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11 de janeiro de 2014

Os Melhores de 2013

31 filmes. Foram ao todo, 31 filmes selecionados por mim como os melhores que eu já vi esse ano. Desses 31, me senti obrigado a reduzir pela metade para não criar uma lista grande e poder organizar melhor o que foi visto de bom e o que poderia ter sido melhor.

Listas de fim de ano, dos melhores filmes de um ano são muito difíceis de serem feitas. Afinal, como eu sei quais são os filmes de um ano? Segundo minha organização, isso ficou desse jeito: aqui listo os 15 melhores filmes que chegaram ao Brasil neste ano. E chegaram ao Brasil é uma definição ampla, já que me refiro não só ao cinema, mas aos festivais e às locadoras da região. Com isso excluo da minha lista ótimos filmes que só pude ver esse ano, mas chegaram ao cinema ano passado, como Holy Motors e Laurence Anyways.

Antes de começar, gostaria de lembrar alguns dos excluídos dessa seleção de 31 filmes, que precisaram ser retirados, mas que merecem uma notinha. São eles Elena, Blancanieves, Bling Ring, O Sistema, Capitão Phillips, Um Estranho no Lago e Fruitvale Station - A Última Estação.

#15. A Vida Secreta de Walter Mitty
(The Secret Life of Walter Mitty, Ben Stiller, 2013, 114 min.)

"Ground control to Major Tom"
Estando nesta lista por um caráter muito mais passional do que racional, A Vida Secreta de Walter Mitty é o tipo de filme que vemos no cinema e saímos muito mais leves. O bom astral reina durante as sessões e é difícil não se sentir mais otimista. Ben Stiller mostra que faz o melhor de si quando está por trás das câmeras e o final não decepciona, por mais que entregue uma situação já prevista por qualquer espectador.

#14. Pelos Olhos de Maisie
(What Maisie Knew, David Siegel, Scott McGehee, 2012, 93 min.)

Pelos Olhos de Maisie não foi divulgado nos cinemas brasileiros. Nem no estrangeiro ele apareceu tanto, mesmo com um elenco bom que dá ar ao filme. O que consegue encantar, porém, é a possibilidade de um mundo utópico, em que a visão da personagem Maisie - sempre simplista e sem influências externas - consegue decidir o que é o melhor, sem qualquer desencantamento das regras que surgem com a compreensão do mundo. Lindo de tão simples.

#13. Workers
(Workers, José Luis Valle, 2013, 120 min.)
Workers não chegou a cinema algum - ao menos não que eu tivesse notícia - mas participou do Festival Internacional de Cinema de Brasília. O filme faz um paralelo entre dois trabalhadores e, sem ter tanta pressa, cria uma situação injusta no ponto de vista de ambos. Workers é uma passagem sutil de tempo e uma denúncia às piores realidades trabalhistas.

#12. Os Suspeitos
(Prisoners, Denis Villeneuve, 2013, 153 min.)
"Elas só choraram quando eu as deixei"
Um dos melhores suspenses de 2013 e dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, Os Suspeitos trata do uso da força a fim de se obter justiça. Beirando muitas vezes entre a loucura e a sanidade, o filme tem força suficiente para nos fazer imaginar como agiríamos nas situações mostradas. Não deixe a duração assustar, o filme é grande em todos os sentidos.

#11. Tatuagem
(Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013, 110 min.)
"Cus, cus, cus..."
Infelizmente Tatuagem é o único filme nacional que figura nesta lista, mas é um dos melhores que se podem ver no cenário brasileiro nesses anos de comédias românticas. Muitas vezes sendo homenagem, muitas vezes sendo paródia artística, Tatuagem é um filme que respira o universo artístico jogando sempre com as margens sociais, que joga com a imagem do homossexual em tempos de ditadura e que nos faz a seguinte pergunta: numa época que estabelece os limites a se seguir, tem alguém melhor que um artista para utilizá-lo até a banalização?

#10. Any Day Now
(Any Day Now, Travis Fine, 2012, 97 min.)
Também pouco conhecido pelo Brasil, Any Day Now é um drama convincente que trata da margem social, de pessoas otimistas que lutam diariamente contra o preconceito contra todos os grupos. A proximidade das situações entre o casal homossexual e da criança com Síndrome de Down são de uma sentimentalidade tocante. Típico filme que deixa com lágrimas escorrendo na cara toda, mas um filme pra não se deixar passar por ter uma carga que deixa a tristeza fluir.

#09. O Passado
(Le Passé, Asghar Farhadi, 2013, 130 min.)
"Ela quer morrer! Por isso ela cometeu suicídio!"
Eu, que conheci Asghar Farhadi com A Separação e mais tarde fui ver Procurando Elly, virei fã de seus roteiros. O Passado, por mais que não tenha o nível de excelência de seu trabalho anterior, ainda é um filme exemplar. Vários ideias seguidos por pessoas diferentes que parecem não ter uma saída, até que desenrolamos ao inacreditável. Ressalto o trabalho excelente de Bérénice Bejo e Ali Mosaffa.

#08. Spring Breakers
(Spring Breakers, Harmony Khorine, 2013, 92 min.)
"Spring break forever, bitches!"
Um verdadeiro choque entre o estereótipo da ilusão das férias de verão contra a parcela que contribui para que tudo isso exista. Drogas, bebidas, sexo, momentos que serão esquecidos durante 11 meses para no final do ano se repetirem. É a epifania das garotas inconsequentes que não conseguem se adaptar com um estilo de vida "normal", a vida se constitui nas férias e pra sempre serão férias. Um verdadeiro divisor de águas, mas de ótimo gosto.

#07. O Ato de Matar
(The Act of Killing, Joshua Oppenheimer, 2012, 115 min.)
"Minha consciência me disse que elas tinham de ser mortas"
Também é bom dizer que, pela falta do elogiado Elena e do crítico Leviathan, O Ato de Matar é o único documentário na lista - mas dentre todos, o melhor. Não só mostra o que foi um dos grandes atos de crueldade do mundo (o ato de matar, como o próprio título ilustra), mas mostra a consciência limpa desse ato durante a maior parte do filme. O grande documentário aqui é a documentação de um arrependimento, tão verdadeiro quanto a história.

#06. Azul é a Cor Mais Quente
(La Vie d'Adèle, Abdellatif Kechiche, 2013, 179 min.)
Um dos filmes mais belíssimos sobre o amor. Ilustrando a paixão de duas jovens lésbicas na França, em círculos que ora as aceitam, ora as denigrem, Abdellatif tem construções incríveis com o retrato de Emma e de Adèle, um retrato que poderia ser de qualquer casal homossexual. É toda forma de amar - com todos os altos e baixos de uma relação - que podemos ver e, realmente, presenciar em tela.

#05. Gravidade
(Gravity, Alfonso Cuarón, 2013, 91 min.)
"Não vou mais ficar dirigindo. É hora de ir pra casa."
O filme que tirou o fôlego de muitos em salas de cinema lotadas. O filme que mostrou que Sandra Bullock sabe atuar. O filme que valeu o ingresso 3D. Gravidade tem muitos nomes, mas depois de toda a experiência visual de renascimento que dura apenas 91 minutos eu só consigo atribuir um a ele: um dos melhores filmes do ano.

#04. Depois de Lúcia
(Después de Lucía, Michel Franco, 2012, 103 min.)
Particularmente, tenho uma crítica com Depois de Lúcia, um filme do qual eu não esperava nada e me mostrou ser mais maduro do que tudo: é um filme exagerado. Mas, de uma maneira ou outra, será que um assunto tão comentado e banalizado atualmente tem chance de marcar alguém se for tratado com sutileza? Uma das maiores surpresas que eu tive, que ilustra os extremos do bullying até chegar na superação por meio da perda.

#03. Amor
(Amour, Michel Haneke, 2012, 126 min.)
Amor. Love. Liebe. Amore. Sevmek. любовь. Amour. É uma só palavra, mas o sentimento que ela exprime ainda assim nos leva a milhares de interpretações sem nunca sermos exatos. Amor, simples, sucinto e direto, ganhador da palma de Cannes e com atuações monstruosas de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, um filme que merece ser visto, revisto e, se possível, visto mais uma vez. A definição mais completa que eu tenho pra definir o sentimento.

#02. Frances Ha
(Frances Ha, Noah Baumbach, 2012, 86 min.)
Com uma dose incrível de otimismo e bom-humor, Frances Ha pode ter sido minha maior surpresa do ano, por ter partido de um diretor que já tinha me desapontado anteriormente. Não tenho como descrever em palavras o que funciona no filme: é Greta? É Noah? É o preto e branco, é a trilha sonora, é a montagem? É tudo isso, somado ao incrível sentimento de bem-estar que me preencheu assim que eu saí do cinema. É quase uma Amélie dos Estados Unidos, mas com um egoísmo inato ao ser-humano que permite que o filme seja um retrato fiel, não fictício, de qualquer espectador.

