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19 de outubro de 2011

Rent - Os Boêmios (2005)

Um filme de Chris Columbus com Adam Pascal, Rosario Dawson e Idina Menzel.

Anos 80. Anos de liberdade sexual, de liberdade sexual, do advento da AIDS. Anos que deram abertura para a vida boêmia. Nessa época de orgias e fantasias, onde o impulso grita mais alto do que a razão, como se pode sobreviver na sociedade capitalista, enquanto a divisão bipolar mundial se destroça? Como se sobrevive de sonhos, de aventuras, da música, do cinema e da arte sendo tudo alternativo, nada midiático? Perto dos ideais de não vender nada do que vem do coração e dos desejos, acompanhamos de perto um grupo de jovens com ideias na cabeça prontas para prática, sem medir as consequências dos atos e vivendo o ápice da boêmia. Mark Cohen (Anthony Rapp) é um jovem cineasta que filme tudo por onde anda. Seu maior problema é o relacionamento amoroso com Maureen Johnson (Idina Menzel), sua ex-namorada que agora tem uma relação com Joanne Jefferson (Tracie Thoms), uma advogada. Mark divide o apartamento com Roger Davis (Adam Pascal), um guitarrista que acabou deprimido após a morte de sua namorada e após descobrir que possui o vírus do HIV. Mas, a morte da namorada de Roger não impede os flertes constantes entre ele e sua vizinha, Mimi Marquez (Rosario Dawson), uma dançarina. Tanto Mark quanto Roger são ex-colegas de apartamento de Tom Collins (Jesse L. Martin), um gênio da computação que é apaixonado pela drag queen Angel (Wilson Jermaine Heredia).

Rent é um turbilhão de ideias e sentimentos coloridos variadamente para dar vida a características pessoais de amantes da arte, de amantes das ruas, de amantes da vida. Além de conflitos amorosos e amigáveis, ainda há uma batalha maior que é o a arte consumista, é o capital engolindo a beleza da simplicidade. O papel fica por conta do jovem idealizador corrompido pelo gosto do poder, Benjamin Coffin (Taye Diggs). Mas para suprir essa batalha física, ainda há as tensões emocionais vividas por cada um. Roger tem de aguentar o peso de sua namorada morta, aguentar o peso de seguir em frente, aguentar o peso de poder morrer a qualquer hora, de ter a vida baseada nos horários do AZT. Paralelamente, Mimi tem que aguentar o peso das drogas, de ter a necessidade de algo para lhe fazer bem e colocar substâncias ilícitas completando essa lacuna. Aguentar amar e não ser amada, e assim consumir cada vez mais. O casal, vivido por Adam Pascal e Rosario Dawson, é o que mais chama a atenção, tanto pelas cenas intimistas quanto pelo foco que o diretor Chris Columbus coloca em ambos. Veja e ouça ao mesmo tempo um flerte coletivo que ambos fazem no escuro, enquanto dialogam cantando Light My Candle. Depois de algum tempo, as músicas acompanham o relacionamento do casal em evolução. Prova disso é I Should Tell You.

"Hoje é pra você, amanhã é pra mim!". Disputando o centro das atenções, o elenco feminino duela bravamente com o masculino, e no fim todos saem iguais. Maureen tem a atitude e o sex appeal, enquanto Joanne e Mark cativam com características próprias de seus personagens traídos - uma cena especial é, por exemplo, o Tango Maureen, uma dança de traição interpretada deliciosamente por Tracie Thoms e Anthony Rapp. Mas Angel, de um modo ou de outro, rouba a cena. Talvez pelo destaque de sua personagem que sempre chegou a ser benevolente e foi um exemplo para os outros até quando não estava presente. E ele brilha na tela com razão, já que não é em todo filme comercial que um homem aparece vestido de peruca e salto alto, cantando canções amorosas. A trilha sonora e o roteiro, ambos do musical original de Jonathan Larson são divertidos e se adaptam ao tom emocional da sessão. Um grande problema presente em Rent é sua duração, com mais de duas horas, coisa difícil de aguentar atualmente. Mas são duas horas que acabam valendo a pena no fim com tanta beleza provinda da vida difícil de Nova York. A fotografia sempre clara de Stephen Goldblatt é o caos emocional vivido, são cores duelando na tela, um duelo de vermelhos vivos, de amarelos brilhantes e verdes gritantes.

Rent não é apenas um musical, é um filme de luta. É uma luta constante para poder conseguir manter seu talento vivo. É uma luta para achar igualdade, para achar aceitação. É uma luta para poder sobreviver de qualquer modo, seja na doença, seja na sociedade. Uma luta que vale bastante a pena ser acompanhada pelos boêmios idealizadores que se encontram em cada vielas com um talento inaproveitado. O elenco, numa sintonia invejável para interpretar todas as músicas, faz parte do original apresentado na Broadway, com exceção de Rosario Dawson e Tracie Thoms. As vozes estão afinadas e as músicas são diálogos interessantes, pontes necessárias para o funcionamento de um todo. Rent é a personificação da essência humana que permanece jovem em se interessar pelos seus princípios, que não se cansa até conseguir o que pretende e é interessada, desbocada e inocente. É a castidade da bravura, é viver o hoje e, caso ele chegue, viver o amanhã também. Mas uma dica? Vejam o musical se tiverem chance, é preferível ao filme. E viva La Vie Bohème!

