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16 de junho de 2013

O Mirante (2012)

Um filme de Pelin Esmer com Olgun Şimşek e Nilay Erdönmez.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.

O Mirante é um filme turco de 2012 que apareceu no Brasil para participação em festivais. É duvidoso que ele consiga um público maior em alguma sala comercial, por mais que ele seja bem mais fácil do que alguns filmes que circulam atualmente, como Elena ou Cosmópolis. A fórmula hollywoodiana não para de ser usada no filme, que consegue se manter artístico ao utilizar o maniqueísmo, mas nunca explicitá-lo.

Nihad (Olgun Şimşek) trabalha em um mirante, vigiando áreas verdes em montanhas de cima de uma torre de onde consegue ver tudo: as estradas, as pessoas, a fumaça, os ônibus que passam nessas estradas... Nesses ônibus existe uma atendente chamada Seher (Nilay Erdönmez), uma moça que estudava numa boa faculdade e vivia com os pais, mas por uma infelicidade hedionda, viu-se desesperada para sair do ambiente familiar e conseguir trabalhar em algum lugar. Os dois têm seus próprios fantasmas e, quando se juntam, acabam tendo de enfrentá-los frente a frente.

A fotografia é eficaz o bastante para os momentos contemplativos de silêncio, onde observamos muitas imagens estáticas de natureza - provindas da relação guarda/ambiente, representada por Nihad. A câmera parada também é usada para o núcleo de Seher, onde o ambiente praticamente engole a personagem ao colocá-la minúscula em relação a toda a sala. O close não é tanto utilizado no filme, o que mais vale é a observação de uma cena por inteiro.

Observação é o aspecto que mais ganha em todo o longa. Seja em observação psicológica, natural ou comparativa, até mesmo metafórica. A falta de observação de um o levou a ser o homem que tudo vê, mas que nada pode. Ações não são o forte de Nihad, o personagem prefere a vida enclausurado, tendo de se contentar apenas consigo mesmo, sem nunca ter de enfrentar o passado. A comunicação direta do personagem apenas se dá com um ser-humano físico perto do desfecho do longa-metragem: até lá, as poucas falas de Nihad são feitas por um rádio, cheio de estática. O silêncio ganha.

Quanto a observação, mais uma vez, podemos destacar Seher como a observação óbvia do espectador. Seu lado jovem é simples de ser visto, é fácil de ser identificado. O relance já é o bastante para descobrir o que a jovem passou, mas relance algum é suficiente para descrever as cenas presenciadas pela personagem. Ela está marcada, isso fica claro em seu olhar - seja medo, seja nojo, seja desespero.

Desespero, desespero. O desespero vem da solidão de dois humanos ou da companhia de dois solitários? A cena final, um embate entre homem e mulher, humano e natureza, é o verdadeiro ganho do filme após seus exatos 100 minutos de duração. O Mirante não é um filme acessível, mas creiam: é um filme que pede para ser observado, ainda mais quando ninguém olha pra ele.

NOTA: 8

15 de junho de 2013

O Grande Gatsby (2013)

Um filme de Baz Luhrmann com Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan e Joel Edgerton.

Fama, riqueza, dinheiro e luxo. Todo mundo já quis alguma dessas coisas na vida, e na maioria das vezes a razão é unicamente pessoal. Uma vida melhor, mais preguiçosa, menos dura, onde o tempo seria melhor aproveitado para muitas outras coisas. E é nesse quesito que a vida se torna ambígua. Sendo riqueza e prosperidade as maiores virtudes para um homem alcançar, de que adianta a busca pela fortuna se apenas uma parte dela é aproveitada com a vida? Claro, há o outro lado, o espírito. Renunciando todos os fatores que acabamos de falar para alimentar a alma, não existe garantia de um outro lado que não seja a fé, essa sem certeza de muitas coisas.

As frases acimas são generalizações extremistas. Há muito mais do que o dinheiro ou a ascese. E é nesse quesito que entra a escolha, o maior trunfo desta quarta adaptação do livro de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. Nick Carraway (Tobey Maguire) é um jovem sulista que se vê na grande selva de pedra, a Nova York dos anos 20. Ele apenas conhece sua prima Daisy (Carey Mulligan) e seu marido, Tom Buchanan (Jeol Edgerton) na cidade, e não é muito de interagir com todos. Aos poucos, porém, ele vai se aproximando de seu misterioso vizinho, um homem rico que faz festas a desconhecidos todas as noites. Esse homem é Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), e Nick mal podia prever a reviravolta em que ele entraria com esse novo relacionamento.

