Um filme de Frank Darabont com Thomas Jane, Marcia Gay Harden e Laurie Holden.
O homem gosta de viver uma vida falsa. Tão falsa que raramente ele vive, ele apenas finge. Nietzsche chamaria um homem que realmente vive de super-homem. O resto é tão afundado na própria mentira que não consegue mais distinguir a vida da influência externa. E é exatamente nesse ponto, na falta de uma influência externa, na falta do que fingir, que o homem realmente revela sua essência: somos todos animais, até irracionais, buscando por sobrevivência. Foi o que Buñuel fez em seu filme O Anjo Exterminador; foi o que Saramago fez e foi adaptado aos cinemas por Fernando Meirelles em Ensaio Sobre a Cegueira; e é o que Stephen King fez nesse seu conto de terror, muito bem adaptado por Frank Darabont. Mas o terror do filme não fica por conta do desconhecido ou de monstros. Apenas da humanidade.
Numa noite, na cidade do Maine, ocorre uma forte tempestade que derruba árvores e destrói casas. No dia seguinte David Drayton (Thomas Jane), um artista local; seu filho Billy (Nathan Gamble); e seu vizinho Brent Norton (Andre Braugher) vão até o mercado para conseguirem suprimentos caso a tempestade volte. Porém, no mercado as as coisas começam a desandar: a névoa que surgiu após a tempestade tomou conta da cidade e, aparentemente, há algo estranho e mortal dentro dela. Mas, à medida que o tempo passa, o perigo passa a existir tanto fora quanto dentro do mercado.
A convivência com o desconhecido, com as mesmas situações, as mesmas circunstâncias, sem nenhuma previsão de mudança, tudo isso é bastante para enlouquecer alguém. É o bastante para o homem mostrar sua verdadeira essência, sua verdadeira face. O ser-humano é um animal racional até se deparar com o irracional. Então ele perde toda a sua distinção entre um animal. Há de se perder a cabeça e enlouquecer, há quem não aguente e tente se suicidar e há todos aqueles pecadores, que após uma vida inteira de infâmias e maldades, decidem se redimir de última hora. Afinal, para que garantir o plano terrestre se ele já está perdido? E é nesse ponto que O Nevoeiro entra e esse se torna um lugar-comum. Enquanto a religião está em primeiro plano, o estranho nevoeiro se torna apenas um problema qualquer. Enfrentar pessoas alienadas é a verdadeira dificuldade. O extremismo religioso é o verdadeiro monstro do nevoeiro, a verdadeira face de todas as almas perdidas. Quando você se encontra num estado de desespero, você agarra qualquer coisa que possa te tirar daí, nem que isso envolva o mal alheio. Qual é essa crença num plano superior de bondade, mas na fé de um Deus que castiga e pune?
Quando pessoas de diferentes opiniões ficam no mesmo ambiente por dias, é possível uma paz? A própria política mundial prova que não. Ateus se dividem, infiéis somem e apenas os verdadeiros crentes sobrevivem. Qualquer coisa é possível para acabar com a falta de fé e alimentar as esperanças no Deus punidor do judaísmo. A bíblia, sendo seguida ao pé da letra, dizima uma sociedade mais do que um nevoeiro propriamente. A fé cega é a resposta mais fácil para se resolver problemas além do que a própria ciência pode explicar - e esse é um dos poucos erros do filme. Numa sociedade como a de hoje, onde todos exigem uma explicação para o que acontece, os melhores filmes do gênero terror só conseguem tal façanha se deixam a ambiguidade do que realmente ocorre no ar. Não se pode dizer ou comprovar por meio de outras realidades se criaturas mutantes ou demônios realmente existem, é bem mais fácil colocá-los ao público, que irá se assustar devido ao tamanho de sua crença pessoal. Por algum motivo, essa realidade sobrenatural funciona bem melhor nos livros de Stephen King do que nas diversas adaptações de suas obras.