#01. A Grande Beleza
(La Grande Bellezza, Paolo Sorrentino, 2013, 142 min.)
"Mas, minha senhora, o que são essas vibrações?"
O que falar de um filme que te pegou completamente desprevenido? A Grande Beleza é o tipo de filme que consegue agradar a muitos públicos: há um humor ácido que consegue fazer todos rirem. É a crítica ao atual, tendo base na alta sociedade romana e em situações não-ortodoxas que fazem o ritmo do filme de Sorrentino ser cômico e artístico ao mesmo tempo. Com altas ressalvas à arte e sempre com um sentimento saudosista, A Grande Beleza se compara ao cinema italiano em muitas partes. Quem não vê A Doce Vida e 8 1/2 em tantas cenas desse grande contemporâneo é cego. Um retrato fiel não só da Itália, mas do cenário artístico, político e social atual com precisão e ironia.

20 de dezembro de 2013

Gravidade (2013)

Um filme de Alfonso Cuarón com Sandra Bullock e George Clooney.

Toda vez que vou ao cinema pra ver um filme sobre espaço, eu sempre tenho em mente uma única frase clichê que eu sei que vai ser o leitmotiv do filme inteiro: "nós não estamos sozinhos". Sei que quando eu vou ver uma exploração à Marte, nós não estaremos sozinhos. Sei que quando vamos até a Lua numa sala de cinema, nós não estaremos sozinhos. Quando eu for ver o próximo capítulo de Star Wars, eu saberei que não estarei sozinho. E até mesmo quando o argumento tenta transcender os estereótipos, eu chego até Europa (no caso, a lua de Júpiter) e, ainda assim, não estou sozinho. No meio de tanto vazio, parece que é impossível ficar sozinho. Ou ao menos parecia.

O que eu queria dizer com tudo isso é que ao assistir Gravidade, o novo filme de Alfonso Cuarón, eu nunca me senti tão sozinho no espaço, no cinema ou em qualquer outro local que eu tenha visto o filme. Sei que haviam pessoas ao meu lado, sei que eu estava acompanhando a cada momento as aventuras da dra. Ryan Stone (Sandra Bullock), mas eu estava tão sozinho quanto ela. É a capacidade fílmica de se reinventar e reinventar o próprio espaço a cada momento.

Gravidade não se situa num futuro pós-apocalíptico, não necessita de muita imaginação pra ser capaz de imaginar um universo em que as situações acontecem. É simples, na verdade. A câmera pega a história da engenheira espacial Ryan Stone, uma novata nessa área, e a mistura com a história do veterano Matt Kowalski (George Clooney), que se aposentará assim que por os pés de volta a Terra. O que deveria ser tranquilo, apenas uma manutenção em um satélite, se torna um caos: destroços de outro satélite entram na mesma órbita dos astronautas, danificando a nave de Stone e Kowalski. Como únicos sobreviventes, os dois precisam vagar pelo vazio até outra estação espacial, sem segurança, sem chão, com pouco oxigênio e menos combustível ainda.

Daí começa a jornada de Gravidade, repleta de uma ambientação incrível - até mesmo aprovada por especialistas. A direção de Alfonso Cuarón é focada em planos-sequência, muitos mais longos que outros, muitos mais dinâmicos que outros. É de se lembrar, porém, que a qualidade que permanece na fita é a sutileza e a leveza das imagens. A câmera flutua para alternar entra a figura de George Clooney e o desespero de Sandra Bullock. Muitas vezes somos refletidos nos próprios trajes espaciais, como na hora em que a dra. Ryan Stone vaga sozinha pelo espaço e a Terra e o Sol são refletidos em seu capacete, misturados ao olhar de medo e aos sons de respiração ofegante. Como o filme é criado a partir de efeitos visuais, tiro meu chapéu a toda a sessão. O realismo de cenas como a da destruição de um satélite é chocante, e tenho que dizer que a experiência 3D vale bastante a pena.

Fator também excelente em toda a fita é o respeito ao silêncio presente em todos os níveis. Seja em sons diegéticos quanto em trilha sonora, o diretor mantém o maior respeito às leis da física, apenas mantendo como som aquilo que a dra. Ryan Stone ouve. Somos a dra. durante a maior parte de Gravidade. A trilha sonora de Steven Price é  o máximo desse respeito, sempre mesclando seus momentos de ápice construído com um silêncio profundo. Assim como o filme, trilhas como The Void e Don't Let Go respeitam muito a narrativa fílmica, construindo toda uma ambientação que cresce imperceptivelmente. A faixa homônima ao filme, Gravity, que dá os sons aos momentos finais é de uma beleza gritante - quando menos percebemos a voz humana toma forma no fundo de toda instrumentação e dá uma continuidade ao desfecho.

A sensação de que a história não acabou no final é o que realmente fica. Alguns elementos piegas são inseridos no longa (como a história triste e sofrida generalizada de Sandra Bullock), mas os atores conseguem contornar isso bem. A narração de Sandra Bullock não evidencia a perda como principal, mas sua própria solidão - elemento que contorna o filme e passa aos espectadores o sensorial. Afinal, somos Ryan Stone por algum tempo. Somos a lágrima que flutua quando a personagem se entrega a sua dor, somos o fogo que flutua quando a personagem supera sua perda. E, muito além da solidão, somos seu renascimento. A composição de metáforas visuais nos deixa a par disso: quando vemos Bullock em posição fetal, cercada por fios, semelhante a um bebê no útero, é que podemos perceber como a jornada da personagem realmente a transformou. É a verdadeira gestação da independência, da maturidade, da experiência.

Cuarón, num roteiro relativamente simples e num deleito visual, consegue trazer para nós uma solidão incomparável a qualquer outra no universo. É você, sozinho, em meio ao nada, em meio ao vazio. O que resolvemos fazer a partir desta solidão é que é o fundamental. É Gravidade, antes de uma ficção científica, é um filme que serve para mostrar que estamos, sim, sozinhos nesse universo, independente de qualquer outra vida extraterrestre. E que, mesmo assim, ainda somos capazes de nos reerguemos nas nossas próprias pernas.

NOTA: 10

12 de dezembro de 2013

Azul é a Cor Mais Quente (2013)

Um filme de Abdellatif Kechiche com Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux.

Jean-Paul Sartre, em sua filosofia existencialista, já falava que a existência precede a essência. Em sua corrente desprovida de Deus (entende-se por aqui qualquer outra divindade ou ser superior) não podemos dizer que alguém nasce com a pré-destinação de ser correto ou justo. O mundo é o que fazemos dele, carregamos a humanidade em nossas costas, reações e consequências. O filósofo cita isso em sua conferência O existencialismo é um humanismo, que não é por menos citada em Azul é a Cor Mais Quente, novo filme de Abdellatif Kechiche. A essência - ou existência - do filme é completamente permeada pela filosofia Sartriana.

Minha única experiência com Kechiche anteriormente foi Vênus Negra (2010), com uma construção de personagem semelhante a de Azul é a Cor Mais Quente: em ambos as personagens são apresentadas por suas ações, mas em momento algum elas têm a voz para falar o que as define (se é que algo as pode definir). Faz parte da complexidade de um ser-humano, ser mais do que aquilo na tela mostra. Isso fica claro em toda a sessão de Vênus Negra, como um incômodo ao pé do ouvido que só nos mostra o lado do colonizador e a condescendência do colonizado. Nesse novo filme, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, a vida de Adèle fica clara à partir do segundo ato.

As três horas de sessão apresentam para nós uma adolescente, ainda em fase de estudos literários, aspirante à professora. Essa adolescente é Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma menina que ainda está aberta para novas descobertas em sua vida. Nessa fase de experiências é que ela conhece Emma (Léa Seydoux), uma moça sedutora, com um cabelo azul e vivo, abertamente homossexual.

Para bom entendedor, meia palavra basta. Não é difícil saber com propriedade o que vem a seguir se combinarmos essas duas personalidades de características tão complementares. Mas, como dito antes, ninguém é só o que mostra nas telas.

A história de amor consequente do encontro de Adèle e Emma é impulsivo e explosivo. Em muitos aspectos as duas se completam, em outros temos a sensação constante de que não foram feitas para dar certo. O que, felizmente, dá certo no longa-metragem é a criação desse laço de forma simples e tranquila, sem precisar apressar a paixão, o amor e o tesão para encurtar a sessão. Tendo noção disso, Kechiche explora ao máximo as três horas para criar o melhor clima de paixão entre as duas moças. O resultado? Ninguém consegue perceber o tempo passando na sala de cinema. A primeira troca de olhares das duas é apenas depois de 15 minutos do começo da sessão. A primeira interação real só acontece depois de mais 40 minutos, que servem para fixar um lado da personalidade de Adèle, o lado mais latente naquele momento.