NOTA: 8

14 de setembro de 2011

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007)

Um filme de Tim Burton com Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Alan Rickman.

É clichê social tirar vantagem do próximo num momento de extremismo emocional. Está na essência humana, mascarada depois de vários e vários anos de moral externa e domesticadora. Depois dos instintos humanos terem sido condenados pela justiça cristã, eles ficaram enrustidos numa casca de pseudo bondade. E, nessa visão social de um homem amargurado que já sofreu a injustiça da moral e procura uma vingança dela, temos esse musical sombrio que se tornou uma grande surpresa. Não é mistério a parceria favorita de Tim Burton ser seu grande amigo Johnny Depp e sua esposa Helena Bonham Carter. E, nessa combinação do trio numa Londres fria e nada romântica junto à adaptação feita por Stephen Sondheim, temos nas mãos o tenso Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet.

Havia um barbeiro e sua esposa, e ela era linda... Um barbeiro tolo e sua esposa, ela era a razão de sua vida e ela era linda... Após o barbeiro Benjamin Barker (Johnny Depp) perder sua esposa e sua filha por meio do juiz Turpin (Alan Rickman), que a desejava e usou da justiça para tê-la, ele volta à Londres após 15 anos em exílio. Daí, a única coisa que ele procura é vingança contra aqueles que impediram sua felicidade e o transformaram num homem amargurado. Para completar seu plano de vingança, ele assume a personalidade de Sweeney Todd e pretende voltar a trabalhar na mesma barbearia que tinha antes de ser culpado por um crime que não tinha cometido. Mas o tempo passou, ele ouve boatos que a esposa morreu e que a filha está sob a guarda do juiz. Para o seu plano vingativo funcionar perfeitamente ele conta com a ajuda da sra. Lovett (Helena Bonham Carter), a dona do estabelecimento de tortas que fica debaixo da loja de Sweeney.

É um mundo cruel, onde as ruas gritam por piedade da natureza humana que consome a tudo e à todos. É uma justiça feita para poucos com base na injustiça que cai sobre muitos. O único modo de não ser pego é não ser visto, ficar quieto em casa sem ser notado. Aos poucos nos acostumamos com a ideia de uma Inglaterra vitoriana do século XIX, com navios zarpando, carruagens nas ruas, feiras em esquinas e uma ideia parca de moral e ética para os caminhos legais. Aos poucos nos acostumamos com a ideia de que os seres humanos não prestavam - e, assim, ainda chegamos à conclusão que nada mudou. A vingança despertou toda a podridão instintiva de um ser, que acaba desenvolvendo uma reação em cadeia e chacinando uma cidade inteira para poder cumprir seu dever. O superego já não acusa o homem de estar fazendo o errado, ele apenas retribui o que lhe foi dado com o mesmo rancor que lhe infligiram. E com uma paciência de Jó temos o roteiro de Sweeney Todd em mãos: um vingador que recebe ajuda, mas no fundo é um solitário e não sabe o peso de sua ira. Este musical podia muito bem ir parar nas mãos de Chan-Wook Park para um episódio da Trilogia da Vingança (Mr. Vingança; Oldboy; Lady Vingança), porque o barbeiro só conseguiu enxergar o tamanho de seu sentimento depois que o fogo tinha apagado. E de quem é a culpa de tamanha vingança? Culpe a sociedade cega.

Obviamente que a direção de arte não poderia ficar fora dessa ambientação primorosa. Burton primeiramente pensou em colocar os atores contracenando em frente a uma tela verde, mas viu que isso dificultaria a interação de atores para um gênero tão espontâneo quanto um musical. E quem diria que o cenário daria tão certo? As ruas cinzentas de Londres, combinando com toda a ambientação dos subúrbios da rua Fleet e a ralé do mundo que habita lá, como Johnny Depp canta com toda a frieza de seu personagem nos momentos iniciais do filme. Não há lugar como Londres. Ao mesmo tempo que a direção de arte de Dante Ferretti, que ganhou o Oscar da categoria em 2007 por este musical, usa do fetiche de Burton pelos cantos escuros das ruas sem nenhuma visão romântica, a fotografia encanta. Os tons cinzentos e negros de Dariusz Wolski combinam e contrastam com o fogo amarelo de uma fornalha ou com o sangue vermelho jorrando de cortes. Isso sem contar com a maquiagem pálida de personagens indiferentes, uma beleza para deixar o suspense no ar de uma vez por todas. Uma beleza que merece ser vista.

O filme inteiro cheira à Tim Burton. Com o estilo de seus personagens esquisitos e um roteiro não convencional como em outros de seus grandes filmes, ele constrói uma versão ainda mais densa do musical adaptado de Stephen Sondheim. Stephen Sondheim, aliás, é o responsável pela trilha sonora deliciosa de Sweeney Todd. Obviamente, quem já conhece a história até agora sabe que ela é contornada por tristeza e melancolia e que números excitantes como os que apareceram em Chicago ou em Moulin Rouge não são o enfoque desse conto de horror. Isso não muda o fato da beleza das canções. Ouvimos as vozes da escória humana saudando suas vidas desgraçadas ao público, e não se pode esperar nada além disso. Com vozes esganiçadas, transmitindo sofrimento, aguentamos e sentimos as quase 2 horas do filme nas vozes de Depp e Bonham Carter para adaptar canções sofridas que apareceram na Broadway.

