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28 de junho de 2013

Guerra Mundial Z (2013)

Um filme de Marc Foster com Brad Pitt, Mireille Enos e Daniella Kertesz.

O mundo é o verdadeiro limite para o fim. Ninguém realmente se importa com o que está acontecendo em Marte, desde que não influencie em nada no planeta Terra. É por isso que se um filme como Marte Ataca! fosse ambientado em Marte, seria chato. É por isso que a franquia Star Trek sempre tem um conflito para resolver que coloca a vida no planeta Terra em risco. E bem, talvez seja por isso que o público está certamente saturado de filmes de aniquilação mundial, por mais que eles consigam inovar em algum aspecto.

Então num mundo que já foi invadido por zumbis em Resident Evil, Todo Mundo Quase Morto, Madrugada dos Mortos Vivos, Vírus, Meu Namorado é um Zumbi e muitos, muitos, muitos outros, é muito, muito, muito clichê uma abordagem com o mesmo tema e sem inovar em nada muito novo. Guerra Mundial Z é assim: um caótico filme que, no fim da sessão, não consegue nada além de ser caótico, tanto para o público quanto para os próprios personagens que, até no fim da fita, parecem não saber aonde estão.

Gerry Lane (Brad Pitt) é um ex-agente da ONU que desistiu de arriscar a vida trabalhando como investigador e agora vive cozinhando panquecas para a família. Num dia, quando ele vai levar suas filhas à escola, o trânsito está caótico. Pessoas estão desesperadas e em pouco tempo a morte chega para assombrar. Se vendo num verdadeiro cenário de guerra, Gerry, sua mulher Karin (Mireille Enos) e suas filhas Constance e Rachel (Sterling Jerins e Abigail Hargrove), têm de usar o instinto de sobrevivência até conseguirem entender o porquê de algumas pessoas estarem mordendo as outras.

O filme possui erros de roteiro que chegam a ser grotescos. Os exemplos variam desde um filho que não consegue se comover com a morte dos pais e já corre para a ajuda de desconhecidos até uma bombinha de asma. Assim como no último filme da franquia Resident Evil, Guerra Mundial Z parece um imenso videogame, onde as fases são lugares ao redor do mundo até, finalmente, chegarmos no clímax (que, comparado ao resto do longa, passa muito rápido). O 3D, por outro lado, é bem utilizado, e as cenas de ação são realmente eletrizantes. Mas não podemos nos alvoroçar tanto com cenas assim sendo que elas provém de uma granada e uma arma de fogo em um avião que foi incapaz de matar todos. 

O filme é de Brad Pitt, e seu personagem deixa isso claro. O cansaço característico de sua voz fica até o final, e isso dá sugestões ao seu personagem muito boa, que extrapolam a imagem de início. Mireille Enos é tal mal-aproveitada que creio que não vale a pena falar sobre ela. A atriz é um simples estepe de Brad Pitt, que some quando o clímax para de se relacionar inteiramente com o protagonista. Há de se falar a mesma coisa de todos os outros atores no longa-metragem. Danielle Kertesz é a única que parece não depender completamente do ator principal, a atriz consegue estabelecer uma identidade própria desvinculada do protagonista.

O desfecho do filme parece ser incompleto, como se fosse jogado do nada em cima de toda aquela atmosfera de ação e suspense. O caso se desenvolve bem, tirando os erros graves, mas perdoáveis, cometidos para aumentar a adrenalina do espectador com as cenas na tela. O ápice, realmente, é quando chegamos ao país de Gales e, mesmo sem tanta ação quanto comparada nas cenas em Israel ou Coreia do Sul, o clima chega ao máximo de tensão - tudo bem orquestrado pela trilha sonora final de Marco Beltrami. O desfecho, porém, não só sugere uma continuação (que já foi confirmada mesmo antes do lançamento) quanto joga todo o ritmo no lixo para uma narração em off estranha.

Guerra Mundial Z consegue inovar em um único aspecto: sua solução para o caso, mais do que diferente e muito mais interessante do que uma cura para zumbis ou o extermínio de todos os mortos-vivos. Além disso, é um entretenimento válido, tem seus bons momentos de susto e tensão e nos dá mais ou menos duas horas de diversão. Mais do que isso é exagero. Ele subestima o espectador com erros e flashbacks, nos dá um 3D que não chega perto de ser perfeito e, de bandeja, dá ao grande público algo como se fosse a mistura de The Walking Dead com 2012.