O início do filme consiste em fixar uma Adèle contida, que ainda sofre a influência das amigas em suas escolhas, longe de se abrir para surpresas. A coloração predominante é alaranjada, clara, quase como se a fita estivesse pegando fogo - as noites são quentes, os jantares com a família são muito próximos, as amigas andam todas juntas. O relacionamento primário de Adèle com Thomas (Jérémie Laheurte, namorado da atriz) explode com essas cores. As ruas estão com o tom laranja da pele dos dois, o sexo é envolto com proximidade, o calor humano que a relação de ambos exala é sufocante, até mesmo para a personagem. Adèle não se dá bem com essa proximidade, com essa angústia, com esse ardor intenso.

A quebra dessa proximidade excessiva se dá na próxima cena, quando a protagonista finalmente conhece Emma. Num bar alaranjado (tão alaranjado que quase engole o azul do cabelo de Léa Seydoux) é que as duas finalmente conseguem se falar. À partir daí é um passo para todo o filme mudar de contexto e, assim, trazer junto as personagens. 

Adèle não está mais tão contida. Não há mais um ódio na situação sufocante, há um toque de veracidade em cada palavra, cada declaração que poderia ser definida como um misto de ignorância com limite, mas que transborda sinceridade. A literata que não suporta Sartre, que não conhece os artistas, que não vê a necessidade de concordar com tudo o que é falado. Todos os lugares que Adèle se encontra com Emma são diferentes dos lugares em que Adèle se encontrava com Thomas: são lugares abertos, com predominância de branco, verde, azul claro, de liberdade, de expansão horizontal. As duas tem uma fuga próxima, a protagonista finalmente se encontra confortável em sua situação de um modo que nunca se sentiu no relacionamento heterossexual. Isso a atriz faz questão de mostrar em diferenças de situações, um beijo lésbico mal-interpretado gerou muito mais frustração e dor para Adèle do que o término de um relacionamento com o namorado. 

Quanto a comparação das cenas de sexo, a transa com Emma é muito mais livre também; a cama é pintada com tons de azul e branco, a cena é ampla e não se restringe a duas pessoas ocupando um só espaço, espremidas na tela. Aqui há o prazer da distância, de um plano geral que consiga mostrar os dois corpos femininos no auge do prazer e ainda assim exibir detalhes do espaço. O sexo com Emma é longo, demorado, sem pressa, prazeroso. O prazer é compartilhado, não pesa apenas pra um lado. Admiro muito o trabalho de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, especialmente nesta parte pelas cenas explícitas e por uma entrega na atuação.

No segundo ato de Azul é a Cor Mais Quente é que a filosofia de Sartre se faz mais presente. Adèle, antes restringida por rótulos sociais (É lésbica? É hétero? É artista? É trabalhadora?) finalmente acha o conceito Sartriano de liberdade. O que era restrição agora é angústia. A personagem enfrenta dúvidas e sem nenhuma parcialidade na direção, apenas a mostração dessa dúvida de um jeito bem explícito. Adèle, que só se vestia com a cor azul, agora tem detalhes vermelhos em sua roupa. O azul continua sim, presente em qualquer roupa que a atriz vista neste segundo ato, em qualquer detalhe, seja na roupa de cama, seja no oceano em que ela mergulha. O encontro de Adèle e Emma (o perto do desfecho, que eu prefiro não entrar em maiores detalhes) tem uma diferença gritante do encontro no bar lésbico. O ambiente é tingido de azul o tempo todo, dando um detalhe não só intimista como sofredor.

Como Adèle mesmo fala, ela come de tudo, menos de ostras (até aquele momento). Poderia passar mais alguns parágrafos discorrendo sobre as relações familiares ambíguas, décadas de teoria queer, a polêmica cena sexual, a fotografia, a trilha sonora e até mesmo o cabelo de Adèle. Acho que tudo isso é detalhe em um filme que só quer brindar o amor livre. Pela liberdade amorosa, pelo prazer de poder comer de tudo, desde um macarrão à bolonhesa até belas ostras, abertas, espaçosas, brancas. Por uma Adèle que não é nem azul, nem vermelha, mas roxa.

NOTA: 9

30 de setembro de 2013

Exilados do Vulcão (2013)

Um filme de Paula Gaitán com Clara Choveaux e Vincenzo Amato.

Desde o advento do cinema há uma predileção para a evolução ser cada vez mais introspectiva. Se compararmos um filme como O Nascimento de Uma Nação com outro do tipo Exilados do Vulcão, vemos que o contemporâneo tem um uso abusivo do silêncio, da calma, da leveza e da lentidão, por mais que o filme clássico seja mudo. A reflexão se tornou recorrente na maioria dos filmes contemporâneos, para muitos diretores a arte cinematográfica não é mais sinônimo de diversão, de entretenimento. É apenas uma forma de incômodo.

Depois de muito trabalho com o cinema político, é de se esperar que atualmente os filmes consigam mesclar essas duas qualidades: a de contar uma história clara ao público e, ao mesmo tempo, brincar com emoções e conhecimentos intrínsecos, de forma a criar uma sensação única a cada indivíduo. Exilados do Vulcão, filme de Paula Gaitán infelizmente não é esse tipo de filme. E qual a grande importância disso?

Vamos por partes. A história de Exilados do Vulcão é simples: uma mulher consegue resgatar de sua casa incendiada objetos que pertenciam ao homem amado e, assim, cria uma parede de lembranças. O argumento cria mais do que mil imagens, mas a diretora faz da forma mais diferente possível. Não se consegue entender essa história caso a sinopse não seja lida antes da sessão. A linha do tempo fílmica é completamente intimista - e não se pode dizer que é um intimismo compartilhado, ou mais da metade da sessão que foi exibida no Festival de Cinema de Brasília não sairia da sala no meio do filme.

Bem satisfeita com a não compreensão da história e das atuações de Clara Choveaux, Simone Spoladore e Vincenzo Amato, o filme (com pouco mais de duas horas de duração) ainda tem menos do que dez falas, além de nenhum diálogo. O som possui o mesmo ritmo lento e maçante da sessão e a trilha sonora contém intérpretes como Cat Power para ralentar ainda mais o resultado final. É colocada em bom momento uma canção da banda Yeah Yeah Yeahs, quase na metade do filme, talvez o ápice de animação que permite que o espectador comum volte a atenção pra fita. Afinal, é muito fácil se perder quando a própria tela já dificulta seu trabalho de localização.

A fotografia é um dos (senão O) maior trunfo do filme da ex-mulher de Glauber Rocha, a captura dos planos é excelente desde o seu início, quando numa paisagem desértica e estática observamos a gênese do movimento de um homem desconhecido - e que fica desconhecido durante o resto da fita, diga-se de passagem. Exilados do Vulcão ainda nos presenteia com mais imagens incríveis, como a corrida de diversos planos em uma floresta, o mega zoom em partes do corpo, o contraste perfeito de luz e sombra em corpos nus e ainda a bela cena final, com uma visão panorâmica excelente. E acredite, mesmo eu contando o final, é impossível dizer que isso é um spoiler.

O que quero dizer é que não há uma opinião certeira que defina o porquê de Exilados do Vulcão ter sido o grande filme vitorioso deste ano do Festival de Brasília, sendo que sofreu uma crítica tão dura do público e da própria crítica. É óbvio que é um filme sensorial, altamente abstrato, que funciona muito melhor como um grande apanhado de imagens do que como um longa metragem que arrasta todos os seus espectadores por uma viagem indesejada.

Não há como julgar o caráter reflexivo do cinema, que já se arraigou desde a década de 60 na sétima arte. Condenar a reflexão seria condenar toda a obra de Godard, Rocha, Truffaut. Mas há uma linha tênua entre uma reflexão que se utiliza de uma história e uma reflexão que é mero artefato. Exilados do Vulcão não enxerga essa linha; ele ultrapassa quilômetros dela. É sim um filme que o silêncio é incômodo, e muito mais que isso: o silêncio é apenas silêncio. Não o silêncio de uma pausa. Não o silêncio de calmaria. Não o silêncio de um cenário, de um personagem, de um estado de espírito. É o verdadeiro silêncio de quem não tem nada a dizer.

NOTA: 2

21 de setembro de 2013

Amor Bandido (2012)

Um filme de Jeff Nichols com Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Sam Shepard e Reese Witherspoon.

Mud (Assim prefiro chamar Amor Bandido, esperem que não se importem, mas a tradução brasileira conseguiu transformar mais um título em piada) é o tipo de filme que nós não vemos todo dia, e eu dirijo esta mensagem a todos: desde cinéfilos até pessoas mais ocupadas que se limitam a ver, no máximo, um filme por mês. Há uma construção no cinema contemporâneo que segue a linha fácil de criação de blockbusters, na criação de um herói, de um clímax, de uma boa diversão, de gritinhos na plateia e de risadas em bons momentos.