Johnny Depp adiciona seu saldo de rancor cantando com uma voz rasgante e transbordando de ira, o que é bem perceptível em cada uma de suas músicas ou de suas cenas. Quando entra em cena, espere mesmo o barbeiro demoníaco, um homem frio que necessita de vingança. Não é a toa que sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar e o prêmio do Globo de Ouro. Helena Bonham Carter não fica atrás. Sua voz aguda rende bons momentos e ela sabe dialogar perfeitamente em suas canções com um tom que não cansa o espectador. Enquanto canta, ela mescla beijos, tapas, batidas e gritos em canções angelicais com letras horrendas. E sua força interpretativa é algo que palavras não descrevem sozinhas. Veja bem a sra. Lovett entrando em cena e entenda porque ela ganhou o Globo de Ouro junto com Depp. O elenco é primoroso, por mais que o foco se encontre no casal diabólico. Um Alan Rickman inspirado e resguardado mostra como a justiça era inexistente na época retratada. Os apaixonados Jamie Campbell Bower e Jayne Wisener não perdem a pose e trazem o mesmo tom para os personagens. Timothy Spall traz a rodada de sarcasmo num personagem secundário feito com intenções fortes. E, por fim, Ed Sanders vive seu personagem numa forte crença de Toby, o garoto faminto e sonhador, que se apega rapidamente a um lado inexistente da malvada fabricante de tortas.

Num tempo de musicais retratando amores corrompidos, brutos ou prestes à nascer, Sweeney Todd é algo fora do comum. Primeiramente, pelo toque sombrio de Burton, longe da atmosfera apaixonante. Deve ser uma ironia ver tamanha obscuridade se transformar numa paixão ainda mais forte por musicais. O filme prega pelo terror, pelo drama. E o musical se mescla a ambos em primeiro plano, com as músicas se adaptando a um ambiente e a um roteiro que sozinho já respira tragédia. Sweeney Todd é mais do que um musical de Tim Burton. É a ambientação de uma Inglaterra onde as pessoas comem as outras. Literalmente.

NOTA: 10

31 de maio de 2011

As Canções de Amor (2007)

Um filme de Christophe Honoré com Louis Garrel, Chiara Mastroianni e Clotilde Hesme.

Está na hora dos preconceitos serem abandonados. Quando uma forma de amor tão simples e tão natural é exposta, não se deve julgá-la. Algumas pessoas tentam promover a paz, mas como se faz isso quando elas próprias censuram o amor? A união homoafetiva está aí como uma simples prova disso. Se uma forma de amor é tratada com tanta intolerância, isso apenas comprova que o mundo não está preparado para uma coisa tão profunda quanto os sentimentos humanos. A falta de coerência em diálogos de desaprovação é vergonhosa. O amor não pode ser detido, enfim. Então, para se ver essa pérola de Christophe Honoré, o melhor a se fazer é abandonar os preconceitos e deixar o amor prevalecer em tamanhas situações cotidianas, porém apaixonantes.
As Canções de Amor é um musical simplista que mostra de forma ultrarromântica os altos e baixos de um relacionamento não tão comum em Paris. O casal é formado pelo jornalista Ismaël Benoliel (Louis Garrel) e por Julie Pommeraye (Ludivine Sagnier). A diferença está no terceiro elemento do grupo: a também jornalista Alice (Clotilde Hesme) participa desse triângulo amoroso. Ao mesmo tempo que a relação entre Ismaël e Julie esfria, Alice se torna cada vez mais dependente do amor dos dois. Porém, uma infeliz tragédia faz com que os valores amorosos do grupo sejam revistos.
Desde o começo o filme começa a mostrar qual o seu maior trunfo. Após uma discussão entre Ismaël e Julie, ele a surpreende na saída do cinema e começa a dialogar entre versos e estrofes cantadas. O apaixonante dialeto francês deixa o amor ainda maior quando as vozes dos atores saem e se complementam numa declaração amorosa. E se isso é apenas o início, só se pode esperar o melhor. Nas cenas seguintes vemos canções claras sobre as complicações do ménage à trois, uma discussão calorosa nas ruas parisienses, uma família que não se comunica e muito, mas muito amor recheando cada palavra. O que não é mostrado nas cenas para o público é mostrado nas canções, essenciais para o entendimento e não apenas uma alegoria a mais. Ver Ludivine Sagnier numa crise aguda de ciúmes, cantando com sua alma para Louis Garrel e Clotilde Hesme, isso é difícil de se resistir. E, cenas mais tarde, quando esse mesmo Louis Garrel canta um dueto com Grégoire Leprince-Ringuet, ele apresenta em versos líricos o contraste entre o início de um coração apaixonado, que começa a exaltar seus sentimentos, e um coração amargurado, que não suporta formas de amor que o relembram da dor da perda. É inegável que Alex Beaupain fez um trabalho magnífico em As Canções de Amor, e o elenco de atores-cantores não deixa as composições caírem na mesmice.
A obra inteira é dividida em três atos: a partida, a ausência e o regresso. Tudo se refere ao amor na vida do personagem Ismaël. A partida dos amores de sua vida, a quebra de sua ponte amorosa - numa referência à letra de uma música cantada pelo triângulo inteiro - e a não realização das fantasias de forma a se explorar todas as nuances de um romance tornaram o jornalista num homem infeliz. Ismaël é um romântico declarado, e nada menos justo para a construção de seu próprio personagem. A vida na cidade-luz é romântica o bastante para uma pessoa, a vida nessa mesma cidade com duas mulheres ao seu lado deve ser o auge da paixão para qualquer um. Depois de lidar com a insegurança do território desconhecido do sexo à três, Ismaël não consegue levar uma vida solitário. Ele precisa de amor como um carro precisa de combustível. Mas como arranjar amor ao mesmo tempo em que você o renega pelas lembranças? Enquanto ele é flertado assiduamente por Erwann (interpretado por Grégoire Leprince-Ringuet), a família de Julie não o deixa se esquecer de seu compromisso.
A luta entre passado e futuro é forte. O passado, interpretado por uma Chiara Mastroianni que interpreta, de forma cativante, Jeanne, a irmã de Julie, é forte. Não necessariamente moralista, por uma alusão ao tabu de um triângulo amoroso ser aceitado com tamanha facilidade, mas com sua própria visão da ética. É um conflito de mentalidades. O futuro, representado por Leprince-Ringuet, é uma alternativa para o aplacamento do sofrimento do pobre Ismaël. Já chega de sofrer por uma ausência, a busca dos personagens de Honoré é pela felicidade - por mais que essa não chegue no fim das contas. Enquanto a história apresenta seu desenlace para o espectador em mais baladas e menos agitação à medida que chegamos ao desfecho, acompanha-se a direção de Christophe Honoré aos poucos, como se ela fosse apenas um detalhe a menos ou a mais e não interferisse no todo. Mas interfere. As táticas de enquadramento e angulação fazem toda a diferença para a visão do espectador sobre determinada situação. Os atores trabalham em sincronia com essa direção essencial: o trio principal, composto por Sagnier, Hesme e o sempre competente Garrel está ótimo.
As Canções de Amor é um filme para se ver descompromissado, desde que você saiba amar. Isso já fica óbvio no título, mas aqui ele apresenta uma visão bem mais ampla do que apenas um relacionamento ordinário entre um homem e uma mulher que geralmente resulta numa comédia-romântica. O filme é um ensaio sobre o amor, não importando sexo, não importando moral. Esqueçam a lei de deus, esqueçam a lei dos homens, a prevalência aqui é apenas da paixão. O manifesto de Louis Garrel no fim prova isso. Não há dor que perdure tanto que não é apagada pelo choque de um novo amor. "Ama-me menos, mas ama-me por muito tempo". Faça-me chorar por nosso relacionamento, mas não me faça sofrer por tua ausência.
NOTA: 9