Sobreviver dentro é difícil, sobreviver fora é impossível. Por mais que O Nevoeiro consiga fornecer explicações falhas para os céticos de plantão com desculpas em experimentos militares, o visual do filme é ótimo. Os efeitos visuais não falham na criação de aberrações que se assemelham a animais, isso sem revelar muito do que se esconde por detrás do nevoeiro. A névoa esconde tudo e está ali, aterrorizante, em cada cena. A atuação da obra fica na mão de Thomas Jane, que consegue criar uma imagem agradável no longa-metragem, mas nada que deixe o longa mais convincente. Sua dolorosa interpretação beira muito mais um drama do que um terror, propriamente dito. Mas as partes onde ele se depara com o significado de uma relação familiar, elas são valorosas. Andre Braugher consegue ser melhor. Em poucas falas, ele atinge o lado da racionalidade e já mostra para o que veio, com um diálogo fácil. A atuação feminina se sobressai. Laurie Holden, que interpreta Amanda, está boa. É uma pena não vê-la tanto no longa. A verdadeira antagonista - não, não o nevoeiro - é Marcia Gay Holden, e de longe a melhor atuação do filme. Ela, que interpreta a extremamente religiosa senhora Carmody, é carismática o bastante para convencer o espectador a se ajoelhar e rezar na sessão, além de sempre manter seu olhar fixo, gerando uma imagem de lunatismo e medo.
Após aproximadamente duas horas, O Nevoeiro mostra para que veio. Não apenas para assustar em certas cenas ou então para passar uma mensagem no fim. Para mostrar o quão tênue é a linha da sociedade, do comportamento social, e o quanto tudo isso é mutável pelo medo do desconhecido. Não se pode dizer o que ocorre na mente de uma pessoa insana depois de tantos traumas. E não se pode dizer o quão depressivo é ver a sanidade chegar numa mente traumatizada. Afinal, depois que o nevoeiro cega e tira o que resta de humano, a visão volta. Mas só se vê fumaça.
NOTA: 8
7 de julho de 2011
4 de julho de 2011
Abraços Partidos (2009)
Um filme de Pedro Almodóvar com Penélope Cruz, Lluís Homar e Blanca Portillo.
Uma paixão inicial. Outra paixão, mas dessa vez proibida. Intrigas, ciúmes, traições, sonhos, promessas. O homem acaba consumindo os outros por sua doença amorosa e seus trágicos sintomas. Tragédia. E vida. A vida simplesmente continua, com resquícios do que ficou, com saudades do que passou, com ânsia e ansiedade pelo que virá. Continua, se agarrando ao que restou para não admitir a si mesmo como a vida não consegue seguir sozinha, uma vez que ela já tinha se unido. É uma fórmula que vem sendo usada em adultérios, em perdas, em melancolia e tristeza. A diferenciação de Almodóvar aqui não é o roteiro, mas a beleza única de cada cena. O filme certamente tem uma veia muito mais dramática do que realista, assim como qualquer outro filme do diretor espanhol. E isso não é problema. É cinema.
Diego (Tamar Novas) é filho de Judit García (Blanca Portillo), a diretora de produção do cineasta cego Harry Caine (Lluís Homar). Quando Judit viaja e deixa seu filho com Harry, o menino sofre um acidente na boate onde trabalha. Quando Harry vai socorrê-lo, Diego começa a indagar sobre o passado do diretor. A partir daí, Harry começa com suas lembranças e explica ao garoto que o nome dele de verdade é Mateo Blanco e que teve um passado conturbado com o milionário Ernesto Martel (José Luiz Gómez) e com a aspirante à atriz Lena (Penélope Cruz). No tempo presente, o filho de Ernesto, Ray X (Rubén Ochandiano) procura Harry para fazer um filme autobiográfico.
As paixões ilícitas surgem a cada cena para contrastar com o ambiente criado. Uma fotografia que acompanha as cores contrastantes de Almodóvar. No filme, um vermelho não pode ser morto. A obra deve viver não só por atores representarem uma situação, mas por tudo no cenário estar vivo e interagindo a cada momento com os artistas. E o diretor sabe fazer um mise en scène como ninguém mais, o que mostra nessa obra extremamente metalinguística. Mas aqui a arte de se fazer um filme não é tratada com interação com o espectador, mas com personagens. É o clássico filme dentro de um filme, um Almodóvar dentro de um Almodóvar. A atuação é correta e segura o filme, até o eleva para patamares bem maiores já que ele começa a alternar entre a descontração romântica e um drama asfixiante. Penélope Cruz rouba a cena quando aparece. Já não basta sua beleza, sua atuação ainda combina para colocá-la em seu posto de musa. Seus risos e sua caracterização são verdadeiros o bastante até quando beiram o artificial, suas lágrimas e suas expressões conseguem atrair o público até o rosto de cruz e ter um foco nela para codificar as diversas situações que são jogadas na tela sem uma ordem cronológica, sem um ritmo específico. As imagens vistas no trailer de Abraços Partidos já são o bastante para demonstrar isso: Penélope entra numa sala e, ao ser focalizada ao fundo, desvia a atenção do que ainda acontece no primeiro plano com seus gestos e sua narração.