Jeff Nichols, diretor de Shotgun Stories e o aclamado O Abrigo (com Michael Shannon e Jessica Chastain) é um novo diretor, e bem aclamado por seu trabalho. Permitam-me dizer, rapidamente, que eu não vejo o que a maioria vê em O Abrigo, seu segundo longa-metragem, mas isso fica pra outro texto. Há, porém, um mérito que eu tenho que entregar ao filme: simplicidade. A história é fabulosa, não há uma normalidade, não há um padrão a ser seguido, não é um excerto normal em uma vida normal, e mesmo assim o diretor ganha com a simplicidade do roteiro, das cenas e da conclusão.

Mud não está nem um pouco longe dessa estética. Ele ganha sua vez por ser um pequeno conto de fadas inserido num ambiente duro, grosso, áspero. Estamos nos pântanos do Mississipi. Há uma comunidade que vive na beira do rio, vivendo das próprias águas para a subsistência. Entre essas pessoas, há a família de Ellis (Tye Sheridan). A mãe não quer mais viver na casa à beira do rio, herança de seu pai. O pai precisa viver lá, pois não sabe o que fazer na cidade grande. O menino fica dividido, e assim também ficamos. A direção acerta em nos colocar na cabeça de Ellis, uma criança de 14 anos descobrindo a adolescência com resquícios de uma infância ainda viva no interior. Enquanto a mente entra em conflito, o espectador também entra no mesmo efeito. A inocência é a verdadeira guia do olho-câmera em Mud, são poucos os momentos em que um adulto fala e é compreensível o que diz. Pegamos as irritações, os jeitos, as dúvidas e as emoções de Ellis e, à partir do momento em que o menino foge da janela de sua casa, já começamos a nos conectar com todos eles.

A história, porém, prolonga além disso e foca em outras questões - todas ainda vistas pela visão inocente de um menino que crê no mundo em que vive. Ellis e seu amigo Neckbone (Jacob Lofland) ouviram uma história e querem comprovar a veracidade. Há um barco abandonado numa ilhota e é necessário ver para crer, ou ao menos satisfazer a vontade ilimitada do adolescente. É nesse barco que mora Mud (Matthew McConaughey), um homem misterioso com necessidades simples e uma personalidade dúbia. Para um garoto, Mud é um herói. Para o outro, Mud é o vilão. Quem é Mud?

Mud passa longe de herói, da mesma forma que não é um vilão. É um simples homem em conflito com uma força mais presente do que nas outras simples pessoas que existem. Mud é um deus ex-machina para almas inocentes assim como o barco é a representação do fantástico para o perturbado e obsessivo adulto. O que mais chama a atenção é o fato do próprio Mud possuir trejeitos infantis sobre a insistência em um determinado assunto, enquanto Ellis se parece muito mais adulto do que ele em algumas cenas, apesar de sua pouca idade. Matthew McConaughey faz muito bem sua caracterização do anti-herói, com inocência em uma carapaça de rudeza. Os trabalhos de Tye Sheridan e Sam Shepard não passam despercebidos, em especial para o ator mirim. Há de se lembrar também de toda a trilha de David Wingo, essencial para a construção do amadurecimento, o real objetivo de todo o filme com suas situações justapostas e seu ritmo leve.

Mud tem um saldo mais do que positivo por ser um conto de fadas moderno, baseado num cenário impropício ao nascimento de tanas emoções conjuntas. A seriedade e a mesmice da rotina são cansáveis, os momentos de alegria são poucos, muitos momentos o filme atinge uma densidade anormal para o esperado, e mesmo assim é a prova viva de que um filme consegue reproduzir relações pessoais tão simples como amor e amizade em uma tela.

Quantos filmes te fizeram sorrir neste ano, em relação a estreias? Me lembro de três filmes que me fizeram sair leve de uma sala do cinema, com um sorriso no rosto e uma sensação além do esquecimento. Mud é um deles, e consegue tudo isso com uma simplicidade admirável.

NOTA: 9

13 de setembro de 2013

Invocação do Mal (2013)

Um filme de James Wan com Patrick Wilson e Vera Farmiga.

Lembro-me de alguns anos atrás, quando Namorados Para Sempre estreou no dia dos namorados, numa tentativa clara de enganar um público-alvo com um nome completamente errôneo. Traduzindo literalmente do inglês, o nome seria algo como Dia dos Namorados Triste ou qualquer variação. Imagino a quantidade de casais que, esperando ver um filme romântico com seu par, depara-se com um melancólico fim de namoro. A distribuição é muito esperta e nem todas as vezes é justa. Fico feliz em dizer que Invocação do Mal não é uma enganação para quem vai na sexta feira 13 ao cinema esperando ver um filme de terror - e um melhor do que todos aqueles que nos foram apresentados ao longo do ano.

James Wan é o diretor australiano conhecido por ser o precursor de uma das maiores (e mais cansativas) franquias do horror desse novo século, Jogos Mortais. Isso já comprova sua qualidade como diretor de filmes de terror e de tensão, já que ele só dirigiu o primeiro filme, aquele em que tudo era novidade e apresentava um plot twist realmente inesperado. Essa não é sua única bagagem nos filmes de terror, já que ele se aventurou também em Sentença de Morte e Gritos Mortais. Wan, porém, conseguiu assumir uma estética recentemente com seu ótimo Sobrenatural, um filme relativamente simples que consegue manter tensão e ritmo até os momentos finais, mesclando todos os elementos possíveis.

Sobrenatural, porém, foca no exagero e na tensão precipitada. O foco do filme são sustos, o que nós vemos desde o início quando o nome do filme surge de uma tela preta com uma trilha ensurdecedora. Isso se difere de Invocação do Mal pois este gosta de construir uma atmosfera para chegar ao fim. Há sustos aqui também, mas eles são premeditados e crescentes. O medo do novo filme de Wan provém do acompanhamento da situação. Note que aqui não faz sentido apenas aparecer um relato do que ocorreu em forma de narrativa (Filha do Mal, O Último Exorcismo) ou flashbacks (O Exorcismo de Emily Rose). Nós, como espectadores, somos inseridos no tempo-espaço da família Perron e só assim conseguimos sentir o que eles sentem, da mesma forma que Atividade Paranormal fez e ainda faz.

Mais uma vez o roteiro consegue ser simples e, ainda assim, manter uma tradição do cinema do horror. É inegável a referência a obras como O Exorcista ou Poltergeist, mas originalidade não é pré-requisito de qualidade, por mais que seja bem vinda. Invocação do Mal, porém, tem muitos de seus bons momentos e criações. O filme ganha um ritmo muito bom, começando com lentidão no início até se revelar rápido e ágil em fugir de alguns lugares-comuns. A rapidez peca em alguns momentos, porém, e não esconde pequenos furos de roteiro que prejudicam a credibilidade da narrativa, critério importante em filmes de terror.

A construção da atmosfera é impecável. A fotografia é escura e predominantemente bege, quando alguns tons claros tentam voltar à trama. Toda a direção de arte tem uma preferência para cores neutras e tons acinzentados, desde os figurinos variados até a escala de cores do papel de parede. Muitos dos ângulos utilizados dão a impressão de vertigem, com foco naqueles que tomam o olhar do protagonista como referência. A maior parte de todo o terror concentra-se no psicológico da espera, e não do imediatismo. Há de se acontecer alguma coisa, em algum momento, em algum canto da tela. A surpresa excita, mas a falta dela mantém a angústia.

Talvez o grande trunfo do filme seja a grande representação de histórias paralelas entre toda a narrativa, o que nos leva a dar uma expectativa maior a uma sequência (que eu duvido que venha a acontecer). James Wan é muito esperto em deixas várias histórias abertas, como a filha do casal Warren, o segredo que permanece em ser o que Lorraine viu e que a aterrorizou tanto, o início do casal como caçadores do sobrenatural. É muito inteligente colocar como atração principal um evento da vida da família Perron sem tirar o foco protagonista de Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga). A incompletude é que faz o filme parecer completo aos nossos olhos e é este artifício que faz o desfecho de Invocação do Mal, por mais que semelhante a muitos outros desfechos atuais, ainda manter o arrepio da espinha.

Não pude revelar o que é a história de Invocação do Mal, não pude falar mais sobre cada um dos detalhes que mais me chamou a atenção porque boa parte de uma experiência cinematográfica consiste no assistir para impressões próprias. Um terror consiste basicamente na não-expectativa para poder funcionar com precisão para um virgem do filme em questão, e tirar a experiência de qualquer um que não viu esta grande obra do horror que presenteia o dia do azar é um pecado.

NOTA: 9

29 de julho de 2013

Spring Breakers (2012)

Um filme de Harmony Korine com Selena Gomez, James Franco, Vanessa Hudgens, Ashley Benson, Rachel Korine.

Harmony Korine não é um dos diretores mais conhecidos do cinema. Talvez muitas pessoas tenham visto Kids, que tem o roteiro de Korine. O diretor é conhecido por filmes mais pesados, como Gummo, Trash Humpers ou Mr. Lonely, mostrando uma parcela social diferente do que estamos acostumados com as fórmulas Hollywoodianas e até mesmo se afastando delas. O que podemos esperar quando um elenco relativamente composto por cantoras pop da Disney e gente mais do que conhecida de um diretor que nunca tinha feito isso?