NOTA: 5

24 de junho de 2013

Blancanieves (2012)

Um filme de Pablo Berger com Macarena García, Maribel Verdú, Daniel Giménez Cacho e Sergio Dorado.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.

Ainda existe alguém que possa não conhecer alguns dos famosos contos de fadas dos irmãos Grimm que, constantemente, viraram adaptações fabulosas dos estúdios Disney? Talvez Branca de Neve e os Sete Anões seja um dos mais completos e uma das mais conhecidas que se pode ter. A história todos conhecem: a princesa, perseguida por sua cruel madrasta, foge para a floresta, encontra sete anões, come uma maçã envenenada e acorda com um beijo do seu príncipe, uma bela história de amor. E mesmo quem não vê filmes de animação, poderia conferir a mesma história nas diversas adaptações que o filme original vem tendo, como Branca de Neve e o Caçador ou Espelho, Espelho Meu.

Antes de falar, porém, deste filme de Pablo Berger, preciso falar da figura constante, que é a da madrasta malvada. A época que vivemos não tem o mesmo maniqueísmo infantil dos estúdios onde os sonhos se tornam realidade. O foco deixou de ser Branca de Neve há alguns anos, enquanto a bruxa - retratada por grandes atrizes como Julia Roberts, Charlize Theron ou Maribel Verdú - ganha mais carisma, se torna um pouco mais humana nos olhos do público, e rouba a cena com uma interpretação de matar. Vale mais a pena fazer vilões do que mocinhos, e isso não se restringe a Branca de Neve. Angelina Jolie está fazendo o papel de Malévola (A Bela Adormecida) para um filme do ano que vem. Sabendo disso, comecemos Blancanieves.

Carmencita (Sofía Oria/Macarena García) é uma pequena menina infortunada. Sua mãe, Carmen de Triana (Inma Cuesta) morreu ao dar a luz, e logo depois de seu nascimento seu pai, o grande toureiro Antonio Villalta (Daniel Giménez Cacho), casou-se com uma outra mulher. O infortúnio fica ainda pior quando sua avó, dona Concha (Ángela Molina) morre e ela tem de morar com o pai desconhecido. A madrasta da menina, uma terrível e invejosa mulher chamada Encarna (Maribel Verdú), não gosta de Carmen de modo algum e faz tudo para transformar a vida da enteada em um inferno.

O filme, assim como O Artista, é uma imensa homenagem ao cinema mudo e preto e branco. Totalmente ambientado na Espanha dos anos 20, com uma direção de arte impecável (misturando elementos circenses e figurinos incríveis), a história dá uma nova roupagem para a tão conhecida fábula da Branca de Neve. A princesa não é filha de um rei, é uma simples menina filha de um famoso toureiro. Por ser ambientado num mundo real e antigo, a compaixão e o maniqueísmo do bem e do mal não são utilizados completamente na fita. Claro que protagonista e antagonista são bem definidos com candura e ódio, respectivamente. Mas observemos, não existe pena por parte do assistente da madrasta. E nem todos os anões são confiáveis, assim o filme nos entrega.

Pablo Berger faz um grandioso filme, tornando as imagens belíssimas e com um ritmo avassalador graças a sua ótima direção e a uma montagem grandiosa. A montagem é mais do que precisa e nos entrega um filme completo. Veja todas as cenas onde o suspense ganha: todas elas têm um corte muito mais rápido, de maior tensão no espectador. Ao mesmo tempo que a montagem consegue prender na tela, também traz ótimos momentos de descontração. A comédia é recorrente, a figura da madrasta é caricata o bastante para ser engraçada, e até mesmo alguns artifícios utilizados para as legendas de fala são suficientes para fazer o público rir. Isso porque ainda nem começamos a falar de Josefa (Alberto Martínez).

No quesito atuação, ninguém perde. Ninguém mesmo. Como falado no início, a figura da antagonista recebe uma atenção maior do que a protagonista em si. Maribel Verdú conseguiu até um prêmio Goya como Melhor Atriz, tudo graças a suas falas corporais intensas, cheias de significado. Quem não fica atrás é Ángela Molina, em sua pequena aparição como a avó da protagonista. Sofia Oria e Macarena García são grandes surpresas do longa, e representando o lado masculino, Daniel Giménez Cacho e Sergio Dorado representam bem seus papéis, com ressalva ao primeiro, que consegue emocionar com o olhar.