21 de maio de 2011

Across The Universe (2007)

Um filme de Julie Taymor com Jim Strugees, Evan Rachel Wood e Joe Anderson.

Quem acreditou que naquele dia 8 de dezembro de 1980 os Beatles estariam acabados para sempre, estava certo. Na realidade, antes disso, já que a harmonia entre os integrantes já não era a mesma e John Lennon já estava balançado em sua carreira graças à ativista Yoko Ono. A morte de Lennon apenas concretizou o que já estava fadado. Mas se alguém achou que eles seriam apenas mais uma banda a ser esquecida com o peso do tempo, cometeu um erro gravíssimo. Os Beatles viraram o grupo musical mais aclamado do mundo, e até hoje isso aparece. É surpreendente que, após 40 anos do fim dos Beatles, ainda haja uma massa de tributos artísticos a eles, se renovando a cada dia e fazendo novas versões para cada canção antiga.
Jude (Jim Strugees) é um adolescente inglês que vive em Liverpool, mas nunca conheceu o pai, que abandonou a mãe enquanto ela estava grávida. Jude parte para os EUA para procurar o pai e, ao entrar numa universidade, acaba conhecendo Max (Joe Anderson), um estudante rebelde que ainda é ligado às amarras da família controladora. Além disso, Jude acaba se apaixonando por Lucy (Evan Rachel Wood), a irmã de Max, que começa a se interessar pelos movimentos da contra-cultura hippie e protestar contra a Guerra do Vietnã.
O que mais se destaca nas esferas de Across The Universe é a forma com que a notável trilha sonora é interpretada a cada momento, se adaptando a diversas situações. Primeiramente, o elenco de atores-cantores faz com que ela funcione com versões populares para músicas famosas da banda de Liverpool. Ver, ao mesmo tempo, o competente Jim Strugees cantando a música homônima ao filme e Dana Fuchs, interpretando a cantora Sadie, gritando com seu coração os versos de Helter Skelter ao som de guitarras fortíssimas é algo avassalador, ainda mais com as imagens que se juntam às canções. E o que dizer de Hey Jude? All You Need Is Love? All My Loving? Até Bono Vox aparece na sessão cantando uma versão de I Am The Walrus. Porém, por mais que trilha sonora seja aquilo que move toda a sessão, também é aquilo que torna o filme fraco. O roteiro, que deveria adaptar as canções para as situações mostradas na tela, faz o inverso. Ele se constrói em cima das diversas músicas dos Beatles. Em alguns momentos, é até permitido se esquecer que existe uma estória no fundo, pois parece que o objetivo não é criar uma comparação com a trajetória da banda de rock ou então mostrar seus ideais, mas sim colocar o máximo de músicas possíveis em 130 minutos.
A emoção é transposta em cima das músicas e, sendo você um beatlemaníaco ou não, você acaba por se emocionar, seja com os sons, seja com as imagens. Uma pena que o clímax, ou onde ele deveria estar, acaba sendo desconexo das outras partes e que muitas canções assumam um tom mais videoclipe do que filme. O roteiro faz uma ligação direta com a história dos Beatles e ela aparece de um modo ou de outro. Quem não viu o auge da psicodelia e do uso de drogas nos anos 70 na mistura de cores e sensações, na vida alternativa, na composição de imagens distorcidas e supersaturadas? Quem não se sentiu voltando ao tempo, quando viu o movimento hippie lutando por causas pacíficas na tela do cinema? Quem não viu os horrores da Guerra do Vietnã afetando, por mais que indiretamente, o padrão de vida americano, espalhando medo no mundo? Quem não viu um espírito de revolução surgindo de uma ideia? E havia uma maneira melhor de acabar com a obra do que com um show interrompido no telhado, remetendo à última apresentação dos Beatles? Jim Strugees e Evan Rachel Wood tem uma química deliciosa de se ver e o resto do elenco se segura nas atuações, por mais que alguns caiam.
Sinceramente? Talvez Across The Universe seja um filme desnecessário em sua maioria, ao tentar adaptar uma história inteira de amor para colocar a carreira dos Beatles nela. Mas funciona em algumas cenas, que conseguem mesmo demonstrar um sentimento escondido atrás de tanta revolta e de tanto precípite. E, além de tudo, ainda serve como uma homenagem extremamente bem feita sonoramente. O tamanho do filme também dificulta, prender a atenção do público por mais de duas horas sem clareza na filmagem e com um bombardeio de ideia é difícil. Entretanto, os Beatles merecem essa homenagem, assim como muitas outras que certamente virão para essa banda que se tornou mais popular do que Jesus Cristo.
NOTA: 7