Candy (Vanessa Hudgens), Brit (Ashley Benson), Cotty (Rachel Korine) e Faith (Selena Gomez) são boas amigas desde o primário. Elas estudam na mesma universidade e se veem presas nas férias de verão. É tudo a mesma coisa, as quatro precisam respirar novos ares. O dinheiro, porém, é curto e elas não conseguem fazer nada com o que possuem.

Daí surge a primeira ideia: porque não começar essas férias de verão com a máxima energia? Candy, Brit e Cotty resolvem roubar uma lanchonete e, assim, fugir para a Califórnia. Faith, uma menina que frequenta a igreja com constância, não sabe dos planos até as amigas aparecerem com o dinheiro (há de se falar, antes disso, da perfeição de Harmony Korine com seu único plano ilustrando o assalto, já que um carro roda a lanchonete e tudo o que vemos durante o tenso minuto que se segue são duas meninas encapuzadas através das janelas de vidro).

Já convencidas do roubo, as quatro amigas começam a viver na Califórnia um sonho que não existia na universidade. O sonho não é inteiramente sensorial, é de vivência. O que vemos é o sujo, o clichê e o escrachado. É sexo barato, é droga, é bebedeira, é tudo aquilo que relacionamos instintivamente a uma imensa festa da qual não é agradável se ver nada. A ironia da narrativa já se inicia a partir deste ponto. Tudo se dá por parte das ligações entre as meninas e as famílias, em especial Faith, que possui uma ligação com a casa. Enquanto a menina descreve para os pais o sonho que é estar na Califórnia, as imagens da noite retratam um pesadelo bêbado.

Faith, a única que mostra um pouco de consciência, também possui uma grande parte de sua personalidade baseada na hipocrisia. O conflito entre o conhecido e o desconhecido é o que transforma a menina, muitas vezes podemos observar que a construção da personagem é feita apenas em imagens de um passado que não se deixa ir embora. Eu não achei que fosse dizer isso aqui ou em alguma outra crítica, mas ainda bem que Harmony Korine me fez morder a língua: Selena Gomez tem uma atuação muito boa mesmo. Talvez por ser a única com algo a mais na fita, ela se sobressaia em relação aos outros, e é graças a ela que o longa-metragem tem um choque. Não creio que valha a pena falar muito sobre as outras, que conseguiram se livrar de bons esterótipos e criaram personagens tão vazias quanto as férias de verão, mas é bom ressaltar a transformação de James Franco em Alien.

Spring Breakers chega ao seu final com um ponto de interrogação. O que é que Harmony Korine quis falar dessa vez? Não sei se é a teoria certa e não sei se isso fica claro a todos, mas é óbvio para mim que o filme inteiro fala sobre o que as férias de verão realmente são: vazio existencial preenchido com ilusão. Uma pausa que tenta dizer que a vida não precisa ser o ano inteiro, mas aquele curto mês de ócio. A maioria consegue perceber isso e volta para a sua vida como se nada tivesse acontecido - é assim que conseguimos distinguir os personagens. Quando uns voltam para suas casas, é como se eles nunca tivessem existido. As férias viram apenas uma paisagem distante numa janela intocável do ônibus. O retrato dessa vez é de quem não faz distinção das vidas para as férias de verão. São as meninas que vão a todo lugar de biquíni. São os traficantes e a falta de respeito. São os diálogos vazios que parecem querer dizer mais do que são. E tudo isso é resumido no caráter brilhante de uma canção de Britney Spears.

Spring break forever, bitches!

NOTA: 9

4 de julho de 2013

A Casa Vermelha (2012)

Um filme de Alyx Duncan com Lee Stuart e Jia Meng Stuart.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.

Na minha experiência minúscula como crítico de cinema, percebo que tema recorrente em filmes é o amor. Mas, assim como os filmes, muitas formas de amor vem de maneira interpretada. Amor interpretado não é amor real, por mais que alguns realmente se aproximem ou até cheguem no ápice de fazer um olhar emocionar a plateia. Alguns dizem que amor não depende só de interpretação, eu digo que depende sim. Um diretor, editor, roteirista, músico podem fazer obras belíssimas de transformar um cinema em rios de lágrimas. Amor na vida real só necessita de um casal.

A Casa Vermelha é um quase documentário feito por Alyx Duncan, a filha de Lee Stuart e a enteada de Jia Meng Stuart, os dois astros da fita. O casal mora em Nova Zelândia, mas Jia vem de uma família chinesa. Desde complicações em sua terra, ela e o filho pequeno vieram a Nova Zelândia e conheceram Lee. Muitos anos depois, os pais de Jia passam por complicações e ela tem de voltar a China e passar algum tempo longe de seu marido.

O filme é quase um documentário porque, graças a algumas entrevistas recentes da diretora, percebemos que a construção do conflito é falsa e não aconteceu na vida real. O cinema-verdade não é tão verdadeiro assim. Tal situação, porém, dá sentido ao título do filme, assim como cria grandes interpretações do verdadeiro porquê de A Casa Vermelha ser um grande filme sobre o amor.

O que é um lar? É consenso artístico que lar não é sinônimo de casa. Lar é onde o conforto está, a segurança está, o bom está. Lar não é necessariamente família, não é necessariamente aconchego. A casa vermelha, que dá nome ao longa, é um espaço pequeno. Não é o sonho de ambição de muitas pessoas - e Lee deixa claro isso ao falar da intromissão de turistas nas ilhas neo-zelandesas. A casa é só o suficiente para dois corações em dois corpos diferentes poderem viver sem qualquer problema. A casa, porém, nada mais é do que um espaço físico.

Eu posso e você também pode contar quantas vezes falam um "eu te amo" em A Casa Vermelha. Uma vez. Apenas uma vez, na voz de Jia, com o sotaque chinês ao falar inglês para a compreensão do marido. Enquanto Jia e Lee não fazem esforço para mostrar a fita o que é a vida que levam, o título cai por terra. A casa vermelha nunca foi um lar: o parceiro é que sempre foi o bastante para ser a morada do outro.

1 de julho de 2013

Don Jon (2012)

Um filme de Joseph Gordon-Levitt com Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson e Julianne Moore.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.


Há uma hora em que os gêneros saturam. Inovação é necessária, mas repetição é cansativo. Comédias já tinham dado hora pras comédias românticas, que ultimamente deram mais espaço para comédias independentes como Pequena Miss Sunshine, Juno, (500) Dias Com Ela e 50/50. Experiente nesse quesito, até mesmo por ter protagonizado dois dos filmes exemplificados, o sempre bem-vindo Joseph Gordon-Levitt resolve dar as caras em sua estreia na direção para nos dar mais uma comédia alternativa, que foge um pouco do ritmo comercial. Mas... já não acabamos de ver isso na sessão anterior?

Johnny Martello (Joseph Gordon-Levitt) é um americano vindo de família tradicional. Mora sozinho, trabalha como bartender, vai à missa aos domingos, se confessa, almoça com a família, sai com os amigos, transa com muitas mulheres... e é um verdadeiro viciado em pornografia. Tão viciado que só o barulho do computador ligando já consegue deixar o protagonista de pau duro. Sua satisfação com o pornô gera insatisfação na vida real, pois o sexo neste não atinge as expectativas do que é visto online. Quando ele conhece Barbara Sugarman (Scarlett Johansson), uma mulher nota 10, ele começa a se perguntar: seria ela minha cura?

O foco do filme é a discussão mais do que já utilizada de qualidade contra aparência. Nem tudo que é belo é satisfatório o suficiente. O exemplo disso é literal, a sempre bela (e nem sempre boa) Scarlett Johansson. Numa atuação boa, por mais que um tanto exagerada (seu sotaque é imperdível, eu precisava encaixar isso no texto), ela é o verdadeiro exemplo de personagem fetiche, mas que não contribui para manter o nível do filme, já que ela beira a ficção numa comédia que possui como base o naturalismo e a veracidade. A falta de personalidade não auxilia na primeira impressão.

Julianne Moore, por outro lado, faz um trabalho excelente e, ao invés de criar situações antagônicas, é um grande suporte para a comicidade da fita. Alguns traços de sua Esther assemelham-se muito com o que a atriz fez em Minhas Mães e Meu Pai, mas enquanto conhecemos cada vez mais a experiência que molda a personagem, mais diferenças vão surgindo.

O que faz a fita ganhar o espectador é a veracidade que ninguém naquela sala quer admitir: todo mundo vê pornô. Não adianta, espectador, um dia você já abriu o Xvideos, nem que por curiosidade. E o vício traz não a assimilação, mas o humor da identificação em alguma situação. Seja a família, - que cria o ambiente mais sufocante da sessão - sejam os relacionamentos. Chega um ponto que ver Joseph Gordon-Levitt pegando um lenço de papel ou ouvir o barulho do computador ligando chega a ser cômico por si próprio.

