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2 de fevereiro de 2012

O Artista (2011)

Um filme de Michel Hazanavicius com Jean Dujardin e Bérénice Bejo.

É simplesmente difícil imaginar a reação de um público atual indo assistir a uma fita nos primórdios do cinema. Há quem ame apenas pensar em ter a oportunidade de ver um trem em preto e branco indo em direção a uma plateia em 28 de Dezembro de 1895, numa apresentação dos Irmãos Lumière. Outros não conseguem pensar em nada mais maçante do que observar por 100 minutos um filme sem falas e em preto e branco. É por isso que é difícil sair de toda a atmosfera de dramas, comédias, romances e horrores atuais que a evolução da sétima arte proporcionou para ir assistir um filme mudo e em preto e branco. Apenas numa comparação simples, o mundo prefere ver toda a magia dos efeitos especiais em Avatar a passar um final de semana resgatando filmes de George Mèlies e Charles Chaplin. E é exatamente por isso que é bastante difícil imaginar a reação do público vendo O Artista, uma comédia nada convencional que está dando o que falar em diversas premiações. Há quem ame essa obra de Michel Hazanavicius, mas há pouco tempo um público na Inglaterra exigiu o dinheiro de volta após ver que o filme exibido era mudo e em preto e branco.

Voltamos ao tempo, estamos em Hollywood, mas o ano é 1927. O cinema mudo está em alta e o maior astro é George Valentin (Jean Dujardin). Na inauguração de um filme ele acaba conhecendo uma fã por engano, cujo sonho é ser uma estrela de cinema. Batalhando por seu sonho, essa fã - de nome Peppy Miller (Bérénice Bejo) - acaba ascendendo no ramo cinematográfico e mantém sua amizade com seu ídolo. Porém chega a crise de 1929 e o cinema acaba se reinventando aos poucos até ele começar a ter falas. Valentin, ao se recusar a fazer filmes falados, tem de achar um jeito de continuar sendo um ator mudo e ganhar dinheiro. Ao mesmo tempo, a fama de Peppy cresce a cada dia. E, assim como o sucesso dessa nova estrela, cresce o brilhantismo de O Artista a cada minuto de sessão, seja por todos os aspectos técnicos, seja pela ideia original de criar (melhor dizendo, recriar) todo um passado. Atores se apresentando após a inauguração de suas sessões, uma banda tocando a trilha sonora ao vivo para o público. Toda a ambientação dos anos 20 está magnífica. A fotografia preta e branca de Guillaume Schiffman combinada com o roteiro, a direção e a edição maravilhosa de Hazanavicius são fatores essenciais para o espectador retroceder 80 anos e se ver num clássico cinema mudo.

São duas realidades se contrastando aqui. De um lado temos o charmoso Jean Dujardin, numa atuação inspiradíssima. Seu desespero em ver todo o seu trabalho se tornando obsoleto é transferido ao público da mesma forma que um simples sorriso do ator contagia toda a plateia. O fim de sua carreira é o marco do fim do cinema mudo. Por outro lado, temos a realidade de Peppy Miller, interpretada com todo o carisma e bom-humor da bela Bérénice Bejo. A estreia dela, junto com sua ascensão, marcam o início do cinema falado. O que realmente acontece é a mesma ideia do romance principal entre os dois: não é que o par é contrastante, mas ele se completa. O que seria do cinema falado se não houvesse um cinema mudo anteriormente? Do mesmo modo que nos perguntamos, como estaria a vida de Peppy Miller se George Valentin não tivesse apontado o talento da moça? Além de um elenco brilhante com nomes como John Goodman, Missi Pyle, Penelope Ann Miller e James Cromwell, outro nome que brilha n'O Artista é Uggie, que nada mais é que Jack, o cachorro de George Valentin. E tem de se dar o braço a torcer, ele rouba a cena com tanto brilhantismo, é o cachorro perfeito para um galã como Valentin.

Antes de tudo, eu vejo O Artista como uma grande homenagem que satiriza e se rende aos encantos do cinema mudo. Quem não vê naquele roteiro brilhante toda a situação do clássico Dançando na Chuva? E em cada expressão de Jean Dujardin e Bérénice Bejo não há um Orson Welles, um Gene Kelly, um Charles Chaplin, uma Mary Pickford, uma Olive Thomas? O novo filme de Michel Hazanavicius bebe da fonte da juventude da sétima arte e a modela para agradar ao público contemporâneo. O drama e o humor acabam se juntando igual ao cinema mudo e ao cinema falado, as duas partes de uma única peça. Para completar, só falta lembrar da trilha sonora - excepcional e minha favorita ao Oscar - de Ludovic Bource. Como qualquer outra coisa do longa-metragem, ela tem que lembrar o passado, ecoando cada timbre já conhecido em filmes de Hitchcock, Fritz Lang ou Billy Wilder. Cada nota define uma cena, cada nota define uma emoção, e a trilha junto à atuação faz o filme ficar completo. A ausência de falas é mero detalhe. No fim você pode perguntar pra qualquer um o que acharam de O Artista. As falas podem ter sido diferentes na cabeça de cada um, mas o resultado final é arrepiante. Não há palavras para descrever a total experiência.

NOTA: 9

20 de novembro de 2011

Toda Forma de Amor (2011)

Um filme de Mike Mills com Ewan McGregor, Mélanie Laurent e Christopher Plummer.

Uma vida triste, com traumas infantis, com uma descoberta no mínimo chocante, com a perda de um ente querido. Todas essas emoções extremistas mergulham o desenhista Oliver (Ewan McGregor) num furacão sentimental que o carregam a um mar de depressão. A própria tristeza o afeta de forma latente e acaba interferindo em seu trabalho e em sua vida pessoal. Numa viagem constante ao extremismo emocional, seus amigos acabam levando-o a uma festa que muda sua vida: lá ele conhece a atriz Anna (Mélanie Laurent), uma moça impulsiva, engraçada e feliz que faz o triste coração bater mais rápido. Ao passar os dias com ela numa frequência cada vez mais longa, Oliver começa a lidar não só com o amor presente, mas com o amor passado mostrado numa relação carinhosa com o pai, Hal (Christopher Plummer), nos últimos dias antes da morte dele. E nos aproximados 105 minutos de sessão, nenhuma pergunta paira no ar, apenas a paixão representada na tela. Não necessariamente da forma mais doce ou da mais bonita ou da mais ardente mostrada num filme. Mas excessivamente a mais real.

Em meio a lições de vida constantes, somos apresentado de cara com a situação de Oliver. Após o fim do matrimônio, o pai de Oliver se assume gay com 75 anos para viver a vida livre que os anos de casamento heterossexual não o permitiram. Aos poucos Oliver acaba se aproximando mais desse pai verdadeiro, desse espírito livre que saiu de suas amarras moralistas para poder viver, e assim cria uma nova figura diferente do homem que estava ausente em sua infância. A proximidade de Oliver com Hal é bela, de uma fraternidade comovente. Em comparação, há o amor que ele sente por Anna. Vivendo na dúvida das suas emoções, Oliver acaba se entregando a essa paixão louca pela moça desconhecida e começa a jogar o jogo dela. E a relação de entrega e de diversão fica explícita na face dos dois personagens. Oliver é muito passional, e esse seu comprometimento ao pé da letra com as batidas de seu coração são as coisas que o estragam e o fazem feliz. O fazem feliz perto do amor, o estragam longe dele. Mas não é assim com todos, no fim das contas?

A melancolia é exposta pelo lado do protagonista, e é difícil sair da imagem que ele propõe ao espectador desde o início do filme, por mais que esteja cercado de amor e comprometimento. O comportamento e os olhares do triste Ewan McGregor - aqui, numa atuação boa e bastante crível - não permitem o público sair da zona depressiva e ir ao emocionalmente perfeito conto de amor que outros clichês da comédia romântica vendem. Para contrapor o personagem, temos mais duas atuações incríveis, uma de Mélanie Laurent, que sempre é uma boa surpresa; e de Christopher Plummer, que rouba a cena com seu carisma e bom-humor, na melhor atuação do longa. O longa, afinal, é baseado completamente na história de Mike Mills, cujo pai também saiu do armário aos 75, 5 anos antes de morrer. A direção então prefere closes mais intimistas com os personagens, com filmagens num escuro cuja fotografia se dá apenas por um pequeno foco de luz de abajur ou de raios do sol entrando timidamente num ambiente negro. Aliás, a fotografia do filme, feita por Kasper Tuxen, tem seu tom acinzentado que aproxima a sensação da realidade e da depressão. Mas, mesmo com as atuações belíssimas e a direção segura, o que transforma Toda Forma de Amor num verdadeiro filme completamente passional são os diálogos fáceis, mas profundos. O sentimento escapa das palavras, das bocas dos atores e atinge em cheio o público no momento certo, do modo certo.

Num dos diálogos do filme, Oliver pergunta ao pai porque se casou com a mãe dele sabendo que era gay. O pai disse que a mulher sabia de sua opção, mas que não importava, que queria se casar com ele do mesmo jeito. Não são poucos os romances com a mesma fórmula de Toda Forma de Amor. O que realmente o difere de qualquer outro conto amoroso é a riqueza dos detalhes, causando uma aproximação mais factual do público. A trilha sonora não é composta por canções alegres, mas por baladas depressivas. A direção foca em planos escuros e não convencionais, em não linearidade, em narrações em off, foca mais no que foi do que no já está sendo. O filme inteiro parece um flashback. O roteiro foca num protagonista que, por mais encantado que esteja, não está numa realidade fictícia do felizes para sempre. Toda Forma de Amor é algo tão tangível para o público que chega a ser fofo e delicioso, algo que o espectador que vê o filme de Mike Mills sente de verdade e não é obrigado a sentir devido às idealizações cinematográficas do romance clichê. Ver o filme vale a pena, vale o sentimento, vale o romance. Até porque, tudo é apenas a representação da vida.

NOTA: 7

20 de setembro de 2011

Amor A Toda Prova (2011)

Um filme de Glenn Ficarra e John Requa com Steve Carell, Julianne Moore, Ryan Gosling e Emma Stone.

É possível amar e é possível amar. Uma pessoa não ama do mesmo modo da outra, assim como não sente qualquer coisa do outro modo da outra. A comparação entre sentimentos é algo impossível pelo nível de importância que cada um tem numa moral formada por padrões mutáveis. Nessa batalha entre sentimentos homônimos, entram valores como o casamento, o namoro, o sexo. Sinceramente, parece clichê? E é. É uma guerra dos sexos, focando em relacionamentos desgastados, novos ou enterrados, mas que favorecem ao público a visão romântica da esperança que nunca acaba. Amor a Toda Prova é isso, e incrivelmente não soa como um déjà vu para a plateia.

"Em 3 vamos dizer juntos o que queremos, OK? 1, 2, 3: Crème Brûlée!" "Divórcio!". Cal Weaver (Steve Carell) é um quarentão que só manteve um relacionamento a sua vida inteira. É casado com a mulher que ama, tem ótimos filhos e um bom emprego. Mas, numa noite, ele acaba descobrindo que sua esposa, Emily Weaver (Julianne Moore) quer a dissolução do casamento e que o traiu. Desiludido, ele percebe que Emily era a mulher de sua vida e entra numa crise ao ver todos os seus anos se encerrando. Paralelamente acompanhamos a história de Jacob Palmer (Ryan Gosling), um jovem com estilo que consegue uma mulher diferente a cada noite. Quando Cal está em sua crise, Jacob decide ajudá-lo a seguir em frente com a arte de paquerar mulheres.