Penélope apresenta mais um trabalho excelente, mas é incompleto apenas falar sobre ela. Blanca Portillo, por menos que apareça no filme, ainda tem uma participação importante. E marca isso com uma força de interpretação imensa. Lluís Homar é o motor principal do filme e consegue criar uma atmosfera respeitosa em seu papel, o que o caráter de seu personagem pede. Sua voz é vigorosa ao mesmo tempo que não atinge autoritariedade o bastante para ser odiado. José Luiz Gómez e Rubén Ochandiano convencem, cada um em seu papel, exalando uma raiva que é constatada em movimentos diferentes. Enquanto um utiliza o ódio graças ao poder material que exerce nas pessoas, - e constrói isso bem em cena - o outro usa trejeitos mais estereotipados para conseguir exprimir o rancor. Além do tudo, o filme ainda possui uma fotografia belíssima que deixa a obra ainda mais viva, mérito de Rodrigo Prieto. Abraços Partidos se torna um filme sob medida, fazendo uma homenagem silenciosa e dramática sobre o cinema. Mas, obviamente, é preciso exagerar em alguns pontos para criar o diferencial. O excesso de melodrama acaba tomando conta das telas e isso, consequentemente, acaba tornando o que deveria ser verdadeiro em superficial.
A trilha sonora é um fator importante no filme. Feita por Alberto Iglesias, ela faz mais do que acompanhar cenas. Ela narra a melancolia. Ela celebra um romance. Ela dialoga com os personagens pensativos e ela acompanha os que tomam drásticas decisões. No ápice do filme, entra em cena uma canção tocada no violão num ritmo que se assemelha a uma balada. É a mesma música que aparece na divulgação do filme, Werewolf da cantora Cat Power. E os versos da cantora são uma descrição perfeita do que virá a seguir na cenas. Ou então do que já foi visto, já que a interrupção da cronologia causa esse efeito de déjà vu. Ninguém sabe o quanto eu amei o homem lobo, enquanto eu rasgava suas roupas, canta a intérprete. Enquanto isso, a paixão ardente entre Lena e, até então, Mateo é mostrada em cena. A distinção dos amores de Lena é feita com motivações o bastante para ninguém condená-la por adultério. A paixão só não parece verdadeira para os personagens, ninguém sabe o quanto ela ama o homem lobo. O lobisomem, o lobisomem tem compaixão assim como você e eu, completa. O caráter de cada um se torna o alvo da crítica. Depois de sua própria transformação em lobisomem, Mateo Blanco não abandona seu amor após virar Harry Caine. Não abandona a bela moça por quem se apaixonou, não abandona sua paixão pelos filmes. É um cinema altamente passional, sem ser influenciado por fatores externos, apenas pelo que realmente faz cinema. Eu vi o lobisomem, e o lobisomem estava chorando, ela termina em sua voz tão melancólica quanto o filme em si.
Um filme precisa ser feito, ainda que às cegas. Abraços Partidos é a transformação agindo sobre a superação. É simplesmente a válvula de escape. Não se pode esperar algo simples e fácil depois que se perde aquilo que se ama. E é o amor o principal questionamento do filme. A importância tachada às coisas permanece a mesma em vida e morte. Harry Caine é o amor controlado, é a paixão ardorosa. Mateo Blanco é o amor instável. E a vida não precisa de uma metamorfose tão extrema para provar que amor ainda é amor. E aqui o que importa é o amor de Mateo Blanco por Lena, o amor de Harry Caine por seu filme incompleto e o amor de Almodóvar pelo cinema. Um amor abstrato, não material. Um amor transformado, mas o mesmo amor no fim das contas.