E, óbvio, não posso deixar de citar o ator/diretor/protagonista/parceiro do Batman (opa!). Um debut acima da média para qualquer um que comece. O tom jocoso ganha o espectador nas cenas cotidianas ou nas mais irreverentes, como as múltiplas confissões. E sim, Gordon-Levitt tem um carisma que preenche o vazio existencial de um vicio ou o vazio de uma sala de cinema silenciosa.

Don Jon ganha o público por ser pequeno, um episódio não especial no cotidiano de alguém. E ainda consegue trazer um desfecho inesperado, mas muito satisfatório. O roteiro não chega a ser muito pensado, mas é tão bem amarrado que não posso criticá-lo apenas por não crescer para outros horizontes. O que posso criticar é que Don Jon não possui personalidade. De resto, vale muito a pena sentar na cadeira do cinema, relaxar e gozar.

NOTA: 7

28 de junho de 2013

Guerra Mundial Z (2013)

Um filme de Marc Foster com Brad Pitt, Mireille Enos e Daniella Kertesz.

O mundo é o verdadeiro limite para o fim. Ninguém realmente se importa com o que está acontecendo em Marte, desde que não influencie em nada no planeta Terra. É por isso que se um filme como Marte Ataca! fosse ambientado em Marte, seria chato. É por isso que a franquia Star Trek sempre tem um conflito para resolver que coloca a vida no planeta Terra em risco. E bem, talvez seja por isso que o público está certamente saturado de filmes de aniquilação mundial, por mais que eles consigam inovar em algum aspecto.

Então num mundo que já foi invadido por zumbis em Resident Evil, Todo Mundo Quase Morto, Madrugada dos Mortos Vivos, Vírus, Meu Namorado é um Zumbi e muitos, muitos, muitos outros, é muito, muito, muito clichê uma abordagem com o mesmo tema e sem inovar em nada muito novo. Guerra Mundial Z é assim: um caótico filme que, no fim da sessão, não consegue nada além de ser caótico, tanto para o público quanto para os próprios personagens que, até no fim da fita, parecem não saber aonde estão.

Gerry Lane (Brad Pitt) é um ex-agente da ONU que desistiu de arriscar a vida trabalhando como investigador e agora vive cozinhando panquecas para a família. Num dia, quando ele vai levar suas filhas à escola, o trânsito está caótico. Pessoas estão desesperadas e em pouco tempo a morte chega para assombrar. Se vendo num verdadeiro cenário de guerra, Gerry, sua mulher Karin (Mireille Enos) e suas filhas Constance e Rachel (Sterling Jerins e Abigail Hargrove), têm de usar o instinto de sobrevivência até conseguirem entender o porquê de algumas pessoas estarem mordendo as outras.

O filme possui erros de roteiro que chegam a ser grotescos. Os exemplos variam desde um filho que não consegue se comover com a morte dos pais e já corre para a ajuda de desconhecidos até uma bombinha de asma. Assim como no último filme da franquia Resident Evil, Guerra Mundial Z parece um imenso videogame, onde as fases são lugares ao redor do mundo até, finalmente, chegarmos no clímax (que, comparado ao resto do longa, passa muito rápido). O 3D, por outro lado, é bem utilizado, e as cenas de ação são realmente eletrizantes. Mas não podemos nos alvoroçar tanto com cenas assim sendo que elas provém de uma granada e uma arma de fogo em um avião que foi incapaz de matar todos. 

O filme é de Brad Pitt, e seu personagem deixa isso claro. O cansaço característico de sua voz fica até o final, e isso dá sugestões ao seu personagem muito boa, que extrapolam a imagem de início. Mireille Enos é tal mal-aproveitada que creio que não vale a pena falar sobre ela. A atriz é um simples estepe de Brad Pitt, que some quando o clímax para de se relacionar inteiramente com o protagonista. Há de se falar a mesma coisa de todos os outros atores no longa-metragem. Danielle Kertesz é a única que parece não depender completamente do ator principal, a atriz consegue estabelecer uma identidade própria desvinculada do protagonista.

O desfecho do filme parece ser incompleto, como se fosse jogado do nada em cima de toda aquela atmosfera de ação e suspense. O caso se desenvolve bem, tirando os erros graves, mas perdoáveis, cometidos para aumentar a adrenalina do espectador com as cenas na tela. O ápice, realmente, é quando chegamos ao país de Gales e, mesmo sem tanta ação quanto comparada nas cenas em Israel ou Coreia do Sul, o clima chega ao máximo de tensão - tudo bem orquestrado pela trilha sonora final de Marco Beltrami. O desfecho, porém, não só sugere uma continuação (que já foi confirmada mesmo antes do lançamento) quanto joga todo o ritmo no lixo para uma narração em off estranha.

Guerra Mundial Z consegue inovar em um único aspecto: sua solução para o caso, mais do que diferente e muito mais interessante do que uma cura para zumbis ou o extermínio de todos os mortos-vivos. Além disso, é um entretenimento válido, tem seus bons momentos de susto e tensão e nos dá mais ou menos duas horas de diversão. Mais do que isso é exagero. Ele subestima o espectador com erros e flashbacks, nos dá um 3D que não chega perto de ser perfeito e, de bandeja, dá ao grande público algo como se fosse a mistura de The Walking Dead com 2012.

NOTA: 5

24 de junho de 2013

Blancanieves (2012)

Um filme de Pablo Berger com Macarena García, Maribel Verdú, Daniel Giménez Cacho e Sergio Dorado.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.

Ainda existe alguém que possa não conhecer alguns dos famosos contos de fadas dos irmãos Grimm que, constantemente, viraram adaptações fabulosas dos estúdios Disney? Talvez Branca de Neve e os Sete Anões seja um dos mais completos e uma das mais conhecidas que se pode ter. A história todos conhecem: a princesa, perseguida por sua cruel madrasta, foge para a floresta, encontra sete anões, come uma maçã envenenada e acorda com um beijo do seu príncipe, uma bela história de amor. E mesmo quem não vê filmes de animação, poderia conferir a mesma história nas diversas adaptações que o filme original vem tendo, como Branca de Neve e o Caçador ou Espelho, Espelho Meu.

Antes de falar, porém, deste filme de Pablo Berger, preciso falar da figura constante, que é a da madrasta malvada. A época que vivemos não tem o mesmo maniqueísmo infantil dos estúdios onde os sonhos se tornam realidade. O foco deixou de ser Branca de Neve há alguns anos, enquanto a bruxa - retratada por grandes atrizes como Julia Roberts, Charlize Theron ou Maribel Verdú - ganha mais carisma, se torna um pouco mais humana nos olhos do público, e rouba a cena com uma interpretação de matar. Vale mais a pena fazer vilões do que mocinhos, e isso não se restringe a Branca de Neve. Angelina Jolie está fazendo o papel de Malévola (A Bela Adormecida) para um filme do ano que vem. Sabendo disso, comecemos Blancanieves.

Carmencita (Sofía Oria/Macarena García) é uma pequena menina infortunada. Sua mãe, Carmen de Triana (Inma Cuesta) morreu ao dar a luz, e logo depois de seu nascimento seu pai, o grande toureiro Antonio Villalta (Daniel Giménez Cacho), casou-se com uma outra mulher. O infortúnio fica ainda pior quando sua avó, dona Concha (Ángela Molina) morre e ela tem de morar com o pai desconhecido. A madrasta da menina, uma terrível e invejosa mulher chamada Encarna (Maribel Verdú), não gosta de Carmen de modo algum e faz tudo para transformar a vida da enteada em um inferno.

O filme, assim como O Artista, é uma imensa homenagem ao cinema mudo e preto e branco. Totalmente ambientado na Espanha dos anos 20, com uma direção de arte impecável (misturando elementos circenses e figurinos incríveis), a história dá uma nova roupagem para a tão conhecida fábula da Branca de Neve. A princesa não é filha de um rei, é uma simples menina filha de um famoso toureiro. Por ser ambientado num mundo real e antigo, a compaixão e o maniqueísmo do bem e do mal não são utilizados completamente na fita. Claro que protagonista e antagonista são bem definidos com candura e ódio, respectivamente. Mas observemos, não existe pena por parte do assistente da madrasta. E nem todos os anões são confiáveis, assim o filme nos entrega.

Pablo Berger faz um grandioso filme, tornando as imagens belíssimas e com um ritmo avassalador graças a sua ótima direção e a uma montagem grandiosa. A montagem é mais do que precisa e nos entrega um filme completo. Veja todas as cenas onde o suspense ganha: todas elas têm um corte muito mais rápido, de maior tensão no espectador. Ao mesmo tempo que a montagem consegue prender na tela, também traz ótimos momentos de descontração. A comédia é recorrente, a figura da madrasta é caricata o bastante para ser engraçada, e até mesmo alguns artifícios utilizados para as legendas de fala são suficientes para fazer o público rir. Isso porque ainda nem começamos a falar de Josefa (Alberto Martínez).