O roteiro, por ser todo ambientado na realidade, assume tons macabros que se assemelham mais aos Irmãos Grimm do que um conto de fadas propriamente dito. Vingança, morte e muita maldade são os maiores artifícios que não permite que Blancanieves seja indicado ao público mais infantil. Não há como falar do filme inteiro, porém, sem dar uma atenção à trilha sonora: Alfonso de Villalonga faz um estupendo trabalho, pois é exatamente ele que dá o tom da fita. As canções originais, as danças, os sinos, a alegria e a tristeza, é somente ele que decide a hora exata que o espectador sente tais emoções fazendo-nos ouvir todos os seus acordes a cada momento. O próprio silêncio é bem pensado para resultar numa verdadeira explosão, um grande efeito da fita.

Não, não há muitas pessoas que não conhecem Branca de Neve e os Sete Anões, um verdadeiro clássico infantil que transcende época e idade. Recorrente em muitas situações, o conto é tão aplicado na vida real que virou um filme para adultos, com uma mão tão certeira quanto os estúdios Walt Disney (o que resultou em 10 prêmios Goya para o filme). De um modo ou de outro, ainda há muitas pessoas que nunca viram e talvez nem ouçam falar de Blancanieves. E isso é errado, muito errado.

NOTA: 9

21 de junho de 2013

Minha Mãe É Uma Peça (2013)

Um filme de André Pellenz com Paulo Gustavo, Suely Franco, Mariana Xavier e Rodrigo Pandolfo.

Eu, como faço parte de uma minúscula parcela do teatro desse grande Brasil artista, não concordo de maneira nenhuma na transferência de algumas peças para a telona. Há, claro, várias exceções - a maioria provém de obras de Nelson Rodrigues, que se provaram ótimos filmes. Mas o que vemos atualmente é uma epidemia da transformação da comicidade em cinema, ao meu ver, de forma desnecessária, descentralizando o povo do teatro para as telonas. As últimas divulgações de filmes baseados em peças se mostram comédias fraquíssimas, algumas que ainda não passam nem de trailers não empolgam nem o espectador.

Não foi grande surpresa, porém, ver que o filme do ótimo Paulo Gustavo, Minha Mãe é uma Peça, baseado em sua peça homônima, é uma da também minúscula parcela de comédias que funcionam. Dona Hermínia (Paulo Gustavo) é uma mãe como qualquer outra, a narração em off inicial frisa isso muito bem. A atarefada dona de casa tem três filhos: Garib (Bruno Bebbiano), o filho criado e casado; Marcelina (Mariana Xavier), a filha que mais dá trabalho; e Juliano (Rodrigo Pandolfo), o doce e meigo filho caçula. Quando Hermínia ouve uma conversa, ela não aguenta a pressão dos filhos e vai para a casa de sua tia Zélia (Suely Franco).

O roteiro é mais do que desnecessário. O filme inteiro é costurado, dividido em pequena esquetes de humor, o que não caracteriza um filme, caracteriza um grande stand-up baseado em memórias mais cômicas do que emotivas. Os flashes de memória só servem separadamente, já que qualquer ligação entre eles dói e não se encaixa. A desculpa dada pelo longa-metragem é a construção da história do cotidiano materno, o que até funciona como plano de fundo para algumas histórias de crescimento. Outras, como a relação com as vizinhas ou até a descoberta da morte familiar são completamente desnecessárias e causam um efeito destoante ou até mesmo ridículo.

O filme, inegavelmente, é de Paulo Gustavo. O brilho deve se deve a sua experiência nos palcos fazendo seu monólogo. A caracterização do ator como mulher é incrível, sem forçar a barra. Por mais que a caracterização do bóbis seja um tanto quanto exagerada, até mesmo sem eles Paulo Gustavo é verossímil. Muitos falam que ele é a única coisa engraçada do filme. Discordo com veemência. Ingrid Guimarães, Samantha Schmütz, Alexandra Richter, Rodrigo Pandolfo e Mariana Xavier têm um desempenho excelente e uma veia cômica que ajuda a levar as cenas sem o astro. Herson Capri e Suely Franco parece que são mecanizados, como se só servissem para apoio, e Bruno Bebbiano fica abaixo da linha do mediano. Vale apontar também atores como Mônica Martelli, mais do que má aproveitada pela fita. Vale ressaltar que a peça desta última (Os homens são de Marte... E é pra lá que eu vou!) também está programada pra virar filme.

Paulo Gustavo é um ator ótimo, seu programa 220 Volts e as peças em seu currículo são provas disso. Minha Mãe é uma Peça é mais uma destas provas do talento do comediante. Por mais que a comédia nacional seja uma das que mais me fez rir neste ano de 2013, não posso retirar minha certeza inicial: é um filme que deveria continuar nos teatros.

NOTA: 6