NOTA: 9
Uma paixão inicial. Outra paixão, mas dessa vez proibida. Intrigas, ciúmes, traições, sonhos, promessas. O homem acaba consumindo os outros por sua doença amorosa e seus trágicos sintomas. Tragédia. E vida. A vida simplesmente continua, com resquícios do que ficou, com saudades do que passou, com ânsia e ansiedade pelo que virá. Continua, se agarrando ao que restou para não admitir a si mesmo como a vida não consegue seguir sozinha, uma vez que ela já tinha se unido. É uma fórmula que vem sendo usada em adultérios, em perdas, em melancolia e tristeza. A diferenciação de Almodóvar aqui não é o roteiro, mas a beleza única de cada cena. O filme certamente tem uma veia muito mais dramática do que realista, assim como qualquer outro filme do diretor espanhol. E isso não é problema. É cinema.
Diego (Tamar Novas) é filho de Judit García (Blanca Portillo), a diretora de produção do cineasta cego Harry Caine (Lluís Homar). Quando Judit viaja e deixa seu filho com Harry, o menino sofre um acidente na boate onde trabalha. Quando Harry vai socorrê-lo, Diego começa a indagar sobre o passado do diretor. A partir daí, Harry começa com suas lembranças e explica ao garoto que o nome dele de verdade é Mateo Blanco e que teve um passado conturbado com o milionário Ernesto Martel (José Luiz Gómez) e com a aspirante à atriz Lena (Penélope Cruz). No tempo presente, o filho de Ernesto, Ray X (Rubén Ochandiano) procura Harry para fazer um filme autobiográfico.
As paixões ilícitas surgem a cada cena para contrastar com o ambiente criado. Uma fotografia que acompanha as cores contrastantes de Almodóvar. No filme, um vermelho não pode ser morto. A obra deve viver não só por atores representarem uma situação, mas por tudo no cenário estar vivo e interagindo a cada momento com os artistas. E o diretor sabe fazer um mise en scène como ninguém mais, o que mostra nessa obra extremamente metalinguística. Mas aqui a arte de se fazer um filme não é tratada com interação com o espectador, mas com personagens. É o clássico filme dentro de um filme, um Almodóvar dentro de um Almodóvar. A atuação é correta e segura o filme, até o eleva para patamares bem maiores já que ele começa a alternar entre a descontração romântica e um drama asfixiante. Penélope Cruz rouba a cena quando aparece. Já não basta sua beleza, sua atuação ainda combina para colocá-la em seu posto de musa. Seus risos e sua caracterização são verdadeiros o bastante até quando beiram o artificial, suas lágrimas e suas expressões conseguem atrair o público até o rosto de cruz e ter um foco nela para codificar as diversas situações que são jogadas na tela sem uma ordem cronológica, sem um ritmo específico. As imagens vistas no trailer de Abraços Partidos já são o bastante para demonstrar isso: Penélope entra numa sala e, ao ser focalizada ao fundo, desvia a atenção do que ainda acontece no primeiro plano com seus gestos e sua narração.
Penélope apresenta mais um trabalho excelente, mas é incompleto apenas falar sobre ela. Blanca Portillo, por menos que apareça no filme, ainda tem uma participação importante. E marca isso com uma força de interpretação imensa. Lluís Homar é o motor principal do filme e consegue criar uma atmosfera respeitosa em seu papel, o que o caráter de seu personagem pede. Sua voz é vigorosa ao mesmo tempo que não atinge autoritariedade o bastante para ser odiado. José Luiz Gómez e Rubén Ochandiano convencem, cada um em seu papel, exalando uma raiva que é constatada em movimentos diferentes. Enquanto um utiliza o ódio graças ao poder material que exerce nas pessoas, - e constrói isso bem em cena - o outro usa trejeitos mais estereotipados para conseguir exprimir o rancor. Além do tudo, o filme ainda possui uma fotografia belíssima que deixa a obra ainda mais viva, mérito de Rodrigo Prieto. Abraços Partidos se torna um filme sob medida, fazendo uma homenagem silenciosa e dramática sobre o cinema. Mas, obviamente, é preciso exagerar em alguns pontos para criar o diferencial. O excesso de melodrama acaba tomando conta das telas e isso, consequentemente, acaba tornando o que deveria ser verdadeiro em superficial.