No quesito atuação, ninguém perde. Ninguém mesmo. Como falado no início, a figura da antagonista recebe uma atenção maior do que a protagonista em si. Maribel Verdú conseguiu até um prêmio Goya como Melhor Atriz, tudo graças a suas falas corporais intensas, cheias de significado. Quem não fica atrás é Ángela Molina, em sua pequena aparição como a avó da protagonista. Sofia Oria e Macarena García são grandes surpresas do longa, e representando o lado masculino, Daniel Giménez Cacho e Sergio Dorado representam bem seus papéis, com ressalva ao primeiro, que consegue emocionar com o olhar.

O roteiro, por ser todo ambientado na realidade, assume tons macabros que se assemelham mais aos Irmãos Grimm do que um conto de fadas propriamente dito. Vingança, morte e muita maldade são os maiores artifícios que não permite que Blancanieves seja indicado ao público mais infantil. Não há como falar do filme inteiro, porém, sem dar uma atenção à trilha sonora: Alfonso de Villalonga faz um estupendo trabalho, pois é exatamente ele que dá o tom da fita. As canções originais, as danças, os sinos, a alegria e a tristeza, é somente ele que decide a hora exata que o espectador sente tais emoções fazendo-nos ouvir todos os seus acordes a cada momento. O próprio silêncio é bem pensado para resultar numa verdadeira explosão, um grande efeito da fita.

Não, não há muitas pessoas que não conhecem Branca de Neve e os Sete Anões, um verdadeiro clássico infantil que transcende época e idade. Recorrente em muitas situações, o conto é tão aplicado na vida real que virou um filme para adultos, com uma mão tão certeira quanto os estúdios Walt Disney (o que resultou em 10 prêmios Goya para o filme). De um modo ou de outro, ainda há muitas pessoas que nunca viram e talvez nem ouçam falar de Blancanieves. E isso é errado, muito errado.

NOTA: 9

21 de junho de 2013

Minha Mãe É Uma Peça (2013)

Um filme de André Pellenz com Paulo Gustavo, Suely Franco, Mariana Xavier e Rodrigo Pandolfo.

Eu, como faço parte de uma minúscula parcela do teatro desse grande Brasil artista, não concordo de maneira nenhuma na transferência de algumas peças para a telona. Há, claro, várias exceções - a maioria provém de obras de Nelson Rodrigues, que se provaram ótimos filmes. Mas o que vemos atualmente é uma epidemia da transformação da comicidade em cinema, ao meu ver, de forma desnecessária, descentralizando o povo do teatro para as telonas. As últimas divulgações de filmes baseados em peças se mostram comédias fraquíssimas, algumas que ainda não passam nem de trailers não empolgam nem o espectador.

Não foi grande surpresa, porém, ver que o filme do ótimo Paulo Gustavo, Minha Mãe é uma Peça, baseado em sua peça homônima, é uma da também minúscula parcela de comédias que funcionam. Dona Hermínia (Paulo Gustavo) é uma mãe como qualquer outra, a narração em off inicial frisa isso muito bem. A atarefada dona de casa tem três filhos: Garib (Bruno Bebbiano), o filho criado e casado; Marcelina (Mariana Xavier), a filha que mais dá trabalho; e Juliano (Rodrigo Pandolfo), o doce e meigo filho caçula. Quando Hermínia ouve uma conversa, ela não aguenta a pressão dos filhos e vai para a casa de sua tia Zélia (Suely Franco).

O roteiro é mais do que desnecessário. O filme inteiro é costurado, dividido em pequena esquetes de humor, o que não caracteriza um filme, caracteriza um grande stand-up baseado em memórias mais cômicas do que emotivas. Os flashes de memória só servem separadamente, já que qualquer ligação entre eles dói e não se encaixa. A desculpa dada pelo longa-metragem é a construção da história do cotidiano materno, o que até funciona como plano de fundo para algumas histórias de crescimento. Outras, como a relação com as vizinhas ou até a descoberta da morte familiar são completamente desnecessárias e causam um efeito destoante ou até mesmo ridículo.

O filme, inegavelmente, é de Paulo Gustavo. O brilho deve se deve a sua experiência nos palcos fazendo seu monólogo. A caracterização do ator como mulher é incrível, sem forçar a barra. Por mais que a caracterização do bóbis seja um tanto quanto exagerada, até mesmo sem eles Paulo Gustavo é verossímil. Muitos falam que ele é a única coisa engraçada do filme. Discordo com veemência. Ingrid Guimarães, Samantha Schmütz, Alexandra Richter, Rodrigo Pandolfo e Mariana Xavier têm um desempenho excelente e uma veia cômica que ajuda a levar as cenas sem o astro. Herson Capri e Suely Franco parece que são mecanizados, como se só servissem para apoio, e Bruno Bebbiano fica abaixo da linha do mediano. Vale apontar também atores como Mônica Martelli, mais do que má aproveitada pela fita. Vale ressaltar que a peça desta última (Os homens são de Marte... E é pra lá que eu vou!) também está programada pra virar filme.

Paulo Gustavo é um ator ótimo, seu programa 220 Volts e as peças em seu currículo são provas disso. Minha Mãe é uma Peça é mais uma destas provas do talento do comediante. Por mais que a comédia nacional seja uma das que mais me fez rir neste ano de 2013, não posso retirar minha certeza inicial: é um filme que deveria continuar nos teatros.

NOTA: 6

18 de junho de 2013

Tese Sobre Um Homicídio (2013)

Um filme de Hernán Goldfrid com Ricardo Darin, Alberto Ammann, Arturo Puig e Calu Rivero.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.

Há alguns anos atrás, o povo se encantou com o drama argentino que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, no caso, O Segredo dos Seus Olhos. O filme em questão tem como protagonista o reconhecido Ricardo Darin. O ator volta neste ano para um filme bem diferente do que se propôs a fazer: Tese Sobre Um Homicídio é um suspense, bem dirigido, bem orquestrado e bem copiado, que poderia ser confundido com qualquer suspense psicológico norte-americano se não fosse falado inteiramente em espanhol.

Roberto Bermúdez (Ricardo Darin) é um advogado que dá aulas sobre crimes numa universidade argentina. Graças a sua profissão, tanto de professor quanto a não-exercente, ele tem um vasto círculo social, e não é surpresa para o homem quando ele descobre que seu novo aluno, Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), é filho de um velho conhecido seu. No meio do semestre, um crime ocorre no estacionamento da universidade. Aos poucos, Roberto descobre algumas pistas óbvias para si mesmo e começa a desconfiar que seu aluno está por trás deste e de outros crimes.

É inegável o talento de Hernán Goldfrid pra criar um universo de tensão, mas todos - sem nenhuma exceção - todos os elementos das cenas já foram vistos e revistos. O começo sendo um grande déjà vu, as tentativas de inserção num humor mais rebuscado (uma indicação de piadas longe do cunho realista) e a ambiguidade da dúvida fílmica, tudo contribui e denigre a imagem do longa-metragem para criar um grande filme que não é e nunca será único em sua temática.

Ricardo Darin já fez melhor, isso fica claro vendo O Segredo dos Seus Olhos. A comparação com este filme é equivocada, mas de qualquer jeito ele se encaixa bem em seu personagem e é uma forte ligação para o filme. O que é equivocado é a forma como seu personagem é tratado, mais uma culpa no roteiro. A tentativa de crença que um professor possa se tornar tão obcecado com um caso a ponto de destruir sua carreira é incrédula para a maioria do povo. Há uma minúscula comparação com o recente Dentro da Casa seguindo esta lógica, mas ela é eliminada assim que observamos os motivos de provocação e os alvos desta.
Alberto Ammann faz o melhor personagem do filme, uma perfeita Capitu que, ao invés de ter um impasse da traição, tem o benefício da dúvida em seu favor. Calu Rivero tem tantas motivações erradas quanto uma atuação digna de pena, ela não chega perto do elenco principal e é obrigada a se enquadrar nele. Pobrezinha.

A fotografia é um verdadeiro show à parte, mas a troca de farpas entre o realismo e o incrível atinge uma linha tênue que fica difícil pra câmera delimitar. Algumas cenas, porém, valem o ingresso do filme (o filme de tensão argentino, não a cópia hollywoodiana), como a procura de Roberto por um objeto em sua casa, onde a câmera se move incessantemente até nos dar uma sequência genial do caos. Vale ressaltar também o ponto de vista do espectador que mescla entre dois lados, por mais que predomine o do protagonista.

Numa época de protestos, o principal argumento do filme ecoa nos primeiros minutos da sessão: todos somos borboletas no sistema. Quando uma borboleta morre, ninguém dá a mínima. Se uma borboleta de um milionário morrer, porém, isso chega a ser um crime. Até aí Tese Sobre Um Homicídio promete um suspense digno, se não fosse a falta de um foco específico, reviravoltas confusas e a distância entre os últimos cinco minutos do longa com os acontecimentos atuais. Como tese, o filme é um grande MM na folha de papel.