O principal do longa-metragem é a delineação realista que ele faz dos personagens. Primeiramente há o conflito principal que acaba gerando os secundários no longa: o divórcio de Emily e Cal. Cal ainda é o bobo apaixonado que vive no seu mundo pré-adolescente. Confortável na sua fantasia de amor ilusório, numa zona de conforto da paixão, ele não viu que seu casamento estava estagnado num nível de amor satisfatório para o marido, mas insatisfatório para a esposa. E aí entra a visão do homem de "onde foi que eu errei?". Vivendo as paixões que deixou paralisadas durante todos esses anos de fidelidade monogâmica, ele descobre que sua felicidade não está contida em levar uma mulher para casa toda noite e depois dispensá-la. A idade já passou, sua noção de felicidade foi-se embora junto com Emily, seus tênis surrados e sua carteira de velcro. Steve Carell faz um personagem parecido com qualquer outra coisa que já tenha feito em outras comédias, mas que mantém uma graça momentânea. De um modo ou de outro, ele completa as cenas em que aparece misturando realidade e comédia, rindo do próprio esteriótipo. Julianne Moore é uma atriz versátil, fica bem em qualquer personagem e aqui não foge à regra. Por menos que apareça, para dar vazão ao romantismo masculino, ela ainda é uma presença gratificante no elenco, que não sai do personagem em momento algum e se adapta à todas as situações da mulher indecisa.

Jacob Palmer é o outro lado da moeda. É um homem que nunca precisou se preocupar com um relacionamento estável e que vive a vida que Cal nunca teve. Se ele gosta dessa vida? Impossível dizer que não. Jacob respira sua arte pessoal de conquistar garotas, o que não é pra menos. Ele usa cada medida de seu charme por meio de roupas bonitas, um corpo malhado, um sorriso galanteador e uma promessa de uma noite inesquecível que qualquer mulher num raio de 2 quilômetros tem de sentir como é passar uma noite com ele. Mas ainda há aquela esperança do fundo: uma mulher fixa. Enquanto ele vive sua vida ininterrupta de alternância de companheiras, há um dilema em sua vida. Onde está a mulher dos seus sonhos, que acabará com o fogo do galã? Entra em cena Hannah, personagem de Emma Stone, a única mulher que parece não sofrer a influência de Jacob, que sonha com uma vida monogâmica com o namorado. Sem traições ou noites de aventura. O encontro de duas personalidades tão distintas estabelece um novo objetivo para Jacob que acaba entrando em conflito: quem vai ter de mudar para agradar o outro numa possível vida amorosa? Considero tanto Ryan Gosling quanto Emma Stone dois atores promissores. Ele já conseguiu me emocionar mais de uma vez em filmes como A Garota Ideal, Namorados Para Sempre ou Diário de uma Paixão. Ela me faz rir de uma maneira verdadeira e mostra um carisma e beleza tão grandes que sua presença é deliciosa.

Para completar os casais, temos uma paixão adolescente protagonizada por Robbie, interpretado pelo divertido Jonah Bobo, o filho de Emily e Cal. É uma criança de 13 anos que se vê amando sua babá de 17, a desengonçada Jessica Riley (Analeigh Tipton). E o que realmente leva a plateia aos risos é a força de persuasão e a insistência que o menino tem para conquistar aquela que ele diz ser sua alma gêmea. Como se diz a uma criança que ela não sabe o que é o amor se ela ainda não viveu o bastante para compará-lo com um sentimento de um adulto? Tudo é amor em Amor a Toda Prova. O amor para uma criança pode ser menos intenso do que para um adulto, mas não se nega que é amor. Que se negue outras coisas, mas não a beleza da afirmação de uma relação de entrega. Completando o elenco, temos Kevin Bacon fazendo um personagem que se apaga em cenas e fica escondido atrás de nomes como Moore ou até mesmo Carell. E há também Marisa Tomei, fazendo uma personagem tão caricata que, se não levasse o público às lágrimas de riso devido aos seus jargões, poderia comprometer o realismo do filme.

A dupla de diretores, que já tinha feito O Golpista do Ano, acerta no tom romântico, cômico e dramático colocado no peso de Amor a Toda Prova. Não é um filme necessariamente feliz o tempo inteiro, é um filme que prega por mostrar as relações como elas são, assim como muitas outras pérolas espalhadas atualmente. Mas talvez o elemento secreto do longa-metragem seja um elenco de peso, com interpretações dignas, um roteiro divertido e que não cai e que abusa dos clichês do gênero até se dizer chega. É uma interpretação diferente de comédia romântica para comédia romântica, do mesmo modo que o amor de um muda para o amor de outro. É um filme bom e divertido à seu modo.

NOTA: 8

9 de agosto de 2011

A Última Noite (2010)

Um filme de Massy Tadjedin com Sam Worthington, Keira Knightley, Eva Mendes e Guillaume Canet.

A construção de uma vida íntima compartilhada deve ser dada por pessoas que partilham a reciprocidade sentimental, ou é inevitável discussões e uma quebra de relações. Nesse jogo de sentimentos, deve-se saber bem o que se passa pois apenas um sentimento a menos já compromete anos de relacionamento. Com a igualdade, até o ciúme sobrevive e se torna saudável em meio a um ninho de amor provindo de ambos os lados. Mas e quando os dois não sentem a mesma coisa? E quando a partilha vem mais de uma parte do que de outra? O comum nesse caso é o adultério, assunto já banalizado há tempos. Quando a sociedade se esquece que a traição é um corrompimento do amor e não causa mais espanto algum atualmente, onde iremos parar?

Conhecemos Joanna (Keira Knightley) e Michael Reed (Sam Worthington) são casados há 4 anos. Os dois se conheceram na faculdade e estão juntos desde então. Numa noite, Joanna começa a sentir ciúmes de Michael  pela relação do marido com Laura (Eva Mendes), uma colega de trabalho, e isso leva a uma discussão. No dia seguinte, Michael viaja com Laura e outro colega para Filadélfia, deixando Joanna desolada em Manhattan. Porém, quando ela sai, ela encontra Alex Mann (Guillaume Canet), um amigo antigo dela que, aos poucos, reacende uma paixão escondida de Joanna.

O principal trabalho do filme se dá na forma da traição. Afinal, ambos os tipos são péssimos para um casal ou um pesa mais do que o outro? Michael não resiste a beleza de Laura, no fim das contas. Realmente, há uma atração pela personagem de Eva Mendes, mas nada mais que isso. Não há emoção, não há amor, não há sentimento, há o prazer carnal. Há a forma que ele encontrou para utilizar o excesso de sua libido, que foi reprimida após as discussões de interesses com sua mulher. Mas o fato é que ele ama Joanna. Michael ama Joanna, mas apenas um pulo da cerca vai fazer um mal? O problema é sua consciência gritando pelo ato errôneo que consumou. O desejo de apenas uma noite começa a lutar com a paixão de toda a sua vida, eclipsada por um instante de loucura e distância. Compreensível? Sam Worthington possui a atuação mais fraca do filme e isso fica claro em sua inexpressão, que deixa difícil decidir o que ele vai fazer na próxima cena. Por um lado é bom, já que o filme fica imprevisível em suas cenas de dúvida. Por outro lado é péssimo, já que ele alonga o distanciamento entre o público e o seu personagem num filme feito para as pessoas sentirem. Eva Mendes rouba as cenas dele com mais expressão e consegue convencer com sua sensualidade ao lado de Worthington, mas qualquer química entre os dois ainda parece forçada, por mais que o relacionamento evolua nos 90 minutos de sessão.

A traição do sexo é o banal de hoje em dia, algo que é considerado normal para quem vê e pecaminoso para quem sofre. Apenas a simples imagem de um marido dividindo a intimidade do leito com uma intrusa é assustadora o suficiente para um divórcio racional. Mas será que o pior é amar alguém e viver uma noite de aventura? Ou será amar o intruso do matrimônio, e viver uma vida de infelicidade? Aí está o papel de Keira Knightley. Joanna ama Michael, e isso ela deixa claro em sua noite. Mas, comparado com o amor que ela nutre por Alex, sua paixão de Michael é pequena. Por mais que um ato sexual não seja mostrado entre os dois por respeito ao casamento de Joanna, o quão melhor é trair emocionalmente? Aqui há uma química latente, porque não há a necessidade da paixão vulgar, de viver uma noite apenas com uma transa. O viver aqui é amar, com ou sem roupas, apenas pela proximidade. A presença é o suficiente para o amor de Alex e Joanna viver e sair das telas. Aqui, diferentemente de Michael e Laura, o silêncio diz mais para o público do que os diálogos. Keira Knightley mostra como é uma grande atriz e cria sua personagem com delicadeza e suavidade, sem se apressar em mostrar toda a sua mente ao público. Ao mesmo tempo, Guillaume Canet cria o cavalheiro da noite, que não precisa da sexualidade para consumar seu amor de longos anos.

A beleza das cenas ajuda na construção do filme, assim como o histórico das personagens. Em A Última Noite, diferentemente de outros filmes que utilizam flashbacks ou memórias para explicar o que ocorre na tela, os personagens nos são dados em apenas uma noite e tudo depende do ator para mostrar o caminho que eles vão seguir, para que o público possa decifrar o psicológico e os desejos de cada um. O que dá certo com a personagem principal de Knightley e com o coadjuvante de Canet, assume um tom de insegurança para Worthington, o que acabou ajudando-o a compor a característica principal de seu personagem. Apenas em Eva Mendes o trabalho misto entre emocional e físico não dá certo, já que a atriz tem de revelar suas mazelas para que o espectador possa entender sua motivação. Enquanto os personagens entram em seus altos e baixos a cada corte e acabam chegando ao clímax em um mesmo ponto, os aspectos técnicos permanecem belos e intocáveis. A simples fotografia azulada e clara de Peter Deming e a trilha sonora indefectível de Clint Mansell aumentam o tom romântico do filme, e até os elementos de cena estão perfeitamente enquadrados aqui para deixá-lo visualmente belo. Mas também deve-se falar do roteiro e da direção da estreiante Massy Tadjedin, que estão primorosos e certeiros.

Simples, bonito e cheio de subjetividade é A Última Noite, um filme que fala do amor na traição, do amor a duas pessoas e do cultivo dele de diferentes formas. A vida de Joanna e Michael é ilustrada em apenas um noite e mostra, de forma clara e rápida, como os dois usam seus sentimentos para com o outro. Por mais que tenha uma certa diferença na profundidade das cenas com os diferentes casais, o final consegue unir todas as pontas. A indecisão é o grande tema aqui, a indecisão amorosa que leva a atos impulsivos e consequências pesadas. E quando observamos Keira Knightley ali, parada, sem saber se corresponde a um sentimento que ela não possui, é que nos damos conta que esse filme não é apenas um filme. Ele não veio para contar uma história grandiosa que ocorreu na vida de alguém. Ele veio mostrar um momento de indecisão, terminou num momento de indecisão e continuará, infinitamente, num momento de indecisão. Afinal, essa é a vida.

NOTA: 7

31 de julho de 2011

Morro dos Ventos Uivantes (1992)

Um filme de Peter Kosminsky com Ralph Fiennes e Juliette Binoche.