A trilha sonora é um fator importante no filme. Feita por Alberto Iglesias, ela faz mais do que acompanhar cenas. Ela narra a melancolia. Ela celebra um romance. Ela dialoga com os personagens pensativos e ela acompanha os que tomam drásticas decisões. No ápice do filme, entra em cena uma canção tocada no violão num ritmo que se assemelha a uma balada. É a mesma música que aparece na divulgação do filme, Werewolf da cantora Cat Power. E os versos da cantora são uma descrição perfeita do que virá a seguir na cenas. Ou então do que já foi visto, já que a interrupção da cronologia causa esse efeito de déjà vu. Ninguém sabe o quanto eu amei o homem lobo, enquanto eu rasgava suas roupas, canta a intérprete. Enquanto isso, a paixão ardente entre Lena e, até então, Mateo é mostrada em cena. A distinção dos amores de Lena é feita com motivações o bastante para ninguém condená-la por adultério. A paixão só não parece verdadeira para os personagens, ninguém sabe o quanto ela ama o homem lobo. O lobisomem, o lobisomem tem compaixão assim como você e eu, completa. O caráter de cada um se torna o alvo da crítica. Depois de sua própria transformação em lobisomem, Mateo Blanco não abandona seu amor após virar Harry Caine. Não abandona a bela moça por quem se apaixonou, não abandona sua paixão pelos filmes. É um cinema altamente passional, sem ser influenciado por fatores externos, apenas pelo que realmente faz cinema. Eu vi o lobisomem, e o lobisomem estava chorando, ela termina em sua voz tão melancólica quanto o filme em si.
Um filme precisa ser feito, ainda que às cegas. Abraços Partidos é a transformação agindo sobre a superação. É simplesmente a válvula de escape. Não se pode esperar algo simples e fácil depois que se perde aquilo que se ama. E é o amor o principal questionamento do filme. A importância tachada às coisas permanece a mesma em vida e morte. Harry Caine é o amor controlado, é a paixão ardorosa. Mateo Blanco é o amor instável. E a vida não precisa de uma metamorfose tão extrema para provar que amor ainda é amor. E aqui o que importa é o amor de Mateo Blanco por Lena, o amor de Harry Caine por seu filme incompleto e o amor de Almodóvar pelo cinema. Um amor abstrato, não material. Um amor transformado, mas o mesmo amor no fim das contas.
NOTA: 9
1 de julho de 2011
Corações Perdidos (2011)
Um filme de Jake Scott com James Gandolfini, Melissa Leo e Kristen Stewart.
Não existe uma maneira fácil de se lidar com a perda, ainda mais quando a perda é muito substancial. Há perdas que somem com o passar do tempo, há perdas que retiram um pedaço da alma. E quando a perda é grande o bastante para controlar a rotina, o que fazer? Deixar esquecer ou se agarrar ao que perdeu, buscando cada vez mais lembranças por momentos juntos? Não se pode seguir uma vida sendo controlado pela perda, ou então se perde uma vida. Corações Perdidos é um filme unicamente sobre a perda, que trabalha em dois conceitos distintos, mas interligados entre si.
Doug Riley (James Gandolfini) e Lois Riley (Melissa Leo) são um casal triste. Após casados há 30 anos, eles perdem a filha adolescente. Ambos abalados, o luto deles perdura por anos. A memória da filha para de deixá-los viver como um casal e os faz mortos. Até que Doug vai a Nova Orleans para tratar de negócios de trabalho. Lá, ele conhece a prostituta Mallory (Kristen Stewart), uma adolescente de 16 anos que acaba fazendo o que os 8 anos de perda não fizeram aos Rileys. A partir desse ponto, o filme vira um conto realista sobre a superação e sobre pontos de apoio para a perda.
Doug e Lois estão perdidos na vida. Lois está parada em sua casa, perdendo graças a sua perda. A convivência com a sociedade foi retirada pela falta de uma única convivência. Lois não consegue mais sair de seu próprio mundo da solidão porque ela coloca sobre si toda a culpa em sua perda. A culpa, a autonegação, a perda é difícil de ser aceita. Acordar todo o dia e perceber que outra pessoa, que você se importa, não vive enquanto você vive, te faz querer não viver. E Lois não vive mais. Seu mundo traz uma cabeleireira a própria casa, faz com que os vizinhos peguem a correspondência e que ela não consiga mais travar qualquer tipo de afeto com o marido. As lembranças da perda são ainda mais cruéis do que a perda em si. A perda é um sentimento espontâneo e passageiro. As memórias duram o máximo que puderem para aumentar o sofrimento. Doug não consegue aceitar esse estado da mulher, que acaba o deprimindo. A felicidade de Doug é sugada, ele não arranja mais prazer em casa então procura amantes na rua. E Lois, que sabe de sua frigidez e de seus problemas, não faz nada para impedir que Doug pule a cerca. E é nesse mundo que os Rileys vivem e são apresentados ao público nos primeiros minutos da sessão. Doug é adúltera e quer mudar o luto de 8 anos da família; Lois quer viver acreditando que a culpa não é sua. Ambos são incapazes de realizar suas tarefas ou de serem felizes.