NOTA: 6

16 de junho de 2013

O Mirante (2012)

Um filme de Pelin Esmer com Olgun Şimşek e Nilay Erdönmez.

Filme visto no 2º Festival Internacional de Cinema de Brasília, Mostra Competitiva.

O Mirante é um filme turco de 2012 que apareceu no Brasil para participação em festivais. É duvidoso que ele consiga um público maior em alguma sala comercial, por mais que ele seja bem mais fácil do que alguns filmes que circulam atualmente, como Elena ou Cosmópolis. A fórmula hollywoodiana não para de ser usada no filme, que consegue se manter artístico ao utilizar o maniqueísmo, mas nunca explicitá-lo.

Nihad (Olgun Şimşek) trabalha em um mirante, vigiando áreas verdes em montanhas de cima de uma torre de onde consegue ver tudo: as estradas, as pessoas, a fumaça, os ônibus que passam nessas estradas... Nesses ônibus existe uma atendente chamada Seher (Nilay Erdönmez), uma moça que estudava numa boa faculdade e vivia com os pais, mas por uma infelicidade hedionda, viu-se desesperada para sair do ambiente familiar e conseguir trabalhar em algum lugar. Os dois têm seus próprios fantasmas e, quando se juntam, acabam tendo de enfrentá-los frente a frente.

A fotografia é eficaz o bastante para os momentos contemplativos de silêncio, onde observamos muitas imagens estáticas de natureza - provindas da relação guarda/ambiente, representada por Nihad. A câmera parada também é usada para o núcleo de Seher, onde o ambiente praticamente engole a personagem ao colocá-la minúscula em relação a toda a sala. O close não é tanto utilizado no filme, o que mais vale é a observação de uma cena por inteiro.

Observação é o aspecto que mais ganha em todo o longa. Seja em observação psicológica, natural ou comparativa, até mesmo metafórica. A falta de observação de um o levou a ser o homem que tudo vê, mas que nada pode. Ações não são o forte de Nihad, o personagem prefere a vida enclausurado, tendo de se contentar apenas consigo mesmo, sem nunca ter de enfrentar o passado. A comunicação direta do personagem apenas se dá com um ser-humano físico perto do desfecho do longa-metragem: até lá, as poucas falas de Nihad são feitas por um rádio, cheio de estática. O silêncio ganha.

Quanto a observação, mais uma vez, podemos destacar Seher como a observação óbvia do espectador. Seu lado jovem é simples de ser visto, é fácil de ser identificado. O relance já é o bastante para descobrir o que a jovem passou, mas relance algum é suficiente para descrever as cenas presenciadas pela personagem. Ela está marcada, isso fica claro em seu olhar - seja medo, seja nojo, seja desespero.

Desespero, desespero. O desespero vem da solidão de dois humanos ou da companhia de dois solitários? A cena final, um embate entre homem e mulher, humano e natureza, é o verdadeiro ganho do filme após seus exatos 100 minutos de duração. O Mirante não é um filme acessível, mas creiam: é um filme que pede para ser observado, ainda mais quando ninguém olha pra ele.

NOTA: 8

15 de junho de 2013

O Grande Gatsby (2013)

Um filme de Baz Luhrmann com Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan e Joel Edgerton.

Fama, riqueza, dinheiro e luxo. Todo mundo já quis alguma dessas coisas na vida, e na maioria das vezes a razão é unicamente pessoal. Uma vida melhor, mais preguiçosa, menos dura, onde o tempo seria melhor aproveitado para muitas outras coisas. E é nesse quesito que a vida se torna ambígua. Sendo riqueza e prosperidade as maiores virtudes para um homem alcançar, de que adianta a busca pela fortuna se apenas uma parte dela é aproveitada com a vida? Claro, há o outro lado, o espírito. Renunciando todos os fatores que acabamos de falar para alimentar a alma, não existe garantia de um outro lado que não seja a fé, essa sem certeza de muitas coisas.

As frases acimas são generalizações extremistas. Há muito mais do que o dinheiro ou a ascese. E é nesse quesito que entra a escolha, o maior trunfo desta quarta adaptação do livro de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. Nick Carraway (Tobey Maguire) é um jovem sulista que se vê na grande selva de pedra, a Nova York dos anos 20. Ele apenas conhece sua prima Daisy (Carey Mulligan) e seu marido, Tom Buchanan (Jeol Edgerton) na cidade, e não é muito de interagir com todos. Aos poucos, porém, ele vai se aproximando de seu misterioso vizinho, um homem rico que faz festas a desconhecidos todas as noites. Esse homem é Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), e Nick mal podia prever a reviravolta em que ele entraria com esse novo relacionamento.

Baz Luhrmann é conhecido por seu ritmo rápido, por uma direção de arte com cores gritantes e por seus romances que tentam atingir o épico ao máximo. O Grande Gatsby não fica diferente, mas isso auxilia o filme, faz ele ganhar uma personalidade que não teria se fosse traduzido no cinema por meio do drama usual. Não existe uma representação tão interativa para as festas imensas de Gatsby se não fosse pela montagem de Baz. Por falar em interação, o 3D é desnecessário para a experiência visual. Vale muito mais a pena ver a incessante Nova York com a visão do diretor, iluminada e com uma rapidez de acontecimentos imensa.

A atuação não é incapaz de levar o filme. Vemos isso na versatilidade do ator mais esquecido das premiações, o grande Leonardo DiCaprio que, mais uma vez, insere um personagem bem característicos em trejeitos. Por Gatsby ser um leão em uma jaula, são duas personalidades que ele tem de fazer a toda cena: a máscara e o rabo de seu leão. A inquietude em seus dedos enquanto o sorriso verdadeiro permanece em seu rosto, uma verdadeira representação da arma de Chekhov. Em nível de excelência, após Leonardo DiCaprio está a mesma ambiguidade do desconforto - e dessa vez, de uma forma muito mais sutil - com Joel Edgerton. Enquanto Gatsby não aparece, é Edgerton que segura o filme nas costas de jogador de pólo, sempre com uma dupla intenção que não faz questão de esconder do público. O que os dois têm em comum? Algo que poderia ser mal interpretado, mas que aqui é essencial: carisma. O acerto de um significa o erro do outro, mas é muito custoso para entendermos o que é isso. A cena entre os dois e o que ela representa é, verdadeiramente, o ápice da fita, até a calmaria que precede os momentos finais.

Tobey Maguire não faz um bom trabalho, infelizmente, e por ser o protagonista isso até prejudica o andamento da fita. A repetição parece ser seu maior trunfo - e não é um quesito tão bom assim. Isla Fisher é o outro elo distante da fita que não surpreende. O resto do elenco não se sobressai a Edgerton ou DiCaprio, mas faz o bom trabalho que os acompanha na carreira. Jason Clarke é a maior prova disso. Os trejeitos do tolo mecânico são divertidos quando sabemos de toda a história que ele carrega em suas costas. Elizabeth Debicki é a estreante da vez, que consegue dar vida e encantamento a sua Jordan Baker.

Necessito de um parágrafo para a personagem de Carey Mulligan por sua ligação. Ela é, ninguém menos do que Daisy Buchanan, personagem fundamental na fita. Sua entrada desde o começo é feita para nos dar a mesma sensação literária: entusiasmo, surpresa, paixão. Daisy tem movimentos leves, suaves, e seu figurino (grande jogada no filme inteiro!) a acompanha nisso. Ela, como os dois homens citados anteriormente, também tem seu duplo sentido. E a percepção dele no espectador talvez seja a maior surpresa do filme e o único ato digno de causar nojo. O romance entre o casal é bem ilustrado pela trilha sonora diversa, que mescla artistas contemporâneos (como Lana Del Rey, The XX e Beyoncé) com a música dos anos 20. As letras, de qualquer forma, sempre tem um lado para se falar do épico romance entre Jay e Daisy, são letras proféticas, as quais ninguém dá ouvidos.

O roteiro, porém, é o maior pecado. Quando lemos a obra literária, o filme é muito mais do que festa, máfia ou amor. É sobre o ser-humano, o que não fica muito claro no filme. Há aqueles momentos de clareza, a maioria em seu final, mas quando necessitamos uma explicação sobre o que está sendo tratado em tela, esta passa correndo em um minuto ou menos. O Grande Gatsby não tem um foco, apenas uma história de amor que parece ser menor do que é do modo grandioso que é tratado.

A grandiosidade de Baz Luhrmann estraga seu próprio filme, por diminuir o drama dos personagens. Sua tentativa de fazer uma segunda versão de Moulin Rouge (sim, tudo está lá: o escritor narrador, o romance supervalorizado e impossível, a rapidez no movimento, a apresentação de Daisy que se assemelha à Satine) não dá certo no total. Ao fim, a fita vale a pena e é uma das grandes adaptações do livro pro cinema. O que fica, porém, não é nenhuma lição grandiosa ou algo que faz jus à obre de Fitzgerald. É que seguindo o farol verde, vai ter muita, muita festa.

NOTA: 7