trabalhado com isso a história de um judeu felizardo, e ter conseguido virar uma referência.
NOTA: 10

7 de julho de 2010

O Terminal (2004)

Um filme de Steven Spielberg com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones.

Esse é um bom filme para se ver com a família, para rir, para chorar, se emocionar. Para todas as idades, com toda a certeza. A cena mais erótica apresentada é uma aproximação dos rostos de Hanks e Zeta-Jones. O Terminal é um filme bom, mas mal aproveitado. Não que eu possa esperar algo de um filme da Dreamworks. Não me levem a mal, não é um ódio pelo Dreamworks, e sim o estereotipo que ela apresenta: Todos tem inimigos mas no final todo mundo se torna amigo, todos se dão bem no fim, o mocinho aprende um monte de coisas ao longo do filme e tem altas aventuras com seus amigos. E não que eu deseje o mal dos outros, mas alguém poderia morrer num filme desses. Ou ao menos se beijar. Ou começar algo com base.
Viktor Navorski (Tom Hanks) é um homem que acaba de vir da Krakozhia para os Estados Unidos. Porém, enquanto ele estava viajando, o país sofreu um golpe de estado e ele não poderia ser mais considerado um Krakozhiense. Resumindo: ele não poderia voltar, pois não era mais considerado um cidadão do país de origem do mesmo modo que não poderia sair, pois o passaporte dele perdeu o valor graças a revolução. A partir daí ele fica no meio termo entre a Krakozhia e os Estados Unidos, num terminal de aeroporto esperando que alguém resolva sua situação.
A história é algo digno de contos de fadas, exceto por um único detalhe: Hanks não fica com Zeta-Jones. Isso pode até ter sido o ápice da história pra mim, mas o resto ficou igualzinho a qualquer história da Disney. Com pontadas de comédia que fazem as crianças do recinto rirem com algumas tentativas de passar uma mensagem um pouco falha. Com uma história dessas, de um homem preso num terminal durante 9 meses, o filme poderia ser muito mais aproveitado. Me desculpem se alguém entendeu esta parte, mas o que leva um homem cansado no meio da noite a construir uma parede sem nem saber se íam pagá-lo? Não consigo acreditar nem em perfeccionismo nessa hora.
A atuação foi ótima. Tom Hanks está grande no filme, não vi falha nenhuma. Zeta-Jones me convenceu no final, mas não no começo. Stanley Tucci me convenceu no começo, mas não no final. O resto teve uma boa atuação, mas nada tão bom que tenha enchido meus olhos. A trilha sonora é boa, assim como figurino. Belo cenário, ficou perfeito. A fotografia se salvou em várias partes do filme, mas não tenho o suficiente para dizer que ela foi boa, deixo-a mediana.
O Terminal pode passar numa sessão da tarde tranquilamente, após um almoço de domingo para a vovó e os netinhos rirem juntos e terem algo o que comentar no jantar. Mas não sei como conseguiram supervalorizar tanto esse filme, já que ele tem a mesma fórmula que tantos outros exibidos por aí.
NOTA: 6

20 de junho de 2010

The Runaways (2010)

Um filme com Kristen Stewart e Dakota Fanning.