Baz Luhrmann é conhecido por seu ritmo rápido, por uma direção de arte com cores gritantes e por seus romances que tentam atingir o épico ao máximo. O Grande Gatsby não fica diferente, mas isso auxilia o filme, faz ele ganhar uma personalidade que não teria se fosse traduzido no cinema por meio do drama usual. Não existe uma representação tão interativa para as festas imensas de Gatsby se não fosse pela montagem de Baz. Por falar em interação, o 3D é desnecessário para a experiência visual. Vale muito mais a pena ver a incessante Nova York com a visão do diretor, iluminada e com uma rapidez de acontecimentos imensa.

A atuação não é incapaz de levar o filme. Vemos isso na versatilidade do ator mais esquecido das premiações, o grande Leonardo DiCaprio que, mais uma vez, insere um personagem bem característicos em trejeitos. Por Gatsby ser um leão em uma jaula, são duas personalidades que ele tem de fazer a toda cena: a máscara e o rabo de seu leão. A inquietude em seus dedos enquanto o sorriso verdadeiro permanece em seu rosto, uma verdadeira representação da arma de Chekhov. Em nível de excelência, após Leonardo DiCaprio está a mesma ambiguidade do desconforto - e dessa vez, de uma forma muito mais sutil - com Joel Edgerton. Enquanto Gatsby não aparece, é Edgerton que segura o filme nas costas de jogador de pólo, sempre com uma dupla intenção que não faz questão de esconder do público. O que os dois têm em comum? Algo que poderia ser mal interpretado, mas que aqui é essencial: carisma. O acerto de um significa o erro do outro, mas é muito custoso para entendermos o que é isso. A cena entre os dois e o que ela representa é, verdadeiramente, o ápice da fita, até a calmaria que precede os momentos finais.

Tobey Maguire não faz um bom trabalho, infelizmente, e por ser o protagonista isso até prejudica o andamento da fita. A repetição parece ser seu maior trunfo - e não é um quesito tão bom assim. Isla Fisher é o outro elo distante da fita que não surpreende. O resto do elenco não se sobressai a Edgerton ou DiCaprio, mas faz o bom trabalho que os acompanha na carreira. Jason Clarke é a maior prova disso. Os trejeitos do tolo mecânico são divertidos quando sabemos de toda a história que ele carrega em suas costas. Elizabeth Debicki é a estreante da vez, que consegue dar vida e encantamento a sua Jordan Baker.

Necessito de um parágrafo para a personagem de Carey Mulligan por sua ligação. Ela é, ninguém menos do que Daisy Buchanan, personagem fundamental na fita. Sua entrada desde o começo é feita para nos dar a mesma sensação literária: entusiasmo, surpresa, paixão. Daisy tem movimentos leves, suaves, e seu figurino (grande jogada no filme inteiro!) a acompanha nisso. Ela, como os dois homens citados anteriormente, também tem seu duplo sentido. E a percepção dele no espectador talvez seja a maior surpresa do filme e o único ato digno de causar nojo. O romance entre o casal é bem ilustrado pela trilha sonora diversa, que mescla artistas contemporâneos (como Lana Del Rey, The XX e Beyoncé) com a música dos anos 20. As letras, de qualquer forma, sempre tem um lado para se falar do épico romance entre Jay e Daisy, são letras proféticas, as quais ninguém dá ouvidos.

O roteiro, porém, é o maior pecado. Quando lemos a obra literária, o filme é muito mais do que festa, máfia ou amor. É sobre o ser-humano, o que não fica muito claro no filme. Há aqueles momentos de clareza, a maioria em seu final, mas quando necessitamos uma explicação sobre o que está sendo tratado em tela, esta passa correndo em um minuto ou menos. O Grande Gatsby não tem um foco, apenas uma história de amor que parece ser menor do que é do modo grandioso que é tratado.

A grandiosidade de Baz Luhrmann estraga seu próprio filme, por diminuir o drama dos personagens. Sua tentativa de fazer uma segunda versão de Moulin Rouge (sim, tudo está lá: o escritor narrador, o romance supervalorizado e impossível, a rapidez no movimento, a apresentação de Daisy que se assemelha à Satine) não dá certo no total. Ao fim, a fita vale a pena e é uma das grandes adaptações do livro pro cinema. O que fica, porém, não é nenhuma lição grandiosa ou algo que faz jus à obre de Fitzgerald. É que seguindo o farol verde, vai ter muita, muita festa.

NOTA: 7

2 de fevereiro de 2012

O Artista (2011)

Um filme de Michel Hazanavicius com Jean Dujardin e Bérénice Bejo.