Há um ponto limite para os conflitos de um indivíduo, um ponto onde ele não consegue mais aguentar seus transtornos emocionais e morais se chocando a cada ato. Esse ponto é, literalmente, o inferno, um local doloroso onde o físico e o mental se unem para atordoar uma mente. Como aguentar a dor da paixão lícita? Como aguentar a perda do amor proibido? Como aguentar ambos? O romance dramático de Emily Brontë é um ensaio para todas as dores, que se contrapõem desde a intuição inconsciente humana até a moral externa ao indivíduo. E é nessa atmosfera constante de erros morais que Peter Kosminsky cria sua adaptação à esse clássico que exala razão e sensibilidade por trás de atos.
Na Inglaterra do século XVIII há uma propriedade no Morro dos Ventos Uivantes pertencente à família Earnshaw. O patriarca da família (John Woodvine), um dia, traz um garoto cigano que andava sem rumo pelas ruas e diz que o adotou, dando-lhe o nome de Heathcliff (Ralph Fiennes). Aos poucos ele começa a se sentir mais parte da família, por mais que o filho mais velho, Hindley Earnshaw (Jeremy Northam), nutra um ódio provindo de uma profunda inveja pelo menino adotado. Paralelamente, sua ligação com a filha mais moça, Catherine Earnshaw (Juliette Binoche), se torna cada vez mais latente. Quando o pai morre, Hindley assume a propriedade e coloca Heathcliff em seu devido lugar, o que lhe dificulta sua história amorosa com Catherine.
Entre a diferença de classes e a mazela das origens, o amor de Catherine com Heathcliff é uma coisa improvável para os padrões da sociedade britânica da época. Não se pode esquecer que não havia tanto liberdade na época do livro de Emily Brontë quanto atualmente. Heathcliff é a prova disso, do preconceito e da amargura consequente. Ralph Fiennes interpreta com uma força intensa seu personagem, lutando a cada hora por Catherine como se ela fosse sua própria vida. Mas, o amor dele é tão intenso que ele é incapaz de não sentir ciúmes, inveja, de não tratar Catherine como uma posse. Talvez isso se explique por sua origem cigana, e a entrada nesse mundo novo e idealizado do Morro dos Ventos Uivantes é a entrada para sentimentos novos em sua vida. O toque de um garoto que não teve nada com uma ponta do luxo da aristocracia é o bastante para se viver em sonhos. A volta ao preconceito de antes é o bastante para ele começar a sentir coisas novas por Catherine. Aquela menina que tanto lhe proporcionou e recebeu amor agora se volta contra ele, como isso se explica? A saída de Catherine de sua casta inocência para uma idade onde começa a frequentar a sociedade não modificou apenas suas ações, modificou o espírito inteiro de Heathcliff. A perturbação na alma deste provém de modificações daquela, os dois estão ligados de uma forma maior que a física. Por mais que um abismo de normas os separe, nunca se pode pensar em Catherine e em Heathcliff como almas distintas - são a mesma pessoa no fim das contas, um manipulando o outro para o bem ou para o mal, mas nunca satisfeitos no fim das contas. No fim das contas, Heathcliff se tornou não um carrasco, mas uma vítima. Mais perigoso do que um homem amargurado é um homem apaixonado.
Em contraponto a essa obsessão amorosa de Heathcliff, há Catherine, interpretada pela sempre ótima Juliette Binoche. Os olhares da menina provocante, as risadas despreocupadas da garota rica, o modo como ela trata Heathcliff num momento como se ele fosse uma diversão temporária e no outro como se ele fosse uma substância necessária para a própria vida, Binoche consegue adaptar tudo a sua personagem. Os dois, que contracenariam juntos mais tarde no ganhador do Oscar O Paciente Inglês, possuem afinidades em suas cenas. Com a relação dos dois, aos poucos fica improvável pensar no personagem de Fiennes sem Binoche e em Binoche sem Fiennes. Um necessita do outro, e só não necessitam quando tentam provar o errado para si mesmos. É um conflito interno infinito. Ou eles se separam e vivem num inferno da alma, ou eles se juntam e são abominados pelas regras da sociedade inglesa. Na difícil situação, ainda há espaço para Catherine mostrar ao espectador sua personalidade. Como herdeira de uma rica propriedade, ela viveu despreocupada até o momento que teve de fazer sua escolha difícil: ela pode levar em frente sua paixão ardente e se juntar a Heathcliff, com a desaprovação de todos os meios sociais que frequenta. Ou ela pode abandonar seu sentimento e levar adiante uma existência frívola movida pela união de bens e de um nome de peso. O que ela não contava com sua decisão é que, assim como Heathcliff, ela não pode viver sem sua alma gêmea. Sua vida só retorna quando ela vê um sinal de Heathcliff novamente em sua vida; e sua vida só acaba novamente quando ela vê que é impossível manter sua relação com o amante. A partir dessa mudança, é previsível o trágico destino da errante Catherine, uma mulher que não pôde lutar contra seus sentimentos mais fortes e se entregou, à contragosto, a uma paixão suicida.
Aos poucos, a paixão corrompe tanto a vida dessas almas que cada movimento de Heathcliff é direcionado somente à Catherine, e vice-versa. Mas como escolher entre dois destinos fatídicos, a morte e o sofrimento? Catherine teve suas razões para escolher sofrer, do mesmo modo que Heathcliff obteve o que era necessário para sentir o sofrimento da amada. O que houve foi exatamente o inverso. Enquanto Heathcliff sentia mais e mais a dor de Catherine, ele a amava mais. E, consequentemente, o odiava mais por infligir angústia à Catherine. Para representar essa paixão intensa e mórbida, nada melhor do que o cenário escolhido para ser o Morro dos Ventos Uivantes. Com uma fotografia clara iluminando cenários vazios até o limite de horizonte entre pedras, árvores e morros, o cenário possui um excesso de beleza natural para se contrapor à crueldade de um romance. O amor de Catherine e Heathcliff conta com uma pequena diferenciação da literatura, mas nada que possa comprometer o ritmo do filme. Falando nesse, as coisas acontecem realmente rápido demais. Isso pode dificultar um pouco em vivenciar o sentimento do casal principal, mas é só olhar na face de ambos: eles realmente se amam de um modo único. Eles se completam. Por mais que a vivência seja mais tocante, Morro dos Ventos Uivantes prega pela visão do romance. Um outro acerto da trama é a narrativa, que primeiramente mostra o futuro para depois retomar a história do princípio. Ela ativa a curiosidade do público em mexer com o sobrenatural e depois dar uma explicação para a história. Enquanto a narrativa conta seu romance, a trilha sonora de Ryuichi Sakamoto entra em cena como ponto de ebulição do drama. Deixa o nervosismo mais nervoso e a dor de Catherine mais real.
Desde o começo somos avisados que estamos prestes a visualizar uma obra dolorosa, que qualquer sinal de riso não deve ser levado à sério. O que se promete, se concretiza. Morro dos Ventos Uivantes não possui a certeza de um final feliz, mas há um romance em seu roteiro, um romance comprovado pelo verdadeiro significado de almas gêmeas. Catherine e Heathcliff estavam ligados pelo destino desde o começo. A vida de um só começou com a do outro, e a vida de um terminou com a do outro. Uma paixão que transpassou as barreiras metafísicas e que mostra a beleza até na maldade emocional. Uma pena que se restrinja a apenas um sentido e não tenha transpassado outras barreiras para marcar o público que o assiste.
NOTA: 8

25 de julho de 2011

De Repente, Califórnia (2007)

Um filme de Jonah Markowitz com Trevor Wright e Brad Rowe.

São muitos os filmes que ressaltam e trazem para reflexão uma mensagem de autoaceitação, do mesmo modo que o tema não se esgota com o tempo já que as situações são diversas. Para isso, cria-se um filme sobre patologias, mutantes ou de aparência. Paralela a essas situações, há outra diversidade que é jogada em tela: a sexual. O cinema acaba atingindo o público LGBT com mais facilidade com uma abordagem mais ampla e voltada não só a romances entre homens e mulheres. Os indicados ao Oscar, Meninos Não Choram e O Segredo de Brokeback Mountain são exemplos de uma história de amor bem-contada que cativa todos os públicos. Mas juntando as duas mensagens, autoaceitação e amor homossexual, temos De Repente, Califórnia, um filme que não se esforça em fugir dos clichês amorosos, mas se difere por contornar um tabu com naturalidade.
Zach (Trevor Wright) é um jovem que trabalha como cozinheiro em uma lanchonete. Seu maior sonho é cursar uma escola de artes, a qual foi obrigado a desistir para tomar conta do sobrinho Cody (Jackson Wurth) enquanto sua irmã Jeanne (Tina Holmes) sai com as amigas e com o namorado. Em seu tempo livro, Zach anda de skate e surfa com seu melhor amigo Gabe (Ross Thomas) e mantém um relacionamento instável com Tori (Katie Walder). Toda a vida do menino muda quando o irmão mais velho de Gabe, Shaun (Brad Rowe), volta para casa. A partir daí, nasce um sentimento maior que amizade entre os dois.
Há dois trunfos totais no filme. O primeiro deles é um relato intenso, resultado de vários fatores que auxiliaram em todo o ambiente para florescer a veracidade da paixão. O cenário, que alterna entre cenas praianas e o subúrbio, mantém uma diferença que é bem acentuada em cada tomada. A fotografia de Joseph White é composta por tons bastante claros, o que interfere em algumas cenas filmadas à noite, principalmente, mas ainda assim consegue trazer às situações do longa-metragem uma suavidade emocional, que combina com o ritmo detalhista das experiências do protagonista. As atuações beiram o bom e nenhuma se destaca das demais, o importante aqui é o caráter dos personagens. Cada personalidade complementa o que falta à outra nas cenas, e é trabalhando com essas pessoas incompletas que o filme mostra sua história de união. É uma graça ver o sobrecarregado e extremamente preocupado Trevor Wright se unir ao descontraído e divertido Brad Rowe. Ambos se completam, e aí o filme ganha. A química entre esse casal é inegável, e a forma com que ambos exploram os lados da paixão - cada um em sua cena mostrando um sorrisinho, um gesto que diferencie um estado passional e um estado normal - é ótima. Todas as nuances foram bem acrescentadas à trama, que as acolheu de uma boa forma.
O personagem principal fica claro nos primeiros minutos: é uma história sobre Zach. Aos poucos o espectador se encontra a par de todos os seus obstáculos na vida. Primeiramente, ele serve de apoio para a irmã ultrarrealista, que praticamente acaba com a vida do irmão para poder embarcar em seus próprios sonhos. É a destruição da vida dele para ela poder ter uma chance. Além de servir como suporte para Jeanne, ele ainda é uma figura paterna para Cody, que nunca conseguiu criar laços familiares mais fortes com o pai ausente. O tio acaba sendo um substituto, pela maneira amorosa que acolhe o sobrinho como se ele realmente fosse seu filho. Por mais que esse relacionamento seja subentendido pelo roteiro, que caiu no pecado do lugar-comum, outras interações entre os personagens acabam parecendo superficiais demais no meio de uma história cheia de detalhes sobre surf. Um exemplo disso é a relação entre Zach e Tori. O olhar de um não passa amor para o outro, e nada confirma uma relação entre ambos se não fosse a frieza dos cumprimentos.
A maior relação dos personagens é a muitíssimo bem explorada de Zach e Shaun, que traz outra barreira para a confirmação da paixão recíproca. Por mais que Shaun seja convicto de sua opção sexual, Zach até então se acreditava hétero. Ele até tinha um relacionamento com Tori, o que deveria confirmar sua sexualidade. A dúvida é o outro triunfo de De Repente, Califórnia, e Trevor Wright envolve isso em cada passo diário de seu personagem. Estar com Shaun é o que lhe faz sorrir em seu defeituoso ambiente familiar e  em seu trabalho medíocre, mas ainda assim ele não está certo de que é isso que quer para a vida. Ainda mais com Jeanne, que além de não deixá-lo viver sem estar ligado com os problemas pessoais dela, ainda explicita sua homofobia. Mas como Zach pode buscar aceitação se nem ele se aceita? Quando ele vê sua relação com Shaun do lado de fora, ele se renega. Para o Zach que a família quer que ele seja, ele deve continuar num relacionamento conturbado, longe de seus sonhos e completamente infeliz. Para o verdadeiro Zach, ele apenas que cursar a escola de artes e achar sua felicidade pessoal. E como se desiste tão fácil de uma felicidade que ele possui ao lado de Shaun apenas para ser a idealização alheia? Aos poucos, o homossexualismo floresce na mente de Zach, e o diretor estreiante acerta em mostrar, calmamente, a longa caminhada de compreensão e aceitação.
Um filme belo, feito para o público sentir a chama da paixão. Para Shaun, Zach é a inspiração de seus livros inacabados, o amor que ele finalmente encontrou depois de anos à procura. Para Zach, Shaun é a autoestima e o equilíbrio que lhe faltavam para ele iniciar uma vida sem ser dependente de ninguém. De alguma forma, essa história se tornou latente em meio ao cenário clichê de romances. De Repente, Califórnia não foi feito para ser um marco, mas um pequeno relato do amor verdadeiro que se passa em cada local, adaptando a isso numa realidade que, ainda hoje, sofre com o preconceito diariamente.
NOTA: 7

26 de junho de 2011

Match Point (2005)

Um filme de Woody Allen com Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson e Emily Mortimer.