The Runaways foi muito difícil de ser avaliado pelo simples motivo que aparece no pôster acima: "é 1975 e elas estão quase explodindo". The Runaways é um filme feito em 2010 retratando o ano em que o rock 'n roll estava no seu auge: homens maquiados e usando saltos-altos e cantando heavy metal, David Bowie estava no ápice da carreira, a atitude rebelde e inconsequente e as frases feitas para se criar uma superioridade e indiferença, as drogas em todo o lugar e todas as frases referentes a orgias e orgasmos. Isso tudo em 1970 era a chave para o sucesso. Hoje em dia é muito clichê. E para se ver The Runaways o clichê tem que ficar de lado e todas as atitudes rock star tem que estar na frente.
Cherie Currie (Dakota Fanning), uma garota de 15 dos anos 70 que curte o rock bastante, faz uma apresentação na escola vestida de David Bowie, mas seus colegas não conseguem apreciar o modo revolucionário da garota e a vaiam. No dia seguinte, enquanto Cherie está num bar, ela conhece Kim Fowley (Michael Shannon), um produtor que a apresenta a Joan Jett (Kristen Stewart), uma guitarrista a procura de uma vocalista para sua banda. E assim começa as The Runaways, uma das primeiras bandas só de mulheres num mundo totalmente machista, que explodiram com sucessos como "Cherry Bomb" e "I Wanna Be Where The Boys Are".
A trilha sonora é ótima, já vale pelo filme. Varia desde Suzi Quatro, que pelo modo parece a favorita de Joan Jett, até os grandes sucessos do Joan Jett And The Blackhearts. Isso passando por vários sucessos de David Bowie, Peggy Lee, Iggy & The Stooges e, é claro, The Runaways. E o filme ainda nos delicia com versões cantadas pelas próprias Dakota Fanning e Kristen Stewart. A atuação fica ótima, ainda mais se você está acostumado com a Kristen Stewart sem graça e sem emoções da série Crepúsculo. Ela foi ótima, sua atitude rebelde promoveu os melhores momentos durante o filme. Dakota Fanning também esteve impecável, encarnou uma ótima Cherie Currie. O resto das atuações tiveram seus altos e baixos, algumas me chamaram a atenção e outras ficam num nível mediano, mas nenhuma pode ser considerada ruim.
A história, bem, é verídica. Pelo menos na visão de Cherie Currie, pelo que eu entendi do filme. E retrata muitíssimo bem a era do caos que se ergueu pelo mundo nos anos 70, graças ao advento do rock. A maquiagem e o figurino ficaram excelentes, eu vi Joan Jett em Kristen Stewart quando o filme estava perto do fim. E não acho que alguma outra atriz, por mais excelente que seja, consiga interpretar Cherie Currie tão bem quanto Dakota Fanning. A fotografia ficou excelente em várias partes do filme. Mas os diálogos para mim foram o ponto fraco, isso porque eu continuo enxergando os diálogos como parte do século 21 e não de meados do século 20. Eu realmente não consegui achar alguma beleza nas filosofias de bêbado de Kim Fowley, onde orgasmos, paus, sexo e orgias eram jargões de suas frases.
The Runaways é grande porque é verdadeiro. Eu não sei se todas as garotas da banda viveram toda aquela pressão, eu não sei o que é verdade ou o que é mentira do filme, mas tudo me soou tão real que eu me senti uma criança ingênua, acreditando em tudo que falavam na tela. Minto, não tudo. No começo foi difícil de me acostumar com o modo de Joan Jett e eu não me convenci por nada que o homem da rádio falou no fim, mas me convenceu durante a maior parte do filme e me fez ver a beleza de uma das milhares de bandas de rock que ficaram famosas em anos em que minha mãe nem sonhava em ter filhos.
NOTA: 7

4 de junho de 2010

O Zodíaco (2005)

Um filme de Alexandre Bulkley com Justin Chambers.

Eu vivo reclamando de filmes que sabem começar com algo magnífico, que faz as pupilas dilatarem, cujo fim é horrível e não passa nada do que o filme deveria. Esse filme conseguiu a proeza de fazer o contrário. O início, o clímax e, bem, todo o filme com a exceção dos últimos 4 minutos foram totalmente descartáveis. Mas o fim foi grandioso. E só uma pergunta surge na minha cabeça, e é COMO?
Em 1969, na cidade de Vallejo, um assassino aparece em pleno Natal e mata duas vítimas. Algum tempo depois, ele se torna um serial killer conhecido como Zodíaco na pequena cidade de Vallejo. Um policial, Matt Parish (Justin Chambers) assume o caso e faz de tudo para poder controlar a série de assassinatos, para que ele possa ver sua vizinhança sossegada de novo, nem que para isso o criminoso se torne uma obsessão. Baseado em fatos reais.
O roteiro é péssimo. Com uma história baseada em fatos reais, era mais fácil criar algo baseado em cima disso, e se fosse criado corretamente, o Zodíaco estaria perto de assassinos renomados no meu conceito, pois gosto da forma como ele se apresenta. Mas segundo o filme o retratou, um assassino que matou 37 pessoas mas com um ar tão falso, ele não chega perto de Charles Manson, que com o assassinato de menos de 10 pessoas virou um símbolo do serial killer. E eu continuo me perguntando: COMO? Além disso, o roteiro poderia ser muito mais aproveitado. Ele deixou várias coisas ainda para serem resolvidas e que poderiam ter deixado o filme ruim de 1h30 num filme bom de 2h40.
A atuação deixa muito a desejar, a fotografia não tem nada que a faça mais especial do que em qualquer outro filme, o modo de filmagem é completamente normal, algumas cenas surgem sem nenhuma explicação e outras desaparecem do mesmo modo e se houve alguma trilha sonora, eu realmente não prestei atenção. A arte dos pôsteres promovem algo completamente diferente. As coisas que podem ser salvas nesse filme são a maquiagem, que é boa em todo o filme de suspense, o fim, que é magnífico, e talvez o figurino, nada de anormal nele.
Se utilizado de forma diferente, O Zodíaco poderia ser uma superprodução, e embora isso possa irritar as orelhas mais alternativas, seria bem melhor do que o filme que eu vi hoje a tarde. Com uma história dessas de serial killer, um filme no mínimo mediano poderia ser feito. Mas n'O Zodíaco tudo age, respira, conversa tão falsamente que eu me esqueci completamente que a história foi verdadeira.
NOTA: 2

10 de abril de 2010

Chico Xavier (2010)

Um filme de Daniel Filho com Giovanna Antonelli, Tony Ramos e Christiane Torloni.

Muitos falam que a indústria de filmes do Brasil é um lixo. E eu até concordo com a maioria dessas pessoas. Agora, generalizar é um pecado. Sempre. Filmes como Grilo Feliz, Se Eu Fosse Você, Xuxa, Didi, A Mulher Invisível, em geral os filmes brasileiros que mais recebem propaganda são bem ruins, embora engraçados em algumas partes. Outros, como Divã, tem sua história bem ruim, mas a atuação salva. Agora para os filmes brasileiros incríveis. Acho que poucos filmes internacionais conseguem superar Cidade De Deus, que foi reconhecido pela IMDb o terceiro melhor filme da década. Além do que, Central do Brasil foi o filme que mais me fez chorar. Chico Xavier, embora não tão clássico como esses dois e mais alguns, é um bom filme, que prova que a indústria cinematográfica brasileira não é um lixo.
O filme conta a história do médium fundador do espiritismo no Brasil, Chico Xavier, que psicografou através de sua mediunidade com os espíritos dos que já foram e consolou milhões de pessoas desamparadas por perdas, pessoas essas que viraram alguns dos milhares de espíritas espalhados pelo mundo. Chico Xavier psicografou mais de 400 livros em toda a sua vida, e morreu no final de 2002. A história do filme se desenrola enquanto ele faz um programa de televisão, que ocorreu na vida real, e nessa entrevista esquetes da sua infância vão passando e explicando sua mediunidade.
O filme peca assim como muitos filmes brasileiros: enquanto eles se mergulham profundamente no drama, a comédia tenta fazer eles emergirem sem sucesso. OK, sei que a parte do avião realmente ocorreu, segundo o próprio Chico Xavier na entrevista verídica. Mas em muitas outras partes o filme pende para a comédia ao invés do drama. A atuação desse filme teve seus altos e baixos. Dos personagens de Chico Xavier, o único que me convenceu foi o garoto. De resto, devo parabenizar a ótima Letícia Sabatella, que embora com uma participação minúscula teve uma das melhores atuações do filme. Também entram na lista o grande Tony Ramos e a magnífica Christiane Torloni, atores que já tem bastante experiência, o que não fez uma grande surpresa.
A história é verídica, porém acho que puxaram muito para a crença espírita. Eu não sou espírita, mas é a religião com que eu mais simpatizo. Mas Chico Xavier puxa demais para o lado da religião, dos espíritos andaram, escreverem e falarem com médiuns. Toda vez que o médium era acusado de farsa, um espírito vinha e o ajudava. OK, e se os espíritos não existirem e Chico Xavier for um grande charlatão? O filme só deixa uma alternativa, quem não cair nela que pode pensar nessa outra. A fotografia foi excelente, nunca vi um filme brasileiro com uma fotografia tão bonita. Minto, já vi. Mas fica entre o top 10. O figurino também, ótimo. Desde as anáguas de Letícia Sabatella até a peruca de Nelson Xavier. Os diálogos são, igual ao filme, bem puxados para o lado da religião.
Tudo pode estragar um filme. Seja a comédia puxada de um filme dramático, seja a religião puxada de um filme de reflexão, seja o filme cuspir algo na cara do espectador e não dar nada mais para ele acreditar. Chico Xavier foi um dos maiores brasileiros de todos os tempos, e merece ser ovacionado de pé. Pena que seu filme não honre sua memória com a mesma glória que ele merece.
NOTA: 6