É simplesmente difícil imaginar a reação de um público atual indo assistir a uma fita nos primórdios do cinema. Há quem ame apenas pensar em ter a oportunidade de ver um trem em preto e branco indo em direção a uma plateia em 28 de Dezembro de 1895, numa apresentação dos Irmãos Lumière. Outros não conseguem pensar em nada mais maçante do que observar por 100 minutos um filme sem falas e em preto e branco. É por isso que é difícil sair de toda a atmosfera de dramas, comédias, romances e horrores atuais que a evolução da sétima arte proporcionou para ir assistir um filme mudo e em preto e branco. Apenas numa comparação simples, o mundo prefere ver toda a magia dos efeitos especiais em Avatar a passar um final de semana resgatando filmes de George Mèlies e Charles Chaplin. E é exatamente por isso que é bastante difícil imaginar a reação do público vendo O Artista, uma comédia nada convencional que está dando o que falar em diversas premiações. Há quem ame essa obra de Michel Hazanavicius, mas há pouco tempo um público na Inglaterra exigiu o dinheiro de volta após ver que o filme exibido era mudo e em preto e branco.

Voltamos ao tempo, estamos em Hollywood, mas o ano é 1927. O cinema mudo está em alta e o maior astro é George Valentin (Jean Dujardin). Na inauguração de um filme ele acaba conhecendo uma fã por engano, cujo sonho é ser uma estrela de cinema. Batalhando por seu sonho, essa fã - de nome Peppy Miller (Bérénice Bejo) - acaba ascendendo no ramo cinematográfico e mantém sua amizade com seu ídolo. Porém chega a crise de 1929 e o cinema acaba se reinventando aos poucos até ele começar a ter falas. Valentin, ao se recusar a fazer filmes falados, tem de achar um jeito de continuar sendo um ator mudo e ganhar dinheiro. Ao mesmo tempo, a fama de Peppy cresce a cada dia. E, assim como o sucesso dessa nova estrela, cresce o brilhantismo de O Artista a cada minuto de sessão, seja por todos os aspectos técnicos, seja pela ideia original de criar (melhor dizendo, recriar) todo um passado. Atores se apresentando após a inauguração de suas sessões, uma banda tocando a trilha sonora ao vivo para o público. Toda a ambientação dos anos 20 está magnífica. A fotografia preta e branca de Guillaume Schiffman combinada com o roteiro, a direção e a edição maravilhosa de Hazanavicius são fatores essenciais para o espectador retroceder 80 anos e se ver num clássico cinema mudo.

São duas realidades se contrastando aqui. De um lado temos o charmoso Jean Dujardin, numa atuação inspiradíssima. Seu desespero em ver todo o seu trabalho se tornando obsoleto é transferido ao público da mesma forma que um simples sorriso do ator contagia toda a plateia. O fim de sua carreira é o marco do fim do cinema mudo. Por outro lado, temos a realidade de Peppy Miller, interpretada com todo o carisma e bom-humor da bela Bérénice Bejo. A estreia dela, junto com sua ascensão, marcam o início do cinema falado. O que realmente acontece é a mesma ideia do romance principal entre os dois: não é que o par é contrastante, mas ele se completa. O que seria do cinema falado se não houvesse um cinema mudo anteriormente? Do mesmo modo que nos perguntamos, como estaria a vida de Peppy Miller se George Valentin não tivesse apontado o talento da moça? Além de um elenco brilhante com nomes como John Goodman, Missi Pyle, Penelope Ann Miller e James Cromwell, outro nome que brilha n'O Artista é Uggie, que nada mais é que Jack, o cachorro de George Valentin. E tem de se dar o braço a torcer, ele rouba a cena com tanto brilhantismo, é o cachorro perfeito para um galã como Valentin.

Antes de tudo, eu vejo O Artista como uma grande homenagem que satiriza e se rende aos encantos do cinema mudo. Quem não vê naquele roteiro brilhante toda a situação do clássico Dançando na Chuva? E em cada expressão de Jean Dujardin e Bérénice Bejo não há um Orson Welles, um Gene Kelly, um Charles Chaplin, uma Mary Pickford, uma Olive Thomas? O novo filme de Michel Hazanavicius bebe da fonte da juventude da sétima arte e a modela para agradar ao público contemporâneo. O drama e o humor acabam se juntando igual ao cinema mudo e ao cinema falado, as duas partes de uma única peça. Para completar, só falta lembrar da trilha sonora - excepcional e minha favorita ao Oscar - de Ludovic Bource. Como qualquer outra coisa do longa-metragem, ela tem que lembrar o passado, ecoando cada timbre já conhecido em filmes de Hitchcock, Fritz Lang ou Billy Wilder. Cada nota define uma cena, cada nota define uma emoção, e a trilha junto à atuação faz o filme ficar completo. A ausência de falas é mero detalhe. No fim você pode perguntar pra qualquer um o que acharam de O Artista. As falas podem ter sido diferentes na cabeça de cada um, mas o resultado final é arrepiante. Não há palavras para descrever a total experiência.

NOTA: 9