Movimento. Luzes. Olhares. Ações. Cores. Tudo isso entra numa sincronia tão perfeita tanto na vida real quanto no universo de ficções cinematográficas românticas que a presença da sorte se torna obrigatória. A sorte de um momento, a sorte de um encontro, a sorte de um choque, a sorte de um romance. Há tantas possibilidades em cada segundo que não se pode restringí-las unicamente como necessariedade. O devir de Heráclito é o que move os instantes e a incerteza do ser e do estar. É o movimento do tempo, é a surpresa da vida. E Woody Allen, talvez por começar a respirar novos ares em Londres, aprendeu isso da melhor maneira. É através de uma analogia entre a sorte, entre um momento, entre um romance, entre a burguesia inglesa e entre a obra prima de Dostoiévski que ele cria Match Point e volta a ser tão interessante quanto o Allen de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
Chris Wilcott (Jonathan Rhys Meyers) é um jovem irlandês ambicioso de classe média, que teve de se esforçar para conseguir vir morar em Londres. Na capital inglesa, ele começa a trabalhar como um instrutor de tênis e acaba por começar uma amizade com um aluno, Tom Hewett (Matthew Goode). Depois de conversas descontraídas, drinques e convites à ópera, Tom leva Chris para conhecer sua família. Nesse encontro, Chris se apaixona pela irmã de Tom, Chloe Hewett (Emily Mortimer). Quando o relacionamento dos dois se torna mais concreto e as visitas mais constantes, o instrutor de tênis vê sua carreira ser alavancada pelo envolvimento com uma família de tamanho prestígio. Mas, ao mesmo tempo, ele se encontra apaixonado por Nola (Scarlett Johansson), a noiva de Tom.
O romance se encontra em toda a atmosfera. Impregna o ambiente. A preferência por um triângulo amoroso se encontra viva nas obras de Allen, o jogo de amores, traições e paixões. Em seu novo longa, Meia-Noite em Paris, há o argumento de que, com certeza, pode-se amar duas pessoas, mas de maneiras diferentes. Não é diferente nesse filme. Mas aqui as paixões não são paixões, exatamente porque elas possuem nome, e eles são a ambição e a sedução. Chris é o homem que não consegue se apaixonar em cena. Todas as palavras e os carinhos dirigidos suavemente à Chloe beiram o superficial, tentam enterrar um sentimento de paixão para integrar um de respeito. Mas o outro lado não procura respeito, procura o desejo, o toque, o amor que não consegue ser recíproco. Se Chris acha em Chloe uma parceira para a vida ou uma escada para o sucesso, isso está nas interpretações de cada um. Mas ele nunca a amou, ou nunca teria criado tamanho distanciamento. Nola interpreta a luxúria em cena. A fotografia favorece a personagem de Scarlett Johansson em seus movimentos repletos de um sex appeal fortíssimo. Ela consegue roubar a cena por ser uma personagem de beleza incomparável. E é fora de sua prisão conjugal que ele encontra verdadeira felicidade de amar e ser seduzido. Quando Chris se afoga no oceano de paixão em que Nola lhe fisgou inconscientemente, ele encontra o amor que procurava em outros momentos.
Match Point aos poucos se torna um ensaio sobre a hierarquia social. Porquê Chris não consegue manter um relacionamento estável com Chloe, a mulher que ele admira e por quem nutre algo inferior a Nola? Os iguais nasceram para ficar com os iguais? Chloe só deveria se casar com alguém de renome? Ou será que Chris é apenas bastante inquieto para conseguir frear toda a sua existência ao redor de uma única pessoa, sem dar mais chance à sorte, à possibilidade? Há pessoas que não nasceram para se enclausurarem num escritório e sentar, vendo o acaso atingir, inesperadamente, as pessoas do mundo de fora. Os Titãs cantaram sobre isso, "o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído". Mas quando a vida se torna uma rotina, quando você não dá chance à sorte de mostrar sua verdadeira face, o que acontece? Um arrependimento no epitáfio? Woody Allen faz isso em seu roteiro, no mínimo, inesperado. As reviravoltas são constantes porque Match Point tenta se igualar à vida: nunca se sabe o que se pode esperar. Ironias do destino aparecem e tomam o lugar das comédias que apareciam em suas obras anteriores, agora a comédia é rir do existencialismo.
Por fim, os personagens se mostram mais ambiciosos do que vivos. Chris busca na vida uma chance tão grande de ascensão social, lendo grandes livros de literatura e escutando ópera o dia inteiro, se relacionando com uma mulher rica, ele não pode colocar tudo a perder apenas por um sentimento tão comum quanto o amor. Mas o que ocorre é que a vida não dá duas chances e o amor não é assim tão comum. Encha-me de paixões, mas renuncio-as todas por apenas um único amor. E aqui não é o que acontece. Chris dá a sua versão para o acaso e, mesmo perdendo suas chances de felicidade, ele ainda tem grandes chances de ascensão. O grande problema é não se ter um com o outro. Aqui, percebe-se a influência clara da obra Crime e Castigo aparecendo nas telas, trabalhando num exemplo de ação e reação. Interessante como o homem que lê Dostoiévski na tela não se dá conta de que sofre mais sem amor do que sem dinheiro. A vida é repleta de sorte, assim como a paixão. O coração tem muitas razões que a própria razão desconhece.
Jonathan Rhys Meyers está grande em seu personagem, comedido em suas ações, aproveitando bem cada cena para se destacar como o lobo na pele do cordeiro, como o menino vindo dos subúrbios, sem instruções, mas que sabe aproveitar cada chance até não sobrar mais nada dela. E sabe o bastante para não desperdiçá-la. Scarlett Johansson mostra pra que veio sua personagem desde sua primeira aparição: seduzir. E isso ela faz muito bem. O interessante é observar a alma de uma verdadeira apaixonada e iludida, porém livre, capturando almas que insistem em ficarem presas ao corpo, ao desejo, à carne. O resto do elenco funciona bem, com uma ressalva especial para Emily Mortimer e Penelope Wilton, que entra na pele da sogra preconceituosa o bastante para julgar o exterior. Interessante ela não aceitar a inofensiva Nola na família, mas o instável e aproveitador Chris. A trilha sonora, composta exclusivamente por óperas, está belíssima. Nos momentos de maior tensão, a ópera se torna mais dramática, enquanto em outros mais casuais ela beira o instrumental e um tom de voz mais manso.
Sófocles disse, "jamais ter nascido pode ser a maior dádiva de todas". Pra que viver num labirinto de sorte, pra que existir se não se pode controlar a existência, se não se pode medir consequências? A verdade pode não ser castigo o suficiente para um crime, mas ele virá. Toda a vida é tão movida pela sorte e pelo azar que não se pode contar com uma maré boa o tempo inteiro. E o brilhantismo da obra é o roteiro, que consegue reunir bom humor e mesclar o existencialismo com um romance com castigos. A bola, dessa vez, caiu no campo do adversário para Woody Allen.
NOTA: 9

23 de junho de 2011

Água Para Elefantes (2011)

Um filme de Francis Lawrence com Robert Pattinson, Reese Witherspoon e Christoph Waltz.

A vida é o maior espetáculo da Terra. Em materiais humanos é que achamos a emoção e as ações necessárias para se enfrentar diversas situações cotidianas. E é aí que se encontra a força motriz de Água Para Elefantes, o novo filme de Francis Lawrence, o também diretor de Eu Sou A Lenda e Constantine. Os personagens se encontram num lugar-comum chamado realidade, os sentimentos e as ações são tão verdadeiras em sincronia com a história que quase se pode ver o amor e o ódio virarem personagens na tela. O rancor, a submissão e a piedade não ficam longe, e tudo isso é feito de um modo tão manipulador que, por mais que os personagens tornem-se irritantes ou insatisfatórios ao longo da trama, tudo é baseado inteiramente numa vida real circense. E esse é o maior trunfo de Água Para Elefantes: as emoções.
Jacob Jankowski (Robert Pattinson) é um jovem que vive nos anos 30, no auge da Grande Depressão. A crise acaba levando seus pais à falência e, quando eles morrem num acidente de carro, Jacob se vê obrigado a largar a faculdade de medicina veterinária por não conseguir se sustentar. Desolado e confuso, ele sai em busca de alguma razão para continuar sua jornada imprevisível. E é aí, em seu caminho, que ele acaba parando num trem do circo de August Rosenbluth (Christoph Waltz), um homem carismático, porém cruel. E é nesse circo que Jacob acaba encontrando o amor de sua vida: Marlena Rosenbluth (Reese Witherspoon), a encantadora de cavalos e a mulher de August.
A vivência de Jacob só começa após um choque em sua vida: a morte de seus pais. Com isso ele, sozinho, começa a andar com as próprias pernas e enfrentar os efeitos da crise de 29 nos Estados Unidos. O circo se torna sua verdadeira casa e é lá que ele aprende a veterinária que não conseguiu aprender cursando uma universidade. Cuidando diariamente de cavalos e leões, ele aprende a prática de sua teoria. Antes, Jacob não vivera o bastante, apenas vira como é a vida. Agora, que entra num negócio arriscado como a vida circense, ele vive e conhece os mistérios da vida. Ao se apaixonar por Marlena, Jacob vive a parte arriscada de sua existência. Por mais que mantenha certa afeição por August, sua paixão por Marlena ainda é mais forte. E a chegada da atração principal do espetáculo, a elefanta Rosie, significa o estopim para o amor entre Jacob e Marlena se tornar realidade. Tudo isso é bonito e gera grande comoção no público, mas o problema dessa grande emoção é o mesmo problema do protagonista antes de entrar no circo: tudo está apenas nas páginas. Enquanto o livro de Sara Gruen narra uma tocante paixão nos cenários do circo, a obra adaptada de Francis Lawrence funciona apenas pela caracterização do cenário, pois a falsa paixão é que toma lugar na verdade.
Enquanto as relações fervilham sentimentalismo nas cenas, o principal relacionamento não funciona. August e Marlena formam um típico casal conturbado, que não se amam mas se suportam, e isso fica crível. Jacob e Rosie criam laços de amizade pelo treinamento e pela convivência, o que é perfeitamente normal. Jacob e os outros artistas circenses adquirem uma amizade ainda maior. Mas Jacob e Marlena não funcionam juntos como um casal. Em certos momentos, onde Robert Pattinson mostra timidez por estar perto demais da mulher do chefe, até se acredita na relação de ambos. Mas no geral, nem Pattinson nem Witherspoon tem química o bastante para convencer o espectador de que aquilo é um amor. Se ambos ficassem olhando para o outro, em silêncio, não sairiam faíscas, muito menos algo que demonstrasse uma paixão verdadeira. O amor aqui só é mostrado em forma de palavras e carícias, mas nada de atos reais. E isso, drasticamente, diminui a beleza do filme.
A narrativa em off, feita por Hal Holbrook que interpreta Jacob Jankowski já ancião, é constituída em flashbacks e a representação do passado e do ambiente circense é feita belissimamente. E é a partir dessa narrativa que se afirma, a vida é realmente o maior espetáculo da Terra. Num turbilhão de amores, paixões e relacionamentos, a vida é que vale a pena na sessão. A vida, no caso, um coletivo de emoções confusas e impensadas, que atingem seu objetivo em cena. Os atores, que dão vida a esses sentimentos, ficam de lado graças às emoções. Robert Pattinson prova aqui que tem o que é preciso para sair da zona de conforto de um vampiro sem expressões faciais, e traz toda a compaixão em sua vida sofrida. A fotografia, que prefere os tons escuros em cena para trazer uma distinção entre a atualidade e os anos 30, auxilia Pattinson nesse trabalho. Reese Witherspoon é a razoável do filme. Sua personagem é muito arrogante, por mais passional que seja em seus atos e seja delicada nos movimentos. A timidez de Pattinson e a independência de Witherspoon, por mais que façam um contraste, não combinam. Ainda bem que, em cenas que ambos aparecem juntos, Christoph Waltz aparece para acabar com tanta superficialidade. Ele interpreta magistralmente seu personagem, alternando entre a fúria e a docilidade, se tornando amigavelmente assustador em cena. E isso lembra muitíssimo seu personagem em Bastardos Inglórios, o que acabou lhe rendendo um Oscar no ano.
Água Para Elefantes é um passatempo agradável. As condições da vida no circo são mostradas sem rodeios, os personagens possuem motivação necessária, o roteiro está bem adaptado e isso poderia render um filme imperdível. O pecado está em apostar mais num romance, assim como a obra literária, do que num drama, já que a veia dramática do filme - numa relação entre Christoph Waltz e a elefanta Rosie - é que se sobressai diante do casal principal. As emoções estão no auge dessa obra, é apenas uma pena que o foco tenha sido o elo mais fraco da composição.
NOTA: 7

19 de junho de 2011

Meia-Noite Em Paris (2011)

Um filme de Woody Allen com Owen Wilson, Marion Cotillard e Rachel McAdams.

É inegável que a capital francesa é um lugar acolhedor para a arte. Filósofos, pintores, escultores, escritores, cineastas, vários artistas fizeram e ainda fazem história na cidade. Paris há muito já entrou nessa atmosfera artística e deixou de ser uma cidade, virou uma obra de arte romântica. E é dentro de tanto romantismo e tanta história artística, cada época com seus movimentos e com suas próprias características, que Woody Allen foi buscar um refúgio para seu novo filme. E é dentro dessa concepção nostálgica de Paris que Allen revive e recria sua história com base em grandes nomes da arte. Meia-Noite em Paris é o retrato saudosista de uma realidade que não foi vivida pelo presente, mas é muito idolatrada por esse.
Gil (Owen Wilson) é um diretor hollywoodiano que, cansado de sua carreira, tenta escrever um romance. Ele acompanha a família de sua noive Inez (Rachel McAdams) para a incrível cidade de Paris. Na cidade-luz, enquanto ele tenta tomar inspiração para escrever seu livro, Inez sai para se divertir com Paul (Michael Sheen). Para Gil sair dessa atmosfera de banalização do patrimônio artístico que virou Paris, ele começa a andar sozinho à noite. E nessas caminhadas noturnas, ele acaba descobrindo uma cidade que ele julgava morta, mas que ainda vive depois da meia-noite.
Primeiramente, há o descontentamento da própria época, que fica latente no filme. Enquanto as primeiras cenas são o cotidiano de Paris, mostrando carros passeando pelas ruas parisienses, a Torre Eiffel, a Champs-Élysées e outros pontos turísticos famosos, a primeira fala é de Gil, afirmando que a beleza da cidade aflora quando chove. Gil é um infeliz otimista. Sua própria noiva não o acha interessante e não o apóia em sua ideias. Seus sogros não gostam dele. Ele já não faz mais filmes como antes. E seu maior sonho, maior até que morar em Paris, é morar em Paris dos anos 20. Imagine, por um instante, estar na eclosão do cubismo, do surrealismo, do expressionismo, do fauvismo? Imagine viver uma vida boêmia, vendo Pablo Picasso pintando suas obras, lendo as obras de Ernest Hemingway, ouvindo as composições de Cole Porter, vendo as novidades de Luis Buñuel, comprando quadros de Henri Matisse. E Gil sonha em viver aí, para poder levar seu livro a Gertrude Stein e sair a noite com Zelda e Scott Fitzgerald. A época dele não é 2010, porque ele não pode nascer e viver numa era onde o povo respirava arte, bebida e criatividade nas ruas, onde a vida é uma festa interminável.
Quando Gil finalmente consegue vivenciar sua ilusão da vida perfeita, maravilhado com cada nuance da Paris antiga, o escritor descobre que é infeliz. Que sua vida na verdade é apenas um retrato do que gostaria de vivenciar em sua maravilhosa Época de Ouro. E é nesses anos 20 que ele acaba encontrando um verdadeiro amor, numa época em que ele realmente se encaixa. Adriana, interpretada por Marion Cotillard, aparece na tela como a amante de Modigliani, Braque e Picasso. Mas o amor dela apenas se encontra na figura de Gil. O que fazer quando o coração bate por duas pessoas diferentes? Por mais que o amor ainda esteja lá em ambos os casos, a paixão vira indecisão. O problema é que o saudosismo não é apenas uma graça concedida à geração contemporânea. Por mais que os parisienses sonhem em viver nos anos 20, conversando com Salvador Dalí e Hemingway, os parisienses dos anos 20 também sonhavam em sua Época de Ouro, onde eles poderiam ouvir Toulouse-Lautrec no Moulin Rouge. Um diálogo entre Gil, Adriana e Paul Gauguin nos anos 1890 mostra isso com clareza. Ninguém está satisfeito com a própria época, talvez porque ninguém esteja satisfeito com a própria vida.
Enquanto o público observa essa história ganhar vida nessa proeza mágica de Paris, Woody Allen transforma tudo isso quase num autorretrato, com características de muitos de seus filmes. Aqui ele faz com Paris o que fez com Barcelona em Vicky Cristina Barcelona. A paixão de Gil mostrada entre duas mulheres, um triângulo amoroso, é semelhante à Match Point. A forma com que o protagonista adentra no seu mundo preferível remete ao clássico A Rosa Púrpura do Cairo. E o personagem de Owen Wilson, que nesse filme tem um bom desempenho, se assemelha muito com o próprio Allen. A belíssima fotografia engrandece a cidade maravilhosa retratada na tela. E esse romance inesperado entre diferentes épocas ainda pode render bons risos. Ver Picasso pintando uma de suas obras numa noite e no dia seguinte vê-la exposta num museu, 90 anos depois, é algo único. E quando Gil dá uma ideia a Buñuel sobre o filme O Anjo Exterminador, cujo roteiro o diretor ainda nem tinha pensado, a descontração fica óbvia. O maravilhoso elenco, que conta, além de Wilson, Cotillard e McAdams, com Kathy Bates, Adrien Brody, Corey Stoll, Léa Seydoux e até com a primeira-dama francesa, Carla Bruni, está em harmonia. Cada qual com seus altos e baixos, mas ele segura a sessão agradavelmente.
Carlos Drummond já dizia que não seria o poeta de um mundo caduco. A sociedade vive uma vida insatisfeita, querendo colocar suas esperanças num futuro incerto ou derramar suas mágoas pelo que não aconteceu. Demos chance ao presente!, é o grito que Meia-Noite em Paris lança nas salas em que é exibido. Woody Allen foi feliz em sua proposta, pois divertiu um público com uma magia que apenas ele poderia criar e recriar novamente. Seu eco fica forte com os personagens, numa atmosfera descontraída, recria a história da arte numa cidade completamente artística. Hemingway já dizia: Paris é uma festa.
NOTA: 9

15 de junho de 2011

Coração Selvagem (1990)

Um filme de David Lynch com Nicolas Cage, Laura Dern e Diane Ladd.

David Lynch é o diretor surrealista da geração atual. Seus últimos filmes, Império dos Sonhos e Cidade dos Sonhos, ambos retratando um onirismo incrível baseado seja no universo desejoso do ID ou da loucura em seu maior manifesto, comprovam isso. Seu primeiro longa-metragem, o perturbador Eraserhead, prova isso com mais clareza ainda por meio de suas imagens distorcidas e sem sequência que acompanham uma história nada convencional. E até quando ele cria filmes que não abordam com tanta liberdade o que vai além do inconsciente das pessoas, sua marca ainda está presente nessas obras. Coração Selvagem, o ganhador da Palma de Ouro em 1990 prova isso, e mistura um road movie e uma homenagem à Elvis Presley e a O Mágico de Oz em seus 120 minutos alucinantes.
Lula Fortune (Laura Dern) é uma moça de 20 anos que perdeu seu pai em um terrível incêndio. Atualmente ela namora com Sailor Ripley (Nicolas Cage), um homem mais velho que exala rebeldia em seus atos. Porém, para o romance não dar certo, a mãe de Lula, Marietta Fortune (Diane Ladd), faz de tudo para a filha acabar o relacionamento com o delinquente. Dois anos depois de Marietta incriminar Sailor e colocá-lo na cadeia, ele consegue sua condicional e pega Lula, para ambos fugirem até a Califórnia. No entanto, a cruel mãe contrata assassinos e detetives para ter sua filha novamente.
O filme assume tantas características de um conto de fadas sombrio contado na beira das estradas norte-americanas que um simples road movie acaba virando um drama de humor negro com as características principais de David Lynch. Seus cortes abruptos ainda estão lá, embora cada vez com mais coerência, e por mais que seja um de seus filmes mais fáceis, ainda é perturbador ver tamanha violência e uma repulsa extrema adquirida pelo cenário e pelos próprios personagens. Os personagens caricatos conseguem passar a mensagem adiante dessa trama que busca por valores completamente desconhecidos para personalidades incrivelmente confusas em seus próprios desejos. Um homem valentão e rebelde que usa uma jaqueta de cobra e repete, frequentemente, um discurso sobre a liberdade de expressão. Uma menina que sonha tanto com sua vida num conto romântico figurado que adquire até uma característica de retardo em cena. Uma mãe tão ciumenta que acaba tendo surtos psicóticos a cada cena surpreendente. Um assaltante nojento que não para de sorrir com seus dentes de ouro.
Nas mãos de David Lynch, o livro que poderia ser adaptado como um romance acabou virando um road movie, caracterizado por suas cenas áridas, e extremamente exagerado. Tudo nele envolve um superlativo. O amor aqui é exacerbado o bastante para os detalhes não serem escondidos. Enquanto carícias e beijos mostram a aproximação dos dois protagonistas, o sexo entra em cena logo na tomada seguinte, com uma ardência que contagia o público, sempre colorido por uma fotografia supersaturada, cobrindo a tela mas não escondendo o amor. A loucura tem seu lado tão característico na figura de Marietta que ela acaba se desligando de uma personagem entrando em outra numa fração de segundos. A violência é forte em seus momentos, que variam desde um tiro de espingarda que arranca uma cabeça até o personagem de Nicolas Cage esmurrando um homem até a morte. E o exagero faz parte de tudo. Se não fosse o exagero, como o filme funcionaria? O amor entre dois caracteres tão distintos só pode se dar por tamanha força amorosa. Os sonhos de um não funcionam sem as características do outro. O road movie acaba se encontrando na paixão ardorosa de um casal não tão ortodoxo assim. Elvis Presley só consegue cantar suas canções perto de sua Dorothy.
O estilo de Nicolas Cage - mostrando como ele conseguia atrair as atenções sem precisar fazer um papel tão caricato num filme de ação - lembra tanto o rei do rock quanto o seu discurso repetitivo. As cenas da sonhadora Laura Dern, que interpreta Lula com segurança, completam esse estilo rebelde. Entre falas sobre a Bruxa Má do Leste e canções de amor, o desfecho da obra é clichê, mas delicioso. Afinal, não há outra maneira de acabar uma história de amor sem o amor, e David Lynch sabe disso. Entre a esquizofrenia e a epifania há a dolorosa paixão que fisgou dois corações selvagens. Aqui, uma Diane Ladd entra em sua personagem com maestria e com um sofrimento sem igual, sua vilã ficou perfeita em todas as esferas e caricata o bastante para se enquadrar nessas imagens de um manicômio que Lynch oferece. Willem Dafoe é outra grata surpresa do longa, dando uma atuação necessária ao seu Bobby Peru. O humor negro aparece em todas essas cenas, coloridas com uma fotografia clara e contornada por uma trilha sonora magnífica, que acompanha os personagens do rock ao country em cenas controversas.
Sapatos vermelhos se batendo, não após um conselho do mágico de Oz, mas após um abuso sexual. Uma bola de cristal revelando o futuro. Uma mulher, após um acidente de carro, coçando seu cérebro. Uma bruxa com a cara completamente pintada de vermelho. Um herói que, após redescobrir o que já tinha encontrado, canta Love Me Tender para sua amada. David Lynch mistura todos esses elementos de forma a construir Coração Selvagem, um romance dramático perturbador de humor negro que ocorre nas estradas. Tudo é tão bem construído aqui, numa edição grandiosa do mestre surrealista do cinema, que o filme vai para além da objetividade em sua loucura romântica. Os sentimentos são extremos no fim dessa grande estrada de tijolos amarelos.
NOTA: 9

8 de junho de 2011

Candy (2006)

Um filme de Neil Armfield com Heath Ledger, Abbie Cornish e Geoffrey Rush.

Parece que o consumo de drogas é um tema que não cansa, pois a cada dia são feitos filmes melhores e com uma abordagem ainda mais ampla sobre o assunto. Tivemos o alemão Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída, que, por meio de uma fotografia escura e de cenas explícitas do uso de drogas, marcou uma geração. Anos mais tarde, surgiu o inglês Trainspotting, de David Boyle, que usando ironias e cenas que beiram a comédia das situações com o drama do vício, encantou um bom público. Já em 2000 o americano Darren Aronofsky criou sua obra Réquiem Para Um Sonho, que com um ritmo frenético e com cenas fortíssimas, ficou na mente de muitos e até indicou Ellen Burstyn para um Oscar. O australiano Candy seria um filme como todos se fosse, primeiramente, um filme sobre drogas.
Dan (Heath Ledger) é um jovem desempregado, que tenta ganhar a vida escrevendo poemas para revistas. Ele é o namorado de Candy (Abbie Cornish), uma jovem pintora cuja arte não é reconhecida. O amor entre eles é forte, mas além do sentimento há algo mais em comum: ambos são viciados em heroína. No início do vício e da paixão deles, eles vivem uma felicidade eterna, mas nenhum deles tem como sobreviver por muito tempo gastando tudo em drogas.
As drogas aqui são utilizadas meramente como um plano de fundo no verdadeiro assunto do filme: o relacionamento. Sim, é um filme sobre drogas, metaforicamente, mas é. Candy, traduzida do inglês doce, é viciante. É uma moça bonita, que fala bem, pinta e tem seu próprio método de vida. Quanto mais Candy toma lugar na vida de Dan, mas viciados eles se tornam. As cenas da piscina no começo ilustram isso de forma simples e clara. Enquanto antes Candy mergulhava na perdição e Dan apenas olhava o pecado nadando e tentando ele, logo eles se abraçam e mergulham nos sortilégios da vida. E não para por aí. O filme é dividido em três partes, sendo elas o paraíso, a terra e o inferno. A loucura, a prostituição, o compromisso, o desemprego e as drogas são encaradas dependendo do humor do relacionamento. Enquanto o simples pensamento de alguém ir se drogar pode levar a brigas terríveis quando ambos estão mal, quando Candy desmaia na banheira após injetar, seu ato é tratado com carinho e compreensão por um Dan amoroso. E todos os problemas são explorados de forma tão natural que até fica crível uma vida tão triste e melancólica quanto a de Dan e Candy.
Triste por tudo, porque se não fossem as drogas, a vida do casal seria um romance belíssimo. Os personagens têm seus fins à medida que o filme decide terminar o vício. Talvez a maior tristeza não seja ver duas pessoas, explicitamente, injetando heroína e entrando num estágio ilusório de uma felicidade que apenas existe nas drogas. A maior tristeza é ver que sem as drogas, Candy e Dan não são nada. Observar um relacionamento que apenas se mantém graças a um pouco de pó branco por dia é horrível. Não existe mais amor, existe um vício. E quando no lugar onde deveria haver paixão, há apenas sofrimento mascarado por algumas injeções, ver tudo isso crescendo aos poucos sem que os personagens se deem conta de nada faz o espectador afundar na cadeira diante dessa obra pessimista. Os personagens viram protagonistas aos poucos, e é doloroso tomar afeição por alguém e ver essa pessoa apenas regredir.
E o filme, assim como muitos, retrata o verdadeiro fim das drogas. Não há um remédio milagroso que vá acabar com o vício. Não há um guru espiritual que faça alguém atingir o nirvana. Há apenas esforço. Um esforço dilacerante que é tomado de recaídas cruéis. Injetar droga é péssimo. Mas se a abstinência é tão dolorosa quanto, não é melhor voltar às drogas e desfrutar de alguns momentos dessa felicidade instantânea? Como se vive com a ascese quando o corpo já se acostumou com o pecado? E assim terminamos Candy, com seu desfecho baseado na realidade. Candy consegue, numa clínica, largar sua dependência química. Dan consegue, por meio do afastamento, sobreviver e acabar com vício da paixão. No fim os pecados são absolvidos, e a única coisa que resta é o esquecimento natural. Os atores principais - Ledger e Cornish - trabalham perfeitamente, um sendo o contraponto do outro e cada um roubando a cena à seu modo. Geoffrey Rush mostra que é um bom ator e se segura como coadjuvante, por mais que consiga quebrar toda a atmosfera da cena com alguns mise en scène extravagantes. A direção é segura, a edição é ótima e o roteiro funciona muitíssimo bem. Ainda com uma fotografia clara em contraste com a obscuridade das cenas e com a trilha sonora rodeando a melancolia, a obra se fecha numa exposição de tristezas e desilusões.
Candy é um filme para ser visto. É um retrato fiel das drogas se misturando com a paixão. Um retrato da decadência dos personagens de Abbie Cornish e Heath Ledger - que comprovaram a beleza na morte sobre a vida. No fim, é impossível olhar a tela e não derramar uma lágrima, seja de incredulidade, decepção ou a mais pura tristeza. É um filme sobre drogas com uma abordagem mais diferente. Afinal não foram os personagens que ficaram viciados na droga, foi o relacionamento que acabou morrendo de overdose.
NOTA: 8

31 de maio de 2011

As Canções de Amor (2007)

Um filme de Christophe Honoré com Louis Garrel, Chiara Mastroianni e Clotilde Hesme.

Está na hora dos preconceitos serem abandonados. Quando uma forma de amor tão simples e tão natural é exposta, não se deve julgá-la. Algumas pessoas tentam promover a paz, mas como se faz isso quando elas próprias censuram o amor? A união homoafetiva está aí como uma simples prova disso. Se uma forma de amor é tratada com tanta intolerância, isso apenas comprova que o mundo não está preparado para uma coisa tão profunda quanto os sentimentos humanos. A falta de coerência em diálogos de desaprovação é vergonhosa. O amor não pode ser detido, enfim. Então, para se ver essa pérola de Christophe Honoré, o melhor a se fazer é abandonar os preconceitos e deixar o amor prevalecer em tamanhas situações cotidianas, porém apaixonantes.
As Canções de Amor é um musical simplista que mostra de forma ultrarromântica os altos e baixos de um relacionamento não tão comum em Paris. O casal é formado pelo jornalista Ismaël Benoliel (Louis Garrel) e por Julie Pommeraye (Ludivine Sagnier). A diferença está no terceiro elemento do grupo: a também jornalista Alice (Clotilde Hesme) participa desse triângulo amoroso. Ao mesmo tempo que a relação entre Ismaël e Julie esfria, Alice se torna cada vez mais dependente do amor dos dois. Porém, uma infeliz tragédia faz com que os valores amorosos do grupo sejam revistos.
Desde o começo o filme começa a mostrar qual o seu maior trunfo. Após uma discussão entre Ismaël e Julie, ele a surpreende na saída do cinema e começa a dialogar entre versos e estrofes cantadas. O apaixonante dialeto francês deixa o amor ainda maior quando as vozes dos atores saem e se complementam numa declaração amorosa. E se isso é apenas o início, só se pode esperar o melhor. Nas cenas seguintes vemos canções claras sobre as complicações do ménage à trois, uma discussão calorosa nas ruas parisienses, uma família que não se comunica e muito, mas muito amor recheando cada palavra. O que não é mostrado nas cenas para o público é mostrado nas canções, essenciais para o entendimento e não apenas uma alegoria a mais. Ver Ludivine Sagnier numa crise aguda de ciúmes, cantando com sua alma para Louis Garrel e Clotilde Hesme, isso é difícil de se resistir. E, cenas mais tarde, quando esse mesmo Louis Garrel canta um dueto com Grégoire Leprince-Ringuet, ele apresenta em versos líricos o contraste entre o início de um coração apaixonado, que começa a exaltar seus sentimentos, e um coração amargurado, que não suporta formas de amor que o relembram da dor da perda. É inegável que Alex Beaupain fez um trabalho magnífico em As Canções de Amor, e o elenco de atores-cantores não deixa as composições caírem na mesmice.
A obra inteira é dividida em três atos: a partida, a ausência e o regresso. Tudo se refere ao amor na vida do personagem Ismaël. A partida dos amores de sua vida, a quebra de sua ponte amorosa - numa referência à letra de uma música cantada pelo triângulo inteiro - e a não realização das fantasias de forma a se explorar todas as nuances de um romance tornaram o jornalista num homem infeliz. Ismaël é um romântico declarado, e nada menos justo para a construção de seu próprio personagem. A vida na cidade-luz é romântica o bastante para uma pessoa, a vida nessa mesma cidade com duas mulheres ao seu lado deve ser o auge da paixão para qualquer um. Depois de lidar com a insegurança do território desconhecido do sexo à três, Ismaël não consegue levar uma vida solitário. Ele precisa de amor como um carro precisa de combustível. Mas como arranjar amor ao mesmo tempo em que você o renega pelas lembranças? Enquanto ele é flertado assiduamente por Erwann (interpretado por Grégoire Leprince-Ringuet), a família de Julie não o deixa se esquecer de seu compromisso.
A luta entre passado e futuro é forte. O passado, interpretado por uma Chiara Mastroianni que interpreta, de forma cativante, Jeanne, a irmã de Julie, é forte. Não necessariamente moralista, por uma alusão ao tabu de um triângulo amoroso ser aceitado com tamanha facilidade, mas com sua própria visão da ética. É um conflito de mentalidades. O futuro, representado por Leprince-Ringuet, é uma alternativa para o aplacamento do sofrimento do pobre Ismaël. Já chega de sofrer por uma ausência, a busca dos personagens de Honoré é pela felicidade - por mais que essa não chegue no fim das contas. Enquanto a história apresenta seu desenlace para o espectador em mais baladas e menos agitação à medida que chegamos ao desfecho, acompanha-se a direção de Christophe Honoré aos poucos, como se ela fosse apenas um detalhe a menos ou a mais e não interferisse no todo. Mas interfere. As táticas de enquadramento e angulação fazem toda a diferença para a visão do espectador sobre determinada situação. Os atores trabalham em sincronia com essa direção essencial: o trio principal, composto por Sagnier, Hesme e o sempre competente Garrel está ótimo.
As Canções de Amor é um filme para se ver descompromissado, desde que você saiba amar. Isso já fica óbvio no título, mas aqui ele apresenta uma visão bem mais ampla do que apenas um relacionamento ordinário entre um homem e uma mulher que geralmente resulta numa comédia-romântica. O filme é um ensaio sobre o amor, não importando sexo, não importando moral. Esqueçam a lei de deus, esqueçam a lei dos homens, a prevalência aqui é apenas da paixão. O manifesto de Louis Garrel no fim prova isso. Não há dor que perdure tanto que não é apagada pelo choque de um novo amor. "Ama-me menos, mas ama-me por muito tempo". Faça-me chorar por nosso relacionamento, mas não me faça sofrer por tua ausência.
NOTA: 9

29 de maio de 2011

Cashback (2006)

Um filme de Sean Ellis com Sean Biggerstaff e Emilia Fox.

Relacionamentos são duros para se suportar quando eles não dão mais certo. Um relacionamento no ápice de sua ruína pode ser um desastre para ambas as partes. E quando ele finalmente desaba, a única coisa sensata a se fazer é não insistir mais em colar os pedaços de algo rachado, e sim dar tempo ao tempo, para que os resquícios vão embora. Cashback é um filme assim: um relacionamento e seu desabamento, e a tristeza de se suportar ele presente em cargas horárias e alterando vidas aos poucos. E, por mais que não seja uma obra prima inesquecível, é um filme divertido em seus diversos momentos despretensiosos.
Ben Willis (Sean Biggerstaff) é um estudante de arte que vive um relacionamento já arruinado com sua namorada Suzy (Michelle Ryan). Quando Ben revela para ela o que realmente sente sobre ambos, eles terminam, o que acarreta numa insônia para Ben. Para passar as horas noturnas extras que perde com sua falta de sono, ele encontra um trabalho num pequeno supermercado e acaba, rapidamente, se adaptando à rotina do local e a seus companheiros de trabalho. Enquanto todos trabalham, cada um imagina uma habilidade especial para fazer o tedioso turno da noite valer a pena. Ben começa a imaginar que consegue parar o tempo para captar toda a beleza de um instante em seus diversos ângulos. Ao mesmo tempo, sua vida começa a voltar aos trilhos graças a Sharon Pintey (Emilia Fox), a garota do caixa.
Aqui tudo está explícito na tela. Não há metáforas fortes o bastante para a trama se construir em cima e se assemelhar a um caso que afeta o mundo todo, há um bom roteiro que consegue prender o espectador nas partes sem ambição de Cashback, mas que falha em sua prática. O filme, ainda assim, consegue funcionar em seus 100 minutos de duração, com uma trilha sonora simples, que ajuda a manter a sensação agradável de uma comédia-romântica adolescente; e uma fotografia clara o bastante para as minúcias do filme se deixarem expostas. Não há nenhum detalhe a ser escondido. Aqui, o tempo funciona como um castigo. Dar tempo ao tempo nem sempre é simples quando o tempo começa a brincar com você. Se você para de dormir, o tempo se duplica e torna ainda mais insuportável. O personagem principal, Ben, é uma pessoa que não sabe o que fazer com o tempo, o que é até interessante devido a sua característica de poder congelá-lo. Ele congela o tempo para poder desenhar uma beleza que possa substituir a carência de descanso dele. Um descanso da depressão, um descanso do tempo.
Os atores funcionam em cena. Ninguém tem uma atuação inesquecível, mas todos são versáteis o bastante para mesclar comédia-romântica com drama nas maiores partes, por mais que isso soe exagerado. Sean Biggerstaff e Emilia Fox funcionam individualmente, mas juntos a química entre eles parece bastante forçada. A narrativa em primeira pessoa deixa o filme com uma característica mais descontraída, e é aí que estão as melhores cenas. Quando eles não querem fazer de conta que o roteiro é incrível envolvendo uma partida de futebol bastante esquisita, um personagem misterioso que surge do nada sem qualquer aprofundamento ou um estereótipo de um chefe que poderia ter saído de um episódio d'Os Trapalhões, ele finalmente se torna incrível. É incrível as sacadas que ele fez entre um relacionamento afetando toda uma vida, mudando toda uma rotina. É incrível o trabalho para tudo parecer bastante natural, e os trejeitos dados aos personagens também se aplicam nesse trabalho. A edição é a coisa mais incrível de Cashback, pois, num filme sem muita verba, eles conseguem transportar um personagem do meio da rua até a sua cama sem nenhum corte. É algo lindo, não como filmes recheados de efeitos especiais onde não se pode distinguir o real, mas como se o real fosse aquilo mostrado na tela. Em certo ponto, até acreditamos na habilidade de parar o tempo.
Cashback, primeiramente, já havia figurado no Oscar de melhor curta-metragem em 2005. Sim, antes de tudo, o filme tinha aproximadamente os 20 minutos iniciais. Ao ver essa repercussão, o curta virou um longa. É uma tática realmente perigosa, mas ele consegue convencer e agradar aos menos despretensiosos e sem nenhuma expectativa. Por mais que tenha conseguido se segurar alongando sua duração, não acho que o filme valeria a pena com mais de duas horas. De qualquer modo, está de parabéns. Não é qualquer filme independente que consegue retratar tempo, tédio e amor combinados num roteiro que poderia dar certo se mais explorado. Culpem a falta de recursos, mas Cashback, como ideia, ainda é um primor.
NOTA: 6

21 de maio de 2011

Across The Universe (2007)

Um filme de Julie Taymor com Jim Strugees, Evan Rachel Wood e Joe Anderson.

Quem acreditou que naquele dia 8 de dezembro de 1980 os Beatles estariam acabados para sempre, estava certo. Na realidade, antes disso, já que a harmonia entre os integrantes já não era a mesma e John Lennon já estava balançado em sua carreira graças à ativista Yoko Ono. A morte de Lennon apenas concretizou o que já estava fadado. Mas se alguém achou que eles seriam apenas mais uma banda a ser esquecida com o peso do tempo, cometeu um erro gravíssimo. Os Beatles viraram o grupo musical mais aclamado do mundo, e até hoje isso aparece. É surpreendente que, após 40 anos do fim dos Beatles, ainda haja uma massa de tributos artísticos a eles, se renovando a cada dia e fazendo novas versões para cada canção antiga.
Jude (Jim Strugees) é um adolescente inglês que vive em Liverpool, mas nunca conheceu o pai, que abandonou a mãe enquanto ela estava grávida. Jude parte para os EUA para procurar o pai e, ao entrar numa universidade, acaba conhecendo Max (Joe Anderson), um estudante rebelde que ainda é ligado às amarras da família controladora. Além disso, Jude acaba se apaixonando por Lucy (Evan Rachel Wood), a irmã de Max, que começa a se interessar pelos movimentos da contra-cultura hippie e protestar contra a Guerra do Vietnã.
O que mais se destaca nas esferas de Across The Universe é a forma com que a notável trilha sonora é interpretada a cada momento, se adaptando a diversas situações. Primeiramente, o elenco de atores-cantores faz com que ela funcione com versões populares para músicas famosas da banda de Liverpool. Ver, ao mesmo tempo, o competente Jim Strugees cantando a música homônima ao filme e Dana Fuchs, interpretando a cantora Sadie, gritando com seu coração os versos de Helter Skelter ao som de guitarras fortíssimas é algo avassalador, ainda mais com as imagens que se juntam às canções. E o que dizer de Hey Jude? All You Need Is Love? All My Loving? Até Bono Vox aparece na sessão cantando uma versão de I Am The Walrus. Porém, por mais que trilha sonora seja aquilo que move toda a sessão, também é aquilo que torna o filme fraco. O roteiro, que deveria adaptar as canções para as situações mostradas na tela, faz o inverso. Ele se constrói em cima das diversas músicas dos Beatles. Em alguns momentos, é até permitido se esquecer que existe uma estória no fundo, pois parece que o objetivo não é criar uma comparação com a trajetória da banda de rock ou então mostrar seus ideais, mas sim colocar o máximo de músicas possíveis em 130 minutos.
A emoção é transposta em cima das músicas e, sendo você um beatlemaníaco ou não, você acaba por se emocionar, seja com os sons, seja com as imagens. Uma pena que o clímax, ou onde ele deveria estar, acaba sendo desconexo das outras partes e que muitas canções assumam um tom mais videoclipe do que filme. O roteiro faz uma ligação direta com a história dos Beatles e ela aparece de um modo ou de outro. Quem não viu o auge da psicodelia e do uso de drogas nos anos 70 na mistura de cores e sensações, na vida alternativa, na composição de imagens distorcidas e supersaturadas? Quem não se sentiu voltando ao tempo, quando viu o movimento hippie lutando por causas pacíficas na tela do cinema? Quem não viu os horrores da Guerra do Vietnã afetando, por mais que indiretamente, o padrão de vida americano, espalhando medo no mundo? Quem não viu um espírito de revolução surgindo de uma ideia? E havia uma maneira melhor de acabar com a obra do que com um show interrompido no telhado, remetendo à última apresentação dos Beatles? Jim Strugees e Evan Rachel Wood tem uma química deliciosa de se ver e o resto do elenco se segura nas atuações, por mais que alguns caiam.
Sinceramente? Talvez Across The Universe seja um filme desnecessário em sua maioria, ao tentar adaptar uma história inteira de amor para colocar a carreira dos Beatles nela. Mas funciona em algumas cenas, que conseguem mesmo demonstrar um sentimento escondido atrás de tanta revolta e de tanto precípite. E, além de tudo, ainda serve como uma homenagem extremamente bem feita sonoramente. O tamanho do filme também dificulta, prender a atenção do público por mais de duas horas sem clareza na filmagem e com um bombardeio de ideia é difícil. Entretanto, os Beatles merecem essa homenagem, assim como muitas outras que certamente virão para essa banda que se tornou mais popular do que Jesus Cristo.
NOTA: 7

17 de maio de 2011

Closer - Perto Demais (2004)

Um aviso prévio antes da leitura: muitos já comentaram que falo excessivamente de partes de filmes nos posts e estou tentando melhorar nisso, por mais difícil que seja. Porém, exclusivamente nesse texto, foi impossível para mim não comentar muito do filme. Essa resenha serve como uma interpretação de Closer, sugerida apenas para quem já viu. Se você ainda não viu, recomenda-se que leia até o quarto parágrafo e pule para a conclusão.  
Um filme de Mike Nichols com Natalie Portman, Jude Law, Julia Roberts e Clive Owen.

Bem vindo ao mundo moderno, algo que não se difere muito das eras passadas. Aqui, o amor se baseia em apegos, em encontros, em uma paixão temporária que pode ou não se estender. E aqui, o que prevalece não é quem sente mais forte, é quem tem mais circunstâncias e mais espaço para abrigar o amor. Closer é um ensaio da paixão e dos relacionamentos. E é inegável que eles são fortes e explícitos, mas são verdadeiros? Se uma paixão ocorre em tempo recorde de uma primeira vista, em quanto tempo ela consegue se extinguir?
Dan (Jude Law) é um escritor de óbitos cuja ambição é se tornar um grande romancista. Quando ele finalmente consegue escrever seu livro, intitulado O Aquário, ele vai tirar as fotos da obra com Anna (Julia Roberts), uma fotógrafa bem-sucedida que acabou de passar por um divórcio. Durante a sessão de fotos, Dan se apaixona por Anna à primeira vista, e Anna corresponde o amor de forma reservada. Com ciúmes de Anna, Dan começa a teclar pela internet com o médico Larry (Clive Owen), fingindo que é a fotógrafa. O trote virtual acaba por fazer Larry encontrar a verdadeira Anna e se apaixonar por ela. Ao mesmo tempo, Dan mantém um namoro com Alice (Natalie Portman), uma stripper apaixonada e instintiva que o escritor de óbitos conheceu antes de tirar as fotos com Anna.
Numa esfera visual, Closer é perfeitamente montado. A linguagem das minúcias tornam o filme bastante comunicativo em seu quesito detalhista. A fotografia do filme condiz com cada ambiente físico ou emocional, se adaptando à tensão de cada cena. Os sentimentos transbordam da tela para afogar o espectador numa mágoa ou num afeto. A suave trilha sonora tem o poder de embalar a obra do início ao fim. Primeiramente e finalmente com a canção Blower's Daughter, do cantor Damien Rice, caracterizando lindamente a paixão retratada e, com isso, abre-se o leque de sentimentos que é Closer com chave de ouro. Todo o cenário tem algo a dizer em sincronia com as situações, seja de uma forma implícita ou explícita. O retrato de um retângulo amoroso se completa com as semelhanças e diferenças de cada casal. Os diversos elementos de cena entram em harmonia para mostrar as paixões. É uma delícia ver a frequência com que os personagens de Jude Law e Natalie Portman desistem e voltam a fumar, o que acaba localizando o espectador nesse labirinto romântico de idas e vindas.
O jogo do amor está no ar e infecta a todos. No entanto, nem só de pão vive o homem e nem só de felicidade vive o amor. Ações viram um perigo e consequências, uma brincadeira. Os personagens são construídos de forma inteligente e ocultam várias personalidades firmes. O filme se torna uma identificação do sensível. Controle, adultério e mentiras enchem o território de um relacionamento e, por mais que Dan, Alice, Larry e Anna tenham todos os seus defeitos à mostra, uma característica passional acaba por assemelhar-se com o público.
As metáforas não param por aí, o filme inteiro acaba por convergir para o seu fim. O doutor Larry, interpretado por um Clive Owen com uma força de interpretação no seu auge, é o típico romântico seguro, que não perde o foco e o controle por um segundo. Mas a interpretação não para de Owen para Larry, mas Larry continua a atuar para o mundo. Confiança não é algo que nasce pronto. A caracterização do médico, um ofício que é encarregado para a cura, serve como a cura de amores. E aí entra a ironia da cena, a cura das paixões que ele traz não é verdadeira, e não há nada pior do que um convívio apaixonado de fachada. Será esse o preço da traição? Enquanto o médico traz um caráter de segurança e vida, - por mais que essa vida assemelhe-se à morte por vezes - o escritor de obituários é encarregado de trazer às notícias da morte e, ironicamente, matar todo o amor que lhe entra em contato. O escritor Daniel vive uma vida de regressões: começa como um jornalista que odeia o trabalho, termina como um escritor fracassado. Dan troca a vida pela morte, porque, sob o controle de duas paixões, ele não tem a força para consolidar qualquer uma delas. Jude Law entra, competente, na pele de um canalha irreversível.
O elenco feminino não fica atrás. Aqui, Julia Roberts se rende à Anna, uma mulher que não deixa seus sentimentos à flor da pele, mas que se mostra tão reduzida à própria vida sentimental quanto qualquer protagonista do filme. A fotógrafa se mostra um foco da percepção dos outros dois. Por mais frígida que se deixe parecer, Anna é a única que consegue atrair a atenção dos homens no relacionamento. A obsessão dela de fotografar estranhos é sarcasticamente correspondida por seus sentimentos ao se apaixonar por um, e acabar com um estranho para o próprio coração. Já Alice é a atmosfera de sedução do filme inteiro. A sempre competente Natalie Portman entra em cena e consegue deixar todos boquiabertos com sua mesclagem de diálogos, movimentos e olhares. Por ser uma stripper, sua personagem sugere um aprofundamento maior e um preconceito pela desonestidade e pela facilidade de trocar um homem. E aí que ocorre a maior ironia. Alice só consegue ser honesta com seus próprios estranhos, enquanto, sendo uma romântica irrevogavelmente apaixonada, tem de mentir para o coração e para o amado. Banalmente, ela consegue ser Jane Jones, a stripper verdadeira que apenas oferece uma noite de libido e tesão. Emocionalmente, ela se esconde no reduto de Alice Ayers e se finca numa vida mais banal como alguma outra profissão.
Sim, do mesmo modo que uma paixão começa, ela pode acabar. Sim, uma paixão pode ser duradoura ou pode ser efêmera. Closer é uma aula de relacionamentos contemporâneos, uma aula com Jude Law, Natalie Portman, Clive Owen e Julia Roberts supervisionando o assunto e ensinando, de uma maneira intensa, todos os assuntos abordados para que nada seja feito em demasiado excesso. Verdades e mentiras, confiança e desconfiança, fidelidade e traição, tudo converge para que o desfecho dele seja exatamente igual ao começo: uma nova alternativa para novas relações. Satirizando Anna Karenina, "Cada relacionamento feliz é igual, mas cada relacionamento triste é triste à sua maneira".
NOTA: 10

5 de maio de 2011

Encontros e Desencontros (2003)

Um filme de Sofia Coppola com Bill Murray e Scarlett Johansson.

Sofia Coppola é a jovem diretora que anda roubando os corações cansados do mundo. Cansados porque seus filmes apresentam, nada mais nada menos, que visões cansativas, tediosas e hedonistas do mundo, por personagens que nutrem uma profunda indiferença por qualquer brilho das relações sociais que são aclamadas pela futilidade. E isso é brilhante, uma inovação no cinema que, além de entreter, agora apresenta histórias num mundo rodeado por banalidade. Por mais que ela use a mesma fórmula do vazio existencial na essência de seus projetos, cada um possui uma beleza diferente. Enquanto As Virgens Suicidas trata da delicadeza feminina mesclada com a solidão, Maria Antonieta mostrou o tédio de uma vida pública da monarquia, e seu novo Um Lugar Qualquer é um ode à uma vida cheia, porém solitária. A solidão ronda os filmes da filha de Francis Ford Coppola, e Encontros e Desencontros não foge à regra.
Bob Harris (Bill Murray) é uma estrela do cinema, conhecido por seus diversos filmes de ação, mas que se encontra num estado de decadência em sua carreira, sendo obrigado a ir à Tóquio para gravar um comercial de uísque. No mesmo hotel onde Bob está hospedado, também se encontra Charlotte (Scarlett Johansson), a mulher de John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo viciado em seu trabalho, que deixa a esposa o dia inteiro sozinha na capital japonesa enquanto tira suas fotos. Como o fuso horário entre Japão e Estados Unidos é diferente, nem Bob nem Charlotte conseguem dormir, e ambos acabam se encontrando no bar do hotel. A partir de outros encontros, começa entre os dois uma relação forte e verdadeira de amor e amizade.
Por mais que todas as cenas do filme sejam recheadas de pessoas, todos estão tão sozinhos como se estivessem trancafiados num quarto de hotel o dia inteiro. Ao mesmo tempo em que o filme denuncia a solidão individual numa vida em grupo, ele ainda apresenta o que leva a vida em grupo a se esquecer da solidão individual: dinheiro, trabalho, futilidade. Bob é cercado por seus agentes que destruíram sua família, que vem mantendo há 25 anos, por meio do trabalho incessante que acabou por cortar relações mais intimistas com as pessoas mais próximas, por isso tanta frieza e falta de jeito que completam seu personagem em meio às lotadas ruas japonesas. Ao mesmo tempo Charlotte tem de conviver com sua dor de perder o marido para o trabalho, exatamente o oposto do que acontece com Bob, o que torna os personagens com características tão distintas e personalidades opostas, e ao mesmo tempo torna a relação entre ambos ainda mais deliciosa enquanto a sessão dura. Ainda há a futilidade presente na figura de Anna Faris, que interpreta uma atriz com direito a uma construção de personagem parecida com a de uma patricinha.
A temática do filme só funciona graças à interpretação forte e a direção precisa, mas eles não seriam nada disso sem a temática. O ciclo se fecha aí. Bob Harris, o ator que foi explorado o bastante e já sabe o suficiente sobre os ossos de seu ofício, trabalha como um perfeito contraponto de Scarlett Johansson, a mestranda em filosofia que está cansada de sofrer indiretamente as mazelas da profissão do marido. A relação entre os dois é de tanta veracidade que não temos mais preconceitos na tela. Não há uma visão de um adultério, não há relação de idade, há apenas um sentimento que aflora nos dois personagens, que já estava dentro deles há bastante tempo mas foi perdido devido à falta de originalidade na vida. A trilha sonora, o cenário e a fotografia exalam uma melancólica sensação de déjà vu, que contribui para o visual do longa metragem.
A direção de Coppola trata de uma situação incomum, onde ambos estão perdidos e solitários numa terra distinta com uma cultura milenar diferente da nova hegemonia americana, e ambos acabam encontrando exatamente aquilo que não tinham na terra de tédio e conforto. Situações como uma prostituta japonesa, uma visita a um templo budista e até um banho se tornam engraçadas devido à total indiferença dos personagens, pela banalização do cotidiano. A novidade do filme é uma relação amigável de ambas as partes, onde a sinceridade surge como fator essencial para transformar a motivação dos personagens. Como já dizia o filósofo Arthur Schopenhauer, o ser humano é um buraco negro de tédio, que gera uma vontade cuja realização com certeza gerará uma dor. E para sobreviver, o homem busca mais desejos. O tédio completou os protagonistas de Encontros e Desencontros, cuja racionalidade não os deixa aproveitar mais uma vida que se mostra menos viva do que qualquer outra coisa. Tanto Bob quanto Charlotte andam, pensam, respiram, mas não vivem, eles são o empirismo da filosofia Schopenhaueriana. E quando há um choque entre realidades semelhantes e caracteres distintos, a velha razão morre para um sentimento nascer.
Todo mundo precisa ser encontrado. A fuga da artificialidade é dada através do romantismo no meio de luzes coloridas, neons e arranha-céus. E tudo é feito da maneira mais casta encontrada por Coppola. É bastante engraçado o rumo que as situações tomam. Enquanto tudo poderia ser explorado para a criação de uma comédia numa terra tão exótica, o filme se afunda num mar de tristeza. Mas o que poderia se tornar clichê se torna bonito e novo de tão puro. E a pureza do relacionamento entre os excelentes Bill Murray e Scarlett Johansson se dá de maneira a visualizarmos uma amizade no meio da rua, com direito a abstenções e segredos. Encontros e Desencontros é um filme que não dá as respostas, mas o público que o vê também não as procura.
NOTA: 8