22 de março de 2010

Quase Deuses (2004)


Um filme de Joseph Sargent com Alan Rickman e Mos Def.

Antes de eu ver esse filme que minha mãe recomendou, eu comecei a embromar, dizendo que não deveria ser algo bom, e que eu não consigo suportar esses documentários. Caramba, como eu odeio minha mentalidade sobre o desconhecido. Esse é um dos filmes mais bem trabalhados que eu já vi, o filme inteiro não teve erro algum e os assuntos que faziam o filme foram perfeitamente abordados. Se a atuação não estava boa, nem notei, pois o brilhantismo do filme não me deu olhos pra mais nada.
O filme, que é baseado em fatos reais, volta para a década de 30 nos Estados Unidos, uma década caótica que mostra o caos após a grande crise de 29. Nesse cenário, na cidade de Nashville, um homem negro após ser demitido do seu trabalho como marceneiro arranja um emprego com faxineiro de médico. O homem, Vivien Thomas (Mos Def) se mostra um grande aluno na arte da medicina, além de entender tudo que o médico Alfred Blalock (Alan Rickman) o ensina. 12 anos depois, depois deles se mudarem de Nashville, eles começam a estudar o caso da Tetralogia de Fallot, ou a Doença Do Bebê Azul, uma doença que vinha dizimando recéns nascidos da época, já que o coração era uma área sagrada e desconhecida. Juntos, os dois começam uma bela história para resolver o caso do bebê azul e a luta contra o preconceito.
O roteiro é ótimo. Como eu falei, uma das histórias mais bem trabalhadas que eu já vi. Além do que, a realidade do filme é impressionante. Eu acho que Joseph Sargent merece palmas por tratar o preconceito assim. Tratar o preconceito nos dias de hoje, onde a falsidade beira as emoções para o preconceito não sair, isso é até fácil. Agora trabalhar o preconceito em uma época onde os negros eram empregados ou faxineiros, numa época onde os negros tinham que sair da calçada para os brancos passarem, numa época onde os banheiros eram distintos, ah, isso é algo que merece ser visto. Além do mais, conta a história da medicina, que eu achei fascinante. Pena o preconceito grita mais alto do que o reconhecimento da inteligência em algumas pessoas.
Atuação, tenho que parabenizar Alan Rickman, que não perdeu o personagem e o orgulho em momento algum do filme. Mos Def também teve seus momentos de brilhantismo durante o filme, achei genial. A mulher dele, Clara, também se destacou em algumas partes, sem perder o mesmo orgulho que Alan Rickman teve. O figurino ficou excelente, exatamente aquela imagem estereotipada que temos das pessoas de antigamente. A fotografia não se destacou bastante, a maquiagem também não muito.
O que mais merece ser visto no filme é a história que ele carrega. Trabalharam tão bem assuntos de antigamente que continuam atuais de uma forma tão boa que apagou os possíveis erros do filme, que se existirem passaram imperceptíveis. E que ninguém cometa a minha imagem preconceituosa antes de ver esse filme, que tem bastante para falar sobre o preconceito.
NOTA: 10