O conceito de perda de Doug e Lois choca-se com outro quando Doug parte para Nova Orleans. Depois de perder sua amante, sua única válvula de escape, ele precisa de companhia para não enlouquecer no ambiente mórbido de sua casa. A fuga de seu mundo representa a liberdade, e um indivíduo livre nunca irá querer voltar para a caverna de onde estava preso. Doug conhece Mallory, a menina perdida, que se desviou de seus caminhos após sofrer outras perdas. Mas Mallory é mais realista, por menos sensata que seja. Seu mundo só poderia ser completo com o caminho que ela trilhou, sendo esse a prostituição. E a junção dessas almas perdidas, paulatinamente, leva à afeição. Uma afeição que Mallory tinha perdido após seu trabalho cruel. Uma afeição que Doug tinha esquecido após perder a filha e ver a mulher se tornar distante. E essa afeição leva a mais do que um simples movimento escapista, é a chance de um renascimento. Ele decide conviver com suas memórias, ao se lembrar da filha toda vez que olha para Mallory. Ele decide ser o pai que Mallory não teve e Mallory torna-se a filha que Doug queria ter visto crescer.
Lois acaba sentindo a perda novamente em sua alma. Ela não poderia perder o marido e a filha ao mesmo tempo. Suas relações, por piores que sejam, ainda eram relações. Outra perda seria fatal para a mulher. A história de superação fica por conta das imagens subsequentes. Um casal melhora quando decide confrontar o que lhe perturba, o que não o deixa viver como um verdadeiro casal. E a vida fica bem mais bela quando as lembranças de sofrimento viram lembranças saudosistas e alegres, de uma hora pra outra. James Gandolfini e Melissa Leo colocam um peso imenso em suas atuações, ambos expressando o sofrimento de forma diferente. Enquanto James mostra-se acostumado com sua dor, por mais que não consiga esquecê-la, Melissa sofre diariamente. Kristen Stewart está ótima, para completar o elenco. Sua personagem aqui, com mais expressões e com ações mais rápidas do que em alguns de seus trabalhos anteriores, se torna até divertida numa estória de sofrimento. A fotografia escura e a direção também ajudam a atmosfera do filme a continuar tensa em seus 110 minutos.
Corações Perdidos é, realmente, um filme sobre perda. Mas que acaba se tornando uma auto-ajuda para os perdidos. O filme não fornece respostas, não fornece soluções e não fornece uma conclusão, mas é exatamente assim que a vida é, então porque fazer diferente? A escuridão da zona de conforto, a beleza da dor, a realidade assustadora, tudo prepara o filme para se tornar o que foi: um conto sem qualquer exagero das causas e consequências da vida. O segredo não é segurar algo e não deixar soltar, é saber a hora de deixar ir embora e, assim, viver harmoniosamente sem precisar achar um antagonista.
NOTA: 8
Não existe uma maneira fácil de se lidar com a perda, ainda mais quando a perda é muito substancial. Há perdas que somem com o passar do tempo, há perdas que retiram um pedaço da alma. E quando a perda é grande o bastante para controlar a rotina, o que fazer? Deixar esquecer ou se agarrar ao que perdeu, buscando cada vez mais lembranças por momentos juntos? Não se pode seguir uma vida sendo controlado pela perda, ou então se perde uma vida. Corações Perdidos é um filme unicamente sobre a perda, que trabalha em dois conceitos distintos, mas interligados entre si.
Doug Riley (James Gandolfini) e Lois Riley (Melissa Leo) são um casal triste. Após casados há 30 anos, eles perdem a filha adolescente. Ambos abalados, o luto deles perdura por anos. A memória da filha para de deixá-los viver como um casal e os faz mortos. Até que Doug vai a Nova Orleans para tratar de negócios de trabalho. Lá, ele conhece a prostituta Mallory (Kristen Stewart), uma adolescente de 16 anos que acaba fazendo o que os 8 anos de perda não fizeram aos Rileys. A partir desse ponto, o filme vira um conto realista sobre a superação e sobre pontos de apoio para a perda.