3 de abril de 2011

Chicago (2002)

Um filme de Rob Marshall com Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones e Richard Gere.

Bem vindos a um retrato irônico da sociedade atual. A crescente onda de violência no mundo está aqui arraigada no lado de criminosas que almejam apenas uma coisa: fama. Se a liberdade vier com isso, melhor. Nem sempre o reconhecimento vem seguido de uma arte, de uma consequência de um trabalho árduo, a não ser que homicida seja uma profissão a partir de agora. E o desejo aqui não é calado. Desde o começo, Chicago mostra uma obsessão na fama, no brilho e no glamour. Seus personagens querem ser vistos, não importando a façanha. A combinação entre essas pessoas, uma peça famosa dos anos 70, bom humor e um ritmo envolvente de jazz em meio ao alegre ambiente de vedetes resulta numa experiência musical única, vista pouquíssimas vezes nos últimos anos.
Roxie Hart (Renée Zellweger) é uma ex-corista que faria tudo para ver seu nome brilhando em manchetes e em letreiros, já que seu sonho é a fama adquirida por meio de seu estrelato no showbiz. Ela é capaz de cometer adultério compulsivamente para se igualar a seu ídolo, a famosa vedete Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que acaba com seus shows após matar a irmã e o marido. Quando Roxie vê que seu amante não ajuda seu desejo a se realizar, ela o mata e vai parar na prisão feminina, onde encontra Velma. A hierarquia da cadeia é fácil de ser entendida, já que Mama Morton (Queen Latifah), a corrupta diretora da prisão, estabelece logo o lugar de cada uma. Roxie percebe que a única chance de sair é comprando Mama Morton para que ela lhe consiga Billy Flynn (Richard Gere), o advogado que promove as assassinas e as torna em queridinhas da mídia.
A promoção de crimes se torna um fator importante para o bom funcionamento do musical. Em certa cena a personagem de Queen Latifah diz que, em Chicago, crime é entretenimento. O sarcasmo que exala das cenas seguintes confirma isso. Com um bom humor, o personagem de Richard Gere trata todo o espetáculo da mídia e do julgamento como um ato de circo, de modo que, por mais que as assassinas não apareçam mais na mídia após os julgamentos, ele sempre se sobressaia e continue em alta no mercado graças a sua promoção em cada caso que leva. A inteligência de Billy é um contraste com a sede de Roxie. Após matar o amante e aparecer nas capas de jornais, ela percebe que seu sonho se realizou. Não do modo que planejava, mas o resultado foi o mesmo. E assim que viu seu nome sendo falado por toda a cidade, ela não quer mais voltar atrás como a menina ordinária e sonhadora. Assim que pega uma fatia, Roxie deseja agora o bolo inteiro. A diversão se confirma nos números seguintes. Na cena em que Billy se mostra um ventríloquo e Roxie, junto com os repórteres, se mostram as marionetes, o sarcasmo se firma numa autopromoção feita a partir da "indústria" criminalística, que cria uma nova "atração" para o mundo a cada homicídio.
Tudo de Chicago é deslumbrante, mas há alguns problemas em sua execução para o cinema. A peça da Broadway se tornou uma peça da Miramax, já que Chicago se mostra mais teatral do que cinematográfico durante suas quase 2 horas. Isso não se torna um problema no geral, já que é até agradável para o espectador que vai ao cinema para ver o filme brilhante ganhador de 6 Oscar. Mas com brilhante eu não digo que é genial, mas que ele brilha. Tudo dentro do filme brilha, - os cenários variados entre uma casa de shows especializada e uma penitenciária feminina, as roupas que mostram o máximo possível das principais dançarinas, as músicas que se encaixam no tom irônico trazido pelo longa - mas alguns aspectos conseguem retirar o êxito obtido por essa obra criminosa.
Se o filme fosse apenas um drama, talvez Renée Zellweger teria se sobressaído em sua atuação composta apenas por caras e bocas variadas e uma ingenuidade até engraçada para o funcionamento da trama. Mas, como o filme é um musical e a protagonista é a desengonçada Zellweger, não há muito aproveitamento nas cenas em que ela aparece cantando e dançando. Catherine Zeta-Jones se mostra perfeita durante o filme, que acaba se tornando um show para ela mesma, no auge de seu talento e de sua força, mostrando sua técnica para dança e canto numa oposição drástica à Renée. Nas cenas em que ambas aparecem juntas e dançando, é difícil olhar para Zellweger com uma Zeta-Jones possuída pela espírito do jazz logo a seu lado. A cena que mostra bem isso é onde Velma, personagem de Catherine, canta I Can't Do It Alone, onde faz uma apresentação solo e mostra que sim, ela consegue fazer isso sozinha. John C. Reilly se mostra um peso para a parte musical do filme, mas isso faz sentido por ele ser o corno sem-jeito, sua falta de talento e excessivo carisma são críveis. Queen Latifah se mostra com boa presença, mas muito mal aproveitada na parte em que deveria. É difícil classificar Richard Gere em algum lugar. Ele é canastrão demais para apenas uma drama, mas estereotipado demais para um musical descontraído. Em toda a cena que ele aparecia, em meio a sapateado e canto, ele me parecia bastante fora da atmosfera do filme.
Após o sucesso estrondoso de Moulin Rouge no mundo, os musicais voltaram à ativa. Reciclando uma peça de fama inegável da Broadway e a reproduzindo nas telas imensas com um elenco de peso e uma teatralidade e canastrice ainda maior na representação de cenas e personagens, Chicago confirma a premissa de que os musicais voltaram. Não com tanta força para ecoarem com o mesmo sucesso da volta, - os fracassados Nine e Burlesque provam que nem essas duas pérolas do início do século conseguem reviver a aura do vaudeville por muito tempo - mas o bastante para divertir um público faminto por qualquer fonte de entretenimento, vindo ela de músicas animadas, coreografias bem boladas, um elenco de peso e um visual remetendo ao cabaret; ou de assassinatos autopromotores.
NOTA: 8

6 de novembro de 2010

The Rocky Horror Picture Show (1975)

Um filme de Jim Sharman com Susan Sarandon e Tim Curry.

Se você topa filmes trash, esse é obrigatório para você. Um filme B musicado com comédia, sátiras ao terror e uma pornografia não tão explícita, isso é divertidíssimo se juntasse em um único filme, e é o que ocorreu em Rocky Horror. Um clássico dos vários filmes trash que são cultuados atualmente cujo ponto alto é o sarcasmo em se tratando de outros filmes do gênero. Os desmaios constantes de Janet Weiss, o castelo imenso e assustador, um carro que se quebra no meio do nada, a chegada dos visitantes no dia mais decisivo e o filme quebra todo o clichê utilizado com seus personagens estereotipados ao extremo e com um travesti no lugar do cientista louco, além das músicas com alto teor sexual.
Brad Majors (Barry Bostwick) acaba de se tornar noivo de Janet Weiss (Susan Sarandon) e a única coisa que eles têm de fazer para confirmar o noivado é contar a novidade para o doutor que os apresentou. Porém, no caminho, o carro deles quebra e eles não veem outra alternativa senão entrar num castelo imenso e pedir para usar o telefone. Mas eles não sabem que aquele é o castelo do doutor Frank-N-Further (Tim Curry), um travesti cientista que veio do planeta Transsexual e que está comemorando sua mais nova invenção: Rocky (Peter Hinwood), uma criatura musculosa criada apenas para dar prazer ao alienígena.
Como falado anteriormente, o sarcasmo é o melhor do filme. De pornô, o filme te deixa com tesão no máximo. De terror, apenas a maquiagem, que é facilmente driblada após as atuações. De musical, pouco, pois vamos admitir que Tim Curry e Susan Sarandon não são as pessoas mais afinadas do mundo. O que ganha no filme é a comédia por acabar com todos esses gêneros através de um roteiro que explora o máximo dos estereotipos. As atuações do filme são boas. Tim Curry está fantástico, ele entrou mesmo no personagem. Acho que conseguiu andar melhor de salto-alto do que minha mãe. Susan Sarandon é outro show no começo de carreira. O resto fica por conta do roteiro altamente irônico e divertido, criado por Richard O' Brien, recheado com bizarrices que, realmente, só poderiam ter vindo de outro planeta.
Fala sério mesmo? ETs transsexuais, criadas de cabelo rosa com voz de Cindy Lauper, uma sátira a filmes de terror, musicais e policiais (a cena onde o investigador ensina você a dançar o Time Warp só pode ser definida assim), perseguições com lasers, danças de cabaret numa piscina e canções com alto apelo erótico. Rocky Horror é um filme divertidíssimo de tão mal feito que te faz perguntar como ele consegue dar certo, desde seu começo com uma música metalinguística do filme cantada por lábios bastante maquiados. Entre cenas de um banquete sobre o corpo de um motociclista morto e de Susan Sarandon cantando "toque, toque, toque, toque-me, pois eu quero ser suja" sem ritmo qualquer, achamos aí a graça nesse clássico do... terror? Comédia? Musical? De um cinema altamente satírico.
NOTA: 8

21 de setembro de 2010

Nine (2009)

Um filme de Rob Marshall com Daniel Day-Lewis, Kate Hudson, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench e Marion Cotillard.

Musicais são lindos quando bem cantados. Nine é um musical que beira entre a essência do cabaret francês com um pop chiclete de hoje em dia, com vozes bonitas como a de Fergie e de Marion Cotillard, e outras nem tão bonitas mas que ficam na cabeça, como a de Kate Hudson. E mesmo com esses altos e baixos tão distintos, é um ótimo musical, com belos figurinos, fotografias, coreografias e trilha sonora. Porém não achei a história tão bem trabalhada. Por tentar colocar explicações em formas de lembranças dentro das músicas, comprometeu um pouco com o andamento da história ao invés de experimentar uma onda inovadora. Além do mais, embora com esse elenco perfeito, muitos personagens beiram o clichê total que estraga atuações fácil, fácil.
Nine é a história de Guido Contini (Daniel Day-Lewis), um cineasta que já passou de sua época de sucesso e cujos últimos filmes fracassaram na indústria cinematográfica italiana. Porém, querendo burlar o destino, ele começa a promover freneticamente seu próximo filme, Italia. Mas ele tem um bloqueio e não consegue escrever, pois começa a entrar numa crise existencial graças as várias mulheres de sua vida, como sua falecida mãe (Sophia Loren), sua esposa Luisa Contini (Marion Cotillard) e sua amante Carla Albanese (Penélope Cruz).
A trilha sonora é cheia de vozes femininas, vemos que quando Daniel Day-Lewis canta no seu ápice dramático algo que foi criado no filme é quebrado pela voz grossa dele. Mas no geral, são músicas boas. Vemos toda a intenção que Marion Cotillard canta em seus dois solos. Sophia Loren canta belíssimamente, mas com intenções demais, tornando sua canção escrachadamente bonita. As outras músicas são bonitas a seu modo. Judi Dench cantando igual uma cafetina sobre Folies Bergère e Fergie com sua magia sobre ser italiano. E, claro, Kate Hudson exalando toda a sensualidade e fúria de uma modelo em preto e branco "Contini is Cinema Italiano".
Adorei Marion Cotillard, além de ter uma linda voz, é uma ótima atriz. Ficou perfeita. Sophia Loren e Judi Dench também estavam ótimas, mais Judi que Sophia. Gostaria de ter visto mais um pouco de Fergie e da Nicole Kidman, elas conseguiram me convencer no pouco que apareceram. Tentei mesmo gostar de Daniel Day-Lewis e Kate Hudson, mas os personagens deles não me convenceram hora alguma, talvez por serem demais estereotipados em filmes de comédia. Aconteceu o mesmo com Penélope Cruz, mas o fim de sua atuação também foi o cume dela. O roteiro se perdeu em meio a tantas músicas, a tanto brilho, a tantas cores e a tantas lembranças.
Durante todos os sotaques arrastados, os figurinos apertados e a canções tristes e animadas, Nine só consegue passar uma coisa com seu roteiro esquecido: como ser italiano é uma canalhice sem fim, cuja sina é magoar todos ao redor. Com toda certeza eles queriam passar mais, isso eu não tenho dúvida. Mas se você faz um musical, é importante se focar na história mais do que nas músicas. Adoro musicais bem cantados quando você vê que eles desenlaçam uma história, não a complicam.
NOTA: 6

20 de junho de 2010

The Runaways (2010)

Um filme com Kristen Stewart e Dakota Fanning.

The Runaways foi muito difícil de ser avaliado pelo simples motivo que aparece no pôster acima: "é 1975 e elas estão quase explodindo". The Runaways é um filme feito em 2010 retratando o ano em que o rock 'n roll estava no seu auge: homens maquiados e usando saltos-altos e cantando heavy metal, David Bowie estava no ápice da carreira, a atitude rebelde e inconsequente e as frases feitas para se criar uma superioridade e indiferença, as drogas em todo o lugar e todas as frases referentes a orgias e orgasmos. Isso tudo em 1970 era a chave para o sucesso. Hoje em dia é muito clichê. E para se ver The Runaways o clichê tem que ficar de lado e todas as atitudes rock star tem que estar na frente.
Cherie Currie (Dakota Fanning), uma garota de 15 dos anos 70 que curte o rock bastante, faz uma apresentação na escola vestida de David Bowie, mas seus colegas não conseguem apreciar o modo revolucionário da garota e a vaiam. No dia seguinte, enquanto Cherie está num bar, ela conhece Kim Fowley (Michael Shannon), um produtor que a apresenta a Joan Jett (Kristen Stewart), uma guitarrista a procura de uma vocalista para sua banda. E assim começa as The Runaways, uma das primeiras bandas só de mulheres num mundo totalmente machista, que explodiram com sucessos como "Cherry Bomb" e "I Wanna Be Where The Boys Are".
A trilha sonora é ótima, já vale pelo filme. Varia desde Suzi Quatro, que pelo modo parece a favorita de Joan Jett, até os grandes sucessos do Joan Jett And The Blackhearts. Isso passando por vários sucessos de David Bowie, Peggy Lee, Iggy & The Stooges e, é claro, The Runaways. E o filme ainda nos delicia com versões cantadas pelas próprias Dakota Fanning e Kristen Stewart. A atuação fica ótima, ainda mais se você está acostumado com a Kristen Stewart sem graça e sem emoções da série Crepúsculo. Ela foi ótima, sua atitude rebelde promoveu os melhores momentos durante o filme. Dakota Fanning também esteve impecável, encarnou uma ótima Cherie Currie. O resto das atuações tiveram seus altos e baixos, algumas me chamaram a atenção e outras ficam num nível mediano, mas nenhuma pode ser considerada ruim.
A história, bem, é verídica. Pelo menos na visão de Cherie Currie, pelo que eu entendi do filme. E retrata muitíssimo bem a era do caos que se ergueu pelo mundo nos anos 70, graças ao advento do rock. A maquiagem e o figurino ficaram excelentes, eu vi Joan Jett em Kristen Stewart quando o filme estava perto do fim. E não acho que alguma outra atriz, por mais excelente que seja, consiga interpretar Cherie Currie tão bem quanto Dakota Fanning. A fotografia ficou excelente em várias partes do filme. Mas os diálogos para mim foram o ponto fraco, isso porque eu continuo enxergando os diálogos como parte do século 21 e não de meados do século 20. Eu realmente não consegui achar alguma beleza nas filosofias de bêbado de Kim Fowley, onde orgasmos, paus, sexo e orgias eram jargões de suas frases.
The Runaways é grande porque é verdadeiro. Eu não sei se todas as garotas da banda viveram toda aquela pressão, eu não sei o que é verdade ou o que é mentira do filme, mas tudo me soou tão real que eu me senti uma criança ingênua, acreditando em tudo que falavam na tela. Minto, não tudo. No começo foi difícil de me acostumar com o modo de Joan Jett e eu não me convenci por nada que o homem da rádio falou no fim, mas me convenceu durante a maior parte do filme e me fez ver a beleza de uma das milhares de bandas de rock que ficaram famosas em anos em que minha mãe nem sonhava em ter filhos.
NOTA: 7

21 de abril de 2010

Dançando No Escuro (2000)

Um filme de Lars Von Trier com Björk e Catherine Deneuve.

Semana Lars Von Trier, rs. Acho que depois do fracasso que foi Anticristo para mim, eu queria mostrar que Lars Von Trier não faz apenas filmes merdinhas, então eu peguei alguns dos melhores dele. Acho que Dançando No Escuro salva sua imagem depois de Anticristo, e é o filme certo para se começar a gostar de Von Trier, que tem um modo de filmagem brilhante e casual, além daqueles cortes durante o filme de uma cena para outra, características certeiras do seu Dogma 95.
Selma (Björk) é um tcheca apaixonada por musicais com problemas de vista genéticos. Quando ela tem um filho e sabe que ele terá os mesmos problemas que ela, ela decide tratá-lo numa clínica dos Estados Unidos. Quando ela se muda pra lá, ela arruma um emprego, onde trabalha por dois turnos para poder pagar a cirurgia de seu filho. Seus vizinhos, sua colega de trabalho Kathy (Catherine Deneuve) e seu quase-namorado Jeff (Pater Stormare) a ajudam, mas quando seu vizinho Bill (David Morse) rouba o dinheiro que ela economiza, isso causa uma reviravolta na vida de Selma.
A história é bem bonita no papel. Quase me faz chorar lendo-a. Mas quando se passa para um filme, e esse filme é um musical, é meio que impossível chorar. Tente chorar com Björk cantando com obreiros no meio de uma cena admitindo que está cega. Ou se emocionar durante um assassinato quando o morto ressucita e ele e Björk começam a dançar. Eu queria falar da cena final, mas eu ia estragar o filme, e eu não quero isso, mas foi um dos finais mais bonitos que eu já vi. Foi onde eu quase me emocionei, se não fosse as canções excêntricas de Selma.
A atuação fica ótima na parte da protagonista. Eu vejo milhões de pessoas dizendo que não esperavam que Björk atuasse tão bem assim, e mimimi. Bem, no começo a atuação da excêntrica cantora está mais para uma autista do que de uma cega. E é assim que ela deve parecer para conseguir descarregar toda a emoção no fim. A atuação de Björk cria um envolvimento necessário com o espectador. O modo que Lars Von Trier filma é único, o filme é bom para se observar isso. A trilha sonora, composta por Björk, é belíssima. Embora as letras não sejam o mais poético que eu posso imaginar, podem ser comparadas as letras excêntricas da islandesa. A fotografia é belíssima, o figurino também.
Embora uma excelente cantora e um nomeadíssimo diretor tenham se juntado para fazer um drama, o filme virou um musical. Algumas cenas são bem forçadas, e juntos a fraquíssima atuação do filme, se tornam bem maçantes e amadoras. E como é feito por dois ícones da cultura alternativa, virou um filme supervalorizado, assim como Volver. Belo filme, mas não merece todo esse crédito.
NOTA: 7