Doug e Lois estão perdidos na vida. Lois está parada em sua casa, perdendo graças a sua perda. A convivência com a sociedade foi retirada pela falta de uma única convivência. Lois não consegue mais sair de seu próprio mundo da solidão porque ela coloca sobre si toda a culpa em sua perda. A culpa, a autonegação, a perda é difícil de ser aceita. Acordar todo o dia e perceber que outra pessoa, que você se importa, não vive enquanto você vive, te faz querer não viver. E Lois não vive mais. Seu mundo traz uma cabeleireira a própria casa, faz com que os vizinhos peguem a correspondência e que ela não consiga mais travar qualquer tipo de afeto com o marido. As lembranças da perda são ainda mais cruéis do que a perda em si. A perda é um sentimento espontâneo e passageiro. As memórias duram o máximo que puderem para aumentar o sofrimento. Doug não consegue aceitar esse estado da mulher, que acaba o deprimindo. A felicidade de Doug é sugada, ele não arranja mais prazer em casa então procura amantes na rua. E Lois, que sabe de sua frigidez e de seus problemas, não faz nada para impedir que Doug pule a cerca. E é nesse mundo que os Rileys vivem e são apresentados ao público nos primeiros minutos da sessão. Doug é adúltera e quer mudar o luto de 8 anos da família; Lois quer viver acreditando que a culpa não é sua. Ambos são incapazes de realizar suas tarefas ou de serem felizes.
O conceito de perda de Doug e Lois choca-se com outro quando Doug parte para Nova Orleans. Depois de perder sua amante, sua única válvula de escape, ele precisa de companhia para não enlouquecer no ambiente mórbido de sua casa. A fuga de seu mundo representa a liberdade, e um indivíduo livre nunca irá querer voltar para a caverna de onde estava preso. Doug conhece Mallory, a menina perdida, que se desviou de seus caminhos após sofrer outras perdas. Mas Mallory é mais realista, por menos sensata que seja. Seu mundo só poderia ser completo com o caminho que ela trilhou, sendo esse a prostituição. E a junção dessas almas perdidas, paulatinamente, leva à afeição. Uma afeição que Mallory tinha perdido após seu trabalho cruel. Uma afeição que Doug tinha esquecido após perder a filha e ver a mulher se tornar distante. E essa afeição leva a mais do que um simples movimento escapista, é a chance de um renascimento. Ele decide conviver com suas memórias, ao se lembrar da filha toda vez que olha para Mallory. Ele decide ser o pai que Mallory não teve e Mallory torna-se a filha que Doug queria ter visto crescer.
Lois acaba sentindo a perda novamente em sua alma. Ela não poderia perder o marido e a filha ao mesmo tempo. Suas relações, por piores que sejam, ainda eram relações. Outra perda seria fatal para a mulher. A história de superação fica por conta das imagens subsequentes. Um casal melhora quando decide confrontar o que lhe perturba, o que não o deixa viver como um verdadeiro casal. E a vida fica bem mais bela quando as lembranças de sofrimento viram lembranças saudosistas e alegres, de uma hora pra outra. James Gandolfini e Melissa Leo colocam um peso imenso em suas atuações, ambos expressando o sofrimento de forma diferente. Enquanto James mostra-se acostumado com sua dor, por mais que não consiga esquecê-la, Melissa sofre diariamente. Kristen Stewart está ótima, para completar o elenco. Sua personagem aqui, com mais expressões e com ações mais rápidas do que em alguns de seus trabalhos anteriores, se torna até divertida numa estória de sofrimento. A fotografia escura e a direção também ajudam a atmosfera do filme a continuar tensa em seus 110 minutos.
Corações Perdidos é, realmente, um filme sobre perda. Mas que acaba se tornando uma auto-ajuda para os perdidos. O filme não fornece respostas, não fornece soluções e não fornece uma conclusão, mas é exatamente assim que a vida é, então porque fazer diferente? A escuridão da zona de conforto, a beleza da dor, a realidade assustadora, tudo prepara o filme para se tornar o que foi: um conto sem qualquer exagero das causas e consequências da vida. O segredo não é segurar algo e não deixar soltar, é saber a hora de deixar ir embora e, assim, viver harmoniosamente sem precisar achar um antagonista.
NOTA